Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 21 de 91

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Em Águas Sombrias

Jules

 

 

EU ESTAVA NA cozinha quando a campainha tocou. Olhei pela janela e vi o detetive Townsend de pé nos degraus da varanda olhando para cima, para as janelas. Lena chegou à porta antes de mim. Abriu-a para ele e disse:

— Oi, Sean.

Townsend entrou na casa, roçando de leve o corpo magrelo de Lena ao passar por ela, reparando (ele deve ter reparado) em seu short jeans e em sua camisa dos Rolling Stones com a língua de fora. Ele estendeu a mão para mim e o cumprimentei. A palma estava seca, a pele tinha um tom enfermo, e ele exibia olheiras cinzentas. Lena o observava com os olhos semicerrados. Ela levou os dedos à boca e roeu uma unha.

Eu o conduzi até a cozinha e Lena nos seguiu. O detetive e eu nos sentamos à mesa, enquanto Lena ficou encostada na bancada. Ela cruzou as pernas, apoiando uma canela na outra, e em seguida transferiu o peso do corpo de um pé para o outro, cruzando as pernas outra vez.

Townsend não olhou. Ele tossiu, esfregou o pulso.

— A autópsia foi concluída — disse ele, baixinho. Olhou para Lena e depois para mim. — Nel foi morta pelo impacto da queda. Não há indicação de que outra pessoa esteja envolvida. Havia um pouco de álcool em seu sangue. — Sua voz ficou ainda mais baixa. — O suficiente para afetar negativamente seu bom senso. E para deixá-la sem equilíbrio.

Lena fez um barulho, um suspiro longo e estremecido. O detetive olhava para as mãos, agora entrelaçadas à sua frente na mesa.

— Mas... Nel andava com a firmeza de uma cabra no alto daquele penhasco — protestei. — E dava conta de bem mais que algumas taças de vinho. Na verdade, podia dar conta de uma garrafa...

Ele assentiu.

— Talvez — falou. — Mas, à noite, lá em cima...

— Não foi acidente — disse Lena, bruscamente.

— Ela não se jogou — vociferei.

Lena apertou os olhos, me encarando, na boca uma expressão de desdém.

— Como você sabe? — perguntou. Ela se virou para o detetive. — Você sabia que ela mentiu para você? Ela mentiu sobre não ter tido contato com a minha mãe. Mamãe tentou ligar para ela, tipo, sei lá quantas vezes. Ela nunca atendeu, nunca retornou a ligação, nunca... — Lena parou e olhou para mim. — Ela só... por que é que você está aqui, mesmo? Eu não quero você aqui. — Saiu pisando firme e bateu a porta da cozinha. Alguns instantes depois, também a porta do quarto.

 

O detetive-inspetor Townsend e eu permanecemos sentados em silêncio. Fiquei esperando que ele me perguntasse sobre os telefonemas, mas ele não disse nada; seus olhos eram impenetráveis, o rosto, sem expressão.

— Você não acha estranho o fato de ela estar convencida de que Nel fez isso de caso pensado? — falei, por fim.

Ele se virou para mim, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado. Mesmo assim, não disse nada.

— Vocês não têm um suspeito nesta investigação? Quer dizer... é que eu tenho a impressão de que ninguém aqui se importa que ela esteja morta.

— Mas você se importa? — perguntou ele, sem se alterar.

— Que tipo de pergunta é essa? — Senti o rosto ficar quente. Sabia o que estava por vir.

— Srta. Abbott — começou ele. — Julia.

— Jules. É Jules. — Eu tentava ganhar tempo, adiando o inevitável.

— Jules. — Ele pigarreou. — Como Lena acabou de mencionar, embora você tenha nos dito que não mantinha contato com sua irmã há anos, os registros de chamadas do celular de Nel revelam que, só nos últimos três meses, ela fez onze ligações para o seu telefone. — Com o rosto queimando de vergonha, desviei o olhar. — Onze ligações. Por que mentir para nós?

(Ela vive mentindo, resmungou você, sombriamente. Vive mentindo. Vive contando histórias .)

— Eu não menti — respondi. — Nunca falei com ela. Foi como Lena disse: ela deixava recados, eu não retornava. Então, não menti — repeti. Soei fraca, falsa, até para mim mesma. — Olhe, você não pode me pedir para explicar isso porque não há jeito de eu conseguir fazer com que uma pessoa de fora entenda. Nel e eu tínhamos problemas há anos, mas isso não tem nada a ver com a morte dela.

— Como você sabe? — perguntou Townsend. — Se você não falava com ela, como sabe com o que tinha a ver?

— Eu só... Tome aqui — comecei, estendendo o celular. — Tome. Ouça você mesmo. — Minhas mãos estavam tremendo e, quando pegou o telefone, as dele também. Ele escutou sua mensagem final.

— Por que você não retornava as ligações dela? — indagou, a expressão no rosto transparecendo decepção. — Ela parecia tensa, você não acha?

— Não, eu... Eu não sei. Ela parecia a Nel. Às vezes estava feliz, às vezes estava triste, às vezes estava zangada, mais de uma vez estava bêbada... Não significava nada. Você não a conhece.

— As outras ligações que ela fez — continuou ele, agora com um tom mais agressivo. — Você ainda tem os recados?

Eu não tinha, não todos, mas ele escutou os que eu havia armazenado, a mão segurando meu celular com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Quando terminou, me devolveu o aparelho.

— Não apague esses. Talvez seja preciso escutar outra vez. — Ele arrastou a cadeira para trás, ficou de pé, e eu o segui até o corredor.

Na porta, ele se virou para me encarar.

— Vou te dizer uma coisa — começou —, eu acho estranho você não ter retornado as ligações dela. Que não tenha tentado descobrir por que ela queria falar com você com tanta urgência.

— Pensei que ela só quisesse chamar atenção — repliquei, baixinho, e ele me deu as costas.

Só depois de ele sair e fechar a porta foi que me lembrei. Corri atrás dele.

— Detetive Townsend — gritei —, tinha uma pulseira. A pulseira da minha mãe. Nel a usava sempre. Já a encontraram?

Ele fez que não com a cabeça, virando-se de novo para me olhar.

— Não encontramos nada, não. Lena disse à sargento Morgan que, apesar de Nel realmente usar a pulseira com frequência, não era algo que usasse todos os dias. Embora — continuou ele, baixando a cabeça —, eu imagine que você não teria como saber disso.

Lançando um olhar para a casa, ele entrou no carro e foi deixando a entrada de veículos de ré, bem devagar.