Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 61 de 91

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Em Águas Sombrias

Jules

 

O POLICIAL — um que eu ainda não tinha conhecido — quis entrar em casa comigo. Era jovem, devia ter uns 25 anos, embora a carinha imberbe de querubim o fizesse parecer ainda mais novo. Por mais gentil que se mostrasse, insisti para que fosse embora. Eu não queria ficar sozinha com um homem na casa, por mais inofensivo que pudesse parecer.

Subi e preparei um banho. Água, água por todos os lados. Eu não estava muito a fim de ficar mergulhada outra vez, mas não conseguia pensar numa melhor maneira de acabar com a friagem que me doía os ossos. Sentei na beirada da banheira, mordendo o lábio para impedir que os dentes batessem, o celular na mão. Ligava para o telefone de Lena, sem parar, e ouvia a sua mensagem alegre, a voz cheia de uma energia que eu nunca ouvi quando ela fala comigo.

Quando a banheira estava pela metade, eu entrei, os dentes cerrados contra o pânico, os batimentos cardíacos acelerando na medida em que o corpo afundava. Está tudo bem, está tudo bem, está tudo bem. Você disse isso. Naquela noite, quando estávamos aqui juntas, enquanto você despejava água quente sobre a minha pele, enquanto me tranquilizava. Está tudo bem, você disse. Está tudo bem, Julia. Está tudo bem. Não estava, óbvio, mas você não sabia disso. A única coisa que você pensou que aconteceu foi que eu tinha tido um dia péssimo, que tinham me zoado, me humilhado e que eu tinha sido rejeitada por um garoto de quem eu estava a fim. E, para completar, num ato melodramático, eu tinha ido até o Poço dos Afogamentos e mergulhado.

Você ficou zangada porque achou que eu tinha feito aquilo para te prejudicar, para te meter em encrenca. Para fazer a mamãe me amar mais, até mais do que já amava. Para fazê-la rejeitar você. Porque teria sido culpa sua, não teria? Você tinha feito bullying comigo, era para você ter ficado de olho em mim, e aquilo tinha acontecido sob a sua responsabilidade.

Fechei a torneira com o dedo do pé e deixei o corpo deslizar para dentro da banheira; meus ombros afundaram, meu pescoço, minha cabeça. Prestei atenção nos sons da casa, distorcidos, abafados, tornados estranhos pela água. Um baque súbito me fez pular, voltando para o ar frio. Prestei atenção. Nada. Estava imaginando coisas.

Mas, quando deslizei para baixo outra vez, tive a certeza de ter ouvido um rangido na escada, passos, lentos e constantes, pelo corredor. Eu me sentei perfeitamente ereta e agarrei a beirada da banheira. Outro rangido. Uma maçaneta girando.

— Lena? — gritei, minha voz soando infantil, aguda e fraca. — Lena, é você?

O silêncio que se seguiu encheu os meus ouvidos e, dentro dele, imaginei ouvir vozes.

A sua voz. Mais um dos seus telefonemas, o primeiro. O primeiro depois da nossa briga no enterro, depois da noite em que você me fez aquela pergunta horrível. Não demorou muito — uma semana, talvez duas — até você me ligar tarde da noite e me deixar uma mensagem. Estava chorosa, suas palavras saíam arrastadas, a voz quase inaudível. Você me disse que ia voltar a Beckford, que ia rever um velho amigo. Precisava conversar com alguém e eu não adiantava de nada. Não pensei nisso na época, não dei importância.

Só agora eu entendia, e tive um calafrio apesar da quentura da água. Esse tempo todo eu te culpei, mas devia ter sido o contrário. Você voltou para ver um velho amigo. Estava atrás de consolo porque eu a rejeitei, porque eu não queria falar com você. E você procurou por ele. Eu falhei com você, e continuei a falhar com você. Abracei meus joelhos dobrados com toda a força, e as ondas de angústia me varriam sem cessar: eu falhei com você, eu te magoei e o que me mata é que você nunca soube por quê. Passou a vida toda tentando entender por que eu te odiava tanto, e eu só precisava ter te contado. Era só eu ter atendido o telefone quando você ligava. E agora era tarde demais.

Houve outro barulho, mais alto — um rangido, um arranhado, eu não estava imaginando coisas. Tinha alguém na casa. Eu saí da banheira e me vesti o mais silenciosamente que pude. É Lena, falei para mim mesma. É, sim. É Lena. Verifiquei quarto por quarto do segundo andar devagarinho, mas não tinha ninguém lá, e, de cada espelho, meu rosto apavorado zombava de mim. Não é Lena. Não é Lena.

Tinha de ser, mas onde ela estaria? Devia estar na cozinha, devia estar com fome — eu chegaria lá embaixo e ela estaria com a cabeça enfiada na geladeira. Desci a escada pé ante pé, atravessei o vestíbulo, passei pela porta da sala de estar. E lá, pelo canto do olho, eu vi. Uma sombra. Um vulto. Alguém sentado no banco da janela.