Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 26 de 91

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Em Águas Sombrias

Josh

 

 

TIVE UMA BRIGA com a mamãe antes de a gente sair para o enterro. Eu desci e ela estava lá no corredor passando batom na frente do espelho. Estava com uma blusa vermelha. Aí, eu disse: “Você não pode usar essa blusa num enterro, é falta de respeito.” Ela meio que deu uma risada engraçada e entrou na cozinha como se eu não tivesse falado nada. Mas eu não ia desistir daquilo porque a gente não precisa chamar mais atenção do que já chama. É capaz de a polícia estar lá — a polícia sempre aparece no enterro de gente que morre de maneira suspeita. Já é ruim o bastante eu ter mentido para eles, e mamãe também — o que eles vão achar quando ela aparecer lá vestida como quem vai para uma festa?

Eu segui a mamãe para dentro da cozinha. Ela me perguntou se eu queria um chá e respondi que não. Falei que achava que ela não devia ir ao enterro e ponto final, e ela perguntou: “E por que diabos não?” E eu respondi: “Você nem gostava dela. Todo mundo sabe que você não gostava dela.” Ela abriu um sorriso irritante e falou: “Ah, sabem, é?” E eu disse: “Estou indo porque sou amigo da Lena.” E ela falou: “Você não é, não.” O papai desceu a escada e reclamou: “Não diga isso, Lou. É claro que ele é.” Ele falou alguma coisa para ela bem baixinho para eu não ouvir, ela fez que sim com a cabeça e subiu.

Papai fez chá para mim, que eu não queria, mas tomei mesmo assim.

— A polícia vai estar lá? — perguntei a ele, mesmo sabendo a resposta.

— Imagino que sim. O Sr. Townsend conhecia Nel, não conhecia? E, bem... imagino que algumas pessoas da cidade vão querer prestar uma última homenagem a ela, quer a tenham conhecido ou não. Eu sei... sei que é complicado para a gente, mas acho certo a gente tentar fazer o possível, você não concorda? — Eu não falei nada. — E você vai querer ver a Lena, não vai?, dizer a ela o quanto lamenta a sua perda? Imagine só como a pobre da Lena deve estar se sentindo. — Continuei sem falar nada. Ele estendeu a mão para bagunçar meu cabelo, mas eu me encolhi.

— Pai — comecei —, sabe quando a polícia perguntou sobre domingo de madrugada, sobre onde a gente estava e tudo mais?

Ele assentiu, mas notei que ele olhou por cima da minha cabeça para ver se a mamãe estava escutando.

— Você disse que não tinha ouvido nada fora do normal, não foi? — perguntou ele. Eu fiz que sim. — Você contou a verdade.

Fiquei sem saber se ele tinha dito Você contou a verdade? como uma pergunta, ou Você contou a verdade, como afirmação.

Eu queria falar uma coisa, queria dizer em voz alta. Queria perguntar: Mas e se? E se ela fez algo ruim? Só para o papai me dizer que eu estava sendo ridículo, só para ele gritar comigo e perguntar: Como você pôde pensar uma coisa dessas?

Eu disse:

— A mamãe foi ao mercado.

Ele olhou para mim como se eu fosse idiota.

— É, eu sei. Ela foi ao mercado cedo aquele dia para comprar leite. Josh... Ah! Pronto — disse ele, olhando por cima do meu ombro. — Aí está ela. Bem melhor, não acha?

Ela havia trocado a blusa vermelha por uma preta.

Melhor, estava, mas eu continuava com medo do que ia acontecer. Tinha medo de ela dizer alguma coisa ou de ela rir no meio da cerimônia ou qualquer coisa assim.

A cara dela naquele momento estava me incomodando muito, não uma cara de quem está feliz nem nada, era mais como... como a cara que ela faz para o papai quando sai vitoriosa depois de uma discussão, que nem quando ela diz: Eu avisei que seria mais rápido pegar a estrada A68 . Era como se tivesse ficado provado que ela estava certa sobre alguma coisa e que não conseguisse tirar aquela expressão de vitória do rosto.

 

Quando chegamos à igreja, um monte de gente andava de um lado para outro — isso fez eu me sentir um pouco melhor. Vi o Sr. Townsend e acho que ele me viu, mas não se aproximou da gente nem disse nada. Ficou só em pé ali, olhando em volta, então parou e ficou observando enquanto Lena e a tia atravessavam a ponte. Lena estava parecendo gente grande, diferente de como ela costuma ser. Mas ainda assim bonita. Quando passou andando pela gente, me viu e abriu um sorriso triste. Eu quis ir até ela e lhe dar um abraço, mas a mamãe estava segurando a minha mão com tanta força que não deu para eu me afastar.

Eu não precisava ter ficado com medo de a mamãe rir. Quando entramos na igreja, ela começou a chorar, a soluçar tão alto que outras pessoas se viraram para olhar. Não sei direito se isso melhorou ou piorou as coisas.