Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 33 de 91

Páginas do PDF

Em Águas Sombrias

Terça-feira, 18 de agosto | Louise

PARTE DOIS

TERÇA-FEIRA, 18 DE AGOSTO

Louise

 

A DOR DE Louise era como o rio: constante e em eterna mutação. Ondulava, alagava, em fluxos e refluxos, uns dias frio, escuro e profundo, outros, rápido e intenso. Sua culpa era igualmente líquida, ia se infiltrando pelas frestas quando tentava represá-la. Tinha dias bons e dias ruins.

Ontem tinha ido à igreja para vê-los colocando Nel debaixo da terra. Na verdade — e ela devia ter imaginado —, não foi o que fizeram. Ainda assim, teve a chance de observar enquanto a deslizavam para ser cremada, e isso fez as vezes de um dia bom. Até sua profusão de emoções — ela havia chorado de soluçar durante toda a cerimônia, mesmo sem querer — fora catártica.

Mas hoje ia ser uma merda de dia. Sentiu aquilo assim que acordou, não uma presença, mas uma ausência.

A euforia que sentira de início, aquela satisfação vingativa, já se esvaía. E agora, com Nel reduzida a cinzas, Louise se via sem nada. Nada. Não tinha mais a quem direcionar sua dor e seu sofrimento porque Nel se fora. E ela temia que, no fim das contas, o único lugar para o qual poderia levar o tormento que sentia era para casa.

Para casa, para o marido e o filho. Então. Hoje ia ser uma merda, mas essa merda tinha de ser enfrentada, encarada de cima a baixo. Ela havia tomado uma decisão; chegara a hora de seguir em frente. Precisavam ir embora antes que fosse tarde demais.

Louise e o marido, Alec, vinham discutindo o assunto fazia semanas — o tipo de bate-boca contido e em voz baixa que tinham ultimamente. Alec achava que seria melhor se mudarem antes do início do novo semestre escolar. Deviam permitir que Josh começasse o novo ano letivo num lugar completamente novo, argumentou ele, onde ninguém soubesse quem ele era. Onde não fosse ser confrontado com a ausência da irmã todos os dias.

— Para ele nunca ter de falar dela? — indagou Louise.

— Ele vai falar dela com a gente — replicou Alec.

Discutiam em pé na cozinha, as vozes tensas e abafadas.

— Precisamos vender esta casa e recomeçar — disse Alec. — Eu sei — falou, erguendo as mãos assim que Louise começou a protestar. — Eu sei que esta é a casa dela. — Ele fraquejou nesse momento, pousando as mãos grandes e cheias de sardas sobre a bancada. Apoiou-se ali como se sua vida dependesse disso. — Temos de recomeçar de alguma maneira, Lou, pelo Josh. Se fôssemos só você e eu...

Se fossem só eles dois, pensou ela, eles seguiriam Katie para dentro d’água e acabariam logo com aquilo tudo. Não seguiriam? Não tinha certeza se Alec faria uma coisa dessas. Costumava achar que só pais e mães podiam compreender o tipo de amor que engole por inteiro, mas agora se perguntava se eram só as mães que compreendiam. Alec sentia a dor, claro, mas ela não sabia se ele sentia o desespero. Ou o ódio.

Assim, as rachaduras começavam a aparecer num casamento que ela acreditara ser inabalável. Mas é claro que ela não sabia de nada disso antes. Agora era óbvio: nenhum casamento seria capaz de sobreviver a uma perda daquelas. Sempre se interporia entre eles — o fato de que nenhum dos dois tenha sido capaz de impedi-la. Pior, que nenhum dos dois tenha suspeitado de nada. Que ambos tenham ido se deitar e caído no sono e descoberto a cama dela vazia pela manhã, sem pensar, nem por um segundo, que ela estava dentro do rio.

Não havia a menor esperança para Louise, e pouca, pensou ela, para Alec, mas Josh era diferente. Josh sentiria saudades da irmã todos os dias, pelo resto da vida, mas poderia ser feliz: seria feliz. Ele a carregaria consigo, mas também trabalharia, viajaria, se apaixonaria, viveria. E a melhor chance que tinha era indo embora daqui, para longe de Beckford, para longe do rio. Louise sabia que o marido estava certo.

Lá no fundo, ela tinha essa noção, só estivera relutante em encarar os fatos. Mas ontem, observando o filho depois do enterro, ela havia sido tomada pelo pavor. O rosto dele, tenso e ansioso. A facilidade com a qual ele se sobressaltava, tomando sustos quando ouvia barulhos mais altos, se encolhendo como um cão amedrontado em meio a muita gente. O jeito como se virava o tempo todo para olhá-la, como se estivesse regredindo para a primeira infância, não mais um menino independente de 12 anos, mas um garotinho assustado e carente. Tinham de tirá-lo dali.

E, no entanto, foi ali que Katie deu os primeiros passos, falou as primeiras palavras, brincou de pique-esconde, deu estrelas pelo jardim, brigou com o irmãozinho, consolando-o mais tarde, onde riu, cantou, chorou, xingou, sangrou e abraçou a mãe todos os dias quando chegava da escola.

Mas Louise havia tomado uma decisão. Como a filha, era determinada, embora fosse muito difícil. Só se levantar da mesa da cozinha, andar até o pé da escada, subir os degraus, colocar a mão na maçaneta, empurrá-la para baixo e entrar no quarto dela uma última vez. Porque essa era a sensação. De que aquela era a última vez que seria o quarto dela . Depois de hoje, passaria a ser outra coisa.

O coração de Louise era um bloco de madeira; não batia, apenas lhe causava dor, raspando contra o tecido macio, rasgando veia e músculo, inundando seu peito de sangue.

Dias bons e dias ruins.

Não podia deixar o quarto daquele jeito. Por mais difícil que fosse pensar em empacotar as coisas de Katie, guardar suas roupas, tirar seus quadros das paredes, guardá-la, escondê-la de vista, era pior pensar em pessoas desconhecidas ali dentro. Era pior pensar no que eles tocariam, em como procurariam pistas, em como ficariam impressionados com o quanto tudo parecia normal, com o quanto Katie parecera normal. Ela? Certamente que não? Decerto que ela não pode ser a tal que se afogou?

Então, Louise o faria: tiraria o material escolar de cima da escrivaninha e pegaria a caneta que um dia pousara na mão da filha. Dobraria a camisa de malha cinza macia com a qual Katie dormira, arrumaria a sua cama. Pegaria os brincos azuis que a tia favorita de Katie lhe dera no seu aniversário de 14 anos e os guardaria na caixinha de joias. Tiraria a grande mala preta de cima do armário do corredor e a encheria com as roupas de Katie.

Era o que faria.

Estava em pé no meio do quarto, pensando em tudo isso, quando ouviu um barulho às suas costas e se virou, dando com Josh no vão da porta a observá-la.

— Mãe? — Ele estava branco como um fantasma, a voz presa na garganta. — O que você está fazendo?

— Nada, meu amor, eu só... — Ela deu um passo em direção a ele, mas Josh recuou.

— Você vai... você vai esvaziar o quarto dela agora?

Louise fez que sim.

— Vou começar — respondeu ela.

— O que você vai fazer com as coisas dela? — perguntou ele, a voz ficando cada vez mais aguda. Ele soava estrangulado. — Vai dar tudo?

— Não, meu anjo. — Ela foi até ele e estendeu a mão para afastar os cabelos macios da testa. — Nós vamos guardar tudo. Não vamos dar nada.

Ele se mostrou preocupado.

— Mas será que você não devia esperar pelo papai? Ele não devia estar aqui? Você não devia estar fazendo isso sozinha.

Louise sorriu para ele.

— Eu só vou começar — disse ela, com o máximo de leveza que lhe foi possível. — Na verdade, achei que você tinha ido para a casa do Hugo de manhã, então... — Hugo era amigo de Josh, provavelmente seu único amigo de verdade. (Todos os dias, Louise agradecia ao Senhor a existência de Hugo e sua família, que acolhiam Josh sempre que ele precisava de refúgio.)

— Eu fui, mas esqueci o celular, então voltei para pegar. — Ele o ergueu para que ela pudesse ver.

— Ok — comentou ela. — Bom garoto. Vai almoçar por lá?

Ele fez que sim e tentou sorrir, então se foi. Ela esperou até ouvir a porta da casa bater antes de se sentar na cama e se permitir chorar de verdade.

Sobre a mesinha de cabeceira havia um elástico de cabelo velho, gasto e quase todo distendido, alguns fios do magnífico cabelo de Katie ainda entrelaçados a ele. Louise o pegou e o virou nas mãos, enlaçando-o entre os dedos. Levou-o de encontro ao rosto. Levantou-se e foi até a penteadeira, abriu a caixinha de joias de estanho em formato de coração e colocou o elástico de cabelo dentro. Ficaria ali junto com as pulseiras e os brincos — nada seria jogado fora, tudo ficaria guardado. Não aqui, mas em algum lugar; viajaria com eles. Nenhuma parte de Katie, nada do que ela havia tocado, definharia na prateleira empoeirada de um bazar beneficente.

No pescoço de Louise pendia o colar que Katie estava usando quando morreu, uma corrente de prata com um pássaro azul. Incomodava a Louise que ela tivesse escolhido aquele cordão em especial. Louise não imaginara que fosse um de seus preferidos. Não como os brincos de ouro branco que Louise e Alec haviam lhe presenteado no seu aniversário de 13 anos e que ela adorava, ou então a pulseira da amizade trançada (“pulseira da irmandade”) que Josh comprara para ela (com o próprio dinheiro!) nas últimas férias na Grécia. Louise não conseguia compreender por que Katie havia escolhido esse — um presente dado por Lena, de quem já nem parecia ser mais tão amiga assim, no pássaro a inscrição (nada compatível com Lena) com amor.

Não estava com nenhuma outra joia. Jeans, uma jaqueta, quente demais para uma noite de verão, os bolsos cheios de pedras. A mochila igualmente carregada. Quando a encontraram, estava cercada de flores, algumas delas ainda presas em sua mão. Como Ofélia. Como o quadro na parede de Nel Abbott.

As pessoas diziam que, na melhor das hipóteses, era um argumento fraco, e, na pior, um argumento ridículo e cruel, culpar Nel Abbott pelo que acontecera com Katie. Só porque Nel escrevia sobre o poço, falava sobre o poço, tirava fotos no local, realizava entrevistas, publicava artigos na imprensa, falara a respeito uma vez num programa de rádio da BBC, só porque ela tinha dito as palavras “local de suicídios”, só porque falava das suas adoradas “nadadoras” como heroínas gloriosas e românticas, como mulheres corajosas que encontraram mortes tranquilas num lugar de beleza escolhido pelas próprias, ela não podia ser considerada responsável.

Só que Katie não se enforcou atrás da porta do quarto, não cortou os pulsos nem engoliu um monte de comprimidos. Ela escolheu o poço. Ignorar isso é que era ridículo, ignorar o contexto, ignorar o quanto algumas pessoas podem ser sugestionáveis — gente sensível, gente jovem. Adolescentes — crianças boas, inteligentes, gentis — ficam inebriadas de ideias. Louise não entendia por que Katie fez o que fez, nunca entenderia, mas sabia que o seu não fora um ato isolado.

Nas duas únicas sessões que teve com o terapeuta de luto, ele havia lhe aconselhado a não procurar saber o porquê. Que ela jamais conseguiria responder a essa pergunta, que ninguém conseguiria; que em muitos casos onde alguém tira a própria vida, não existe uma única razão, a vida não é tão simples assim. Louise, em desespero, ressaltara que Katie não tinha nenhum histórico de depressão, que não vinha sofrendo bullying (conversaram com a escola, reviraram os e-mails dela pelo avesso, a conta do Facebook, não encontraram nada além de amor). Ela era bonita, ia bem na escola, tinha ambições, garra. Não estava infeliz. Às vezes era passional, com frequência irritadiça. Temperamental. Tinha 15 anos. Acima de tudo, não era de guardar segredos. Se tivesse se metido em alguma enrascada, teria contado à mãe. Contava tudo à mãe, desde sempre.

— Ela não escondia as coisas de mim — disse Louise ao terapeuta, vendo os olhos dele desviarem de seu rosto.

— É o que todos os pais e mães pensam — disse ele, baixinho —, e eu sinto dizer que todos estão errados.

Louise não foi mais ao terapeuta depois disso, mas o estrago já havia sido feito. Uma fenda se abrira e a culpa se infiltrara, uma gota, de início, depois uma inundação. Ela não conhecia a filha. Era por isso que o colar a incomodava tanto, não só porque viera de Lena, mas porque se transformara num símbolo de tudo aquilo que não sabia sobre a vida da filha. Quanto mais pensava nisso, mais se culpava: por ter estado ocupada demais, por ter se concentrado demais em Josh, por ter fracassado tão completamente em proteger a filha.

A maré de culpa foi subindo e subindo e só havia uma forma de ela manter a cabeça acima da superfície, de não se afogar, ou seja, encontrando uma razão, apontando para ela e dizendo: Aí está. Foi isso. Sua filha havia feito uma escolha sem sentido, mas, com os bolsos cheios de pedras e as mãos cheias de flores, essa escolha tinha contexto. O contexto fora proporcionado por Nel Abbott.

Louise colocou a mala preta em cima da cama, abriu o armário e começou a tirar as roupas de Katie dos cabides: as camisas de malha coloridas, os vestidos de verão, o casaco de capuz rosa-shocking que ela usara o inverno passado inteirinho. Sua visão embaçou e ela tentou pensar em alguma coisa que impedisse as lágrimas de brotarem, tentou encontrar alguma imagem na qual focar a mente, então pensou no corpo de Nel, todo quebrado dentro d’água, e tirou todo o consolo que pôde daí.