Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 67 de 91

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Em Águas Sombrias

Sean

 

HOWICK. PERTO DE Craster. Não era como se a história estivesse se repetindo, ela parecia mais estar brincando comigo. Não fica longe de Beckford, não muito mais que uma hora de carro, mas eu nunca vou lá. Não vou à praia nem ao castelo, nunca fui comer o famoso arenque do famoso fumeiro. Esse era o grande prazer da minha mãe, o desejo dela. Meu pai nunca me levou e hoje eu nunca vou.

Quando Tracey me disse onde ficava a casa, aonde eu teria que ir, isso mexeu comigo. Me senti culpado. Me senti como costumava me sentir quando lembrava do desejo da minha mãe de fazermos uma coisa especial no aniversário dela, a que rejeitei em favor da Torre de Londres. Se eu não tivesse sido tão ingrato, se eu tivesse dito que queria ir com ela à praia, ao castelo, será que ela teria ficado? Será que as coisas teriam acontecido de outra maneira?

Essa viagem que nunca mais aconteceria foi um dos muitos assuntos que me ocuparam depois que minha mãe morreu, quando todo o meu ser se concentrou em construir um mundo novo, uma realidade alternativa na qual ela não precisava morrer. Se tivéssemos feito a viagem para Craster, se eu tivesse arrumado meu quarto quando me mandavam, se eu não tivesse enlameado a mochila nova da escola quando fui nadar no rio, se eu tivesse ouvido meu pai e não o tivesse desobedecido com tanta frequência. Ou, então, mais tarde, eu me perguntava se talvez não devesse ter ouvido meu pai, se devesse sim tê-lo desobedecido, se devesse ter ficado acordado até mais tarde naquela noite em vez de ir me deitar. Talvez, então, eu pudesse tê-la convencido a não ir.

Nenhum dos meus cenários alternativos funcionou e, por fim, alguns anos mais tarde, compreendi que não havia nada que eu pudesse ter feito. O que minha mãe queria não era que eu tivesse feito determinada coisa, era que outra pessoa tivesse feito — ou deixado de fazer — alguma coisa: o que ela queria era que o homem que amava, o homem com quem se encontrava em segredo, o homem com quem vinha traindo meu pai, não a deixasse. Esse homem era invisível, não tinha nome. Era um fantasma, o nosso fantasma — meu e de meu pai. Ele nos deu o porquê, nos deu algum grau de alívio: a culpa não era nossa. (Era dele, ou dela, ou dos dois juntos, da minha mãe traidora e de seu amante. Não havia nada mais que pudéssemos ter feito, ela simplesmente não nos amava o suficiente.) Ele nos proporcionou um jeito de nos levantarmos da cama todas as manhãs, uma forma de seguirmos em frente.

Então Nel apareceu. Da primeira vez que veio à nossa casa, ela procurou meu pai. Queria conversar com ele sobre a morte da minha mãe. Ele não estava no dia, nem eu, então ela conversou com Helen, que foi curta e grossa. Patrick não só não conversará com você, disse-lhe Helen, como não vai gostar dessa intromissão. Sean tampouco, ou nenhum de nós. É um assunto particular, disse Helen, e é passado.

Nel a ignorou e abordou papai do mesmo jeito. A reação dele a intrigou. Não se zangou, como Nel talvez tivesse esperado; não lhe disse que era um assunto doloroso demais para ser discutido, que não tolerava ter de relembrar tudo aquilo. Ele disse que não havia nada a ser dito. Nada aconteceu. Foi isso que disse para ela. Nada aconteceu.

Então, finalmente, ela me procurou. Foi no meio do verão. Eu tinha tido uma reunião na delegacia de Beckford e, quando saí, encontrei-a encostada no meu carro. Estava com um vestido tão comprido que varria o chão, sandálias de couro em pés queimados de sol, esmalte azul berrante nas unhas dos pés. Eu a vira pela cidade antes disso, eu a notara — era linda, difícil não notar. Mas até então eu nunca a vira de perto. Nunca tinha me dado conta de quão verdes eram seus olhos, de como lhe conferiam um aspecto de alteridade. Como se não fosse exatamente deste mundo, certamente não deste lugar. Era exótica demais para isso.

Ela me contou o que meu pai tinha lhe dito, que nada aconteceu, e me perguntou:

— É assim que você se sente também?

Eu argumentei que ele não quis dizer isso, que não quis dizer, realmente, que nada aconteceu. Que só quis dizer que não falamos a respeito, que ficou para trás. Que deixamos o assunto no passado.

— Bem, é claro que sim — disse ela, sorrindo para mim. — E eu compreendo, mas é que eu estou trabalhando num projeto, sabe, um livro, e talvez uma exposição também, e eu...

— Não — falei. — Quer dizer, eu sei o que você está fazendo, mas eu, nós, não podemos fazer parte disso. É vergonhoso.

Ela chegou ligeiramente para trás, mas o sorriso permaneceu nos lábios.

— Vergonhoso? Que palavra estranha de se usar. O que é vergonhoso?

— É vergonhoso para nós — respondi. — Para ele. — (Para nós ou para ele, não lembro qual dos dois eu disse.)

— Ah. — O sorriso sumiu de seu rosto e ela pareceu perturbada, preocupada. — Não. Não é... não. Não é vergonhoso. Eu não acho que ninguém mais pense nisso, pensa?

— Ele pensa.

— Por favor — pediu ela. — Você não poderia conversar comigo?

Acho que devo ter lhe dado as costas porque ela colocou uma das mãos no meu braço. Baixei os olhos e vi os anéis de prata em seus dedos, a pulseira em seu braço e o esmalte azul descascado nas unhas.

— Por favor, Sr. Townsend. Sean. Faz tanto tempo que quero conversar com você sobre isso.

Estava sorrindo outra vez. Sua forma de se dirigir a mim, direta e íntima, fez com que fosse impossível dizer não para ela. Soube naquele momento que estava encrencado, que ela era encrenca, o tipo de encrenca pela qual eu vinha esperando por toda a minha vida adulta.

Concordei em contar a ela o que eu me lembrava sobre a noite da morte da minha mãe. Disse que a encontraria em sua casa, na Casa do Moinho. Pedi a ela que mantivesse nosso encontro em segredo, porque aborreceria meu pai e aborreceria minha mulher. Ela se encolheu diante da palavra mulher e sorriu outra vez, e nós dois soubemos ali mesmo aonde aquilo ia dar. Da primeira vez que fui conversar com ela, não conversamos um só minuto.

Então tive de voltar. E continuei a voltar para vê-la e continuamos sem conversar. Eu passava uma hora com ela, ou duas, mas, quando ia embora, tinha a sensação de que tinham sido dias. Me preocupava, de vez em quando, que eu tivesse me desligado completamente, perdido a noção do tempo. Acontece às vezes. Meu pai diz que eu me ausento, como se fosse uma coisa que faço de propósito, algo que posso controlar, mas não é. É algo de muitos anos, desde a infância: uma hora estou presente, em seguida não estou mais. Não é que eu queira que aconteça. Às vezes, quando me desligo, eu me dou conta, e muitas vezes consigo me puxar de volta — aprendi sozinho a como fazer isso há muito tempo: passando a mão na cicatriz no meu pulso. Geralmente funciona. Mas nem sempre.

Nunca chegava a contar a história para ela, não de início. Ela me pressionava, mas eu a achava deliciosamente fácil de distrair. Imaginava que ela estava se apaixonando por mim e que nós iríamos embora, ela, Lena e eu, deixaríamos tudo para trás, partiríamos do vilarejo, do país. Eu imaginava que finalmente me seria permitido esquecer. Imaginava que Helen não choraria a minha partida, que logo seguiria em frente com a vida e encontraria alguém mais adequado à sua bondade constante. Imaginava que meu pai morreria dormindo.

Ela foi arrancando a história de mim, parte por parte, e ficou claro que se decepcionou. Não era a história que queria ouvir. Ela queria o mito, a história de terror, queria o menino que viu aquilo tudo. Eu me dei conta, então, de que quando ela abordou meu pai, ele tinha sido o aperitivo: eu era o prato principal. Eu seria a essência do seu projeto, porque fora assim que aquilo começara para ela, com Libby e, depois, comigo.

Ela arrancou coisas de mim que eu não queria lhe contar. Eu sabia que devia parar, mas não conseguia. Sabia que estava sendo sugado para dentro de algo de onde eu não conseguiria me libertar. Sabia que estava me tornando negligente. Paramos de nos encontrar na Casa do Moinho porque as férias escolares iam começar e Lena estava sempre em casa. Passamos a ir para a casa dos Wards, o que eu sabia ser um risco, mas não havia quartos de hotel disponíveis, não ali na cidade, então para onde mais podíamos ir? Nunca me passou pela cabeça parar de vê-la; naquela época isso me parecia impossível.

Meu pai faz as caminhadas dele de manhã bem cedo, então não tenho a menor ideia de por que ele estava lá naquela tarde. Mas ele foi e viu meu carro; esperou em meio às árvores até Nel sair, então me deu uma surra. Me espancou até eu cair no chão, me chutou no peito e nos ombros. Eu me encolhi, protegendo a cabeça da maneira que tinha aprendido a fazer. Não revidei porque sabia que ele pararia assim que estivesse satisfeito, e quando soubesse que eu não aguentava mais.

Em seguida, pegou minhas chaves e me levou de carro para casa. Helen ficou furiosa: primeiro com meu pai, pela surra, depois comigo, quando ele explicou o motivo. Eu nunca a vira com raiva antes, não daquele jeito. Foi só quando testemunhei a sua ira, seca e apavorante, que comecei a imaginar do que ela seria capaz, como talvez se vingasse. Imaginei-a fazendo as malas e indo embora, imaginei-a se demitindo da escola, o escândalo público, a raiva do meu pai. Foi esse o tipo de vingança que imaginei dela. Mas eu imaginei errado.