Em Águas Sombrias
Janeiro | Jules
JANEIRO
Jules
É ESQUISITO EU me sentar à mesa do café todas as manhãs com uma versão sua de 15 anos na minha frente. Ela tem os seus mesmos maus modos à mesa e revira os olhos com a mesma intensidade que você revirava os seus quando chamo a atenção dela. Senta na cadeira com os pés enfiados por baixo do corpo, os joelhos ossudos se projetando para os lados, exatamente como você se sentava. Adota a mesma expressão sonhadora quando se perde na música, ou nos pensamentos. Não ouve. É voluntariosa e irritante. Canta, o tempo todo e fora do tom, igualzinho à mamãe. Tem a risada do nosso pai. Ela me dá um beijo na bochecha todas as manhãs antes de sair para a escola.
Não tenho como me redimir com você pelo que fiz de errado — minha recusa em escutá-la, minha ânsia em pensar o pior de você, minha incapacidade de ajudá-la quando você estava desesperada, até mesmo minha incapacidade de amá-la. Como não há nada que eu possa fazer por você, minha redenção terá de ser um ato de maternidade. Vários atos de maternidade. Eu não pude ser uma irmã para você, mas vou tentar ser uma mãe para sua filha.
No meu apartamento minúsculo, porém organizado, de Stoke Newington, ela promove o caos diariamente. Preciso de uma imensa força de vontade para não ficar ansiosa e em pânico com aquela confusão toda. Mas estou me esforçando. Eu me lembro da versão destemida de mim mesma que veio à tona no dia que enfrentei o pai de Lena; eu gostaria que aquela mulher retornasse. Gostaria de ter mais daquela mulher em mim, mais de você em mim, mais de Lena. (Quando Sean Townsend me deixou em casa no dia do seu enterro, ele disse que eu era igual a você, e eu discordei, disse que era a antiNel. Eu costumava sentir orgulho disso. Não sinto mais.)
Tento curtir a vida que levo com sua filha, já que ela é a única família que eu tenho ou que terei. Eu a curto e me consolo com uma coisa: o homem que matou você vai morrer na cadeia e isso não vai demorar. Ele está pagando pelo que fez com a mulher, com o filho, e com você.