Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 22 de 91

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Em Águas Sombrias

Jules

 

ENTÃO, DE ALGUMA forma, isto acabou sendo culpa minha. Você é mesmo impressionante, Nel. Está morta, possivelmente assassinada, e todo mundo aponta o dedo para mim. Eu nem estava aqui! Fiquei irritadiça, reduzida à minha “eu” adolescente. Queria gritar com aquelas pessoas. Como isto é culpa minha?

Depois que o detetive saiu, voltei para dentro de casa como um furacão, captando minha imagem no espelho do corredor ao passar, e me surpreendi ao pegar você me encarando (mais velha, não tão bonita, mas ainda assim você). Alguma coisa apertou dentro do meu peito. Fui para a cozinha e chorei. Se falhei com você, preciso saber como. Posso não ter amado você, mas não tolero a ideia de vê-la abandonada dessa forma, descartada. Quero saber se alguém lhe fez mal e por quê; quero que paguem por isso. Quero esclarecer tudo para que talvez você possa parar de cochichar no meu ouvido que não se jogou, não se jogou, não se jogou. Eu acredito em você, está bem? E (sussurrando) quero ter certeza de que estou em segurança. Quero ter certeza de que não tem ninguém atrás de mim. Quero ter certeza de que a menina de quem vou ter de cuidar é só isso — uma menina inocente — e nada mais. Não algo perigoso.

Não conseguia parar de pensar em como Lena havia olhado para o inspetor Townsend, o tom da voz dela ao chamá-lo pelo nome (pelo nome?) e não pelo sobrenome, na forma como ele olhou para ela. Me perguntei se o que ela tinha dito à polícia a respeito da pulseira era verdade. Soava falso, para mim, porque você a reclamara para si, se apossara dela com tanta rapidez. Era possível, eu supunha, que você só tivesse insistido em ficar com ela porque sabia o quanto eu a queria. Quando você a encontrou no meio das coisas da mamãe e a colocou no pulso, eu reclamei com o papai (sim, mais uma vez contando histórias). Eu perguntei: “Por que é ela que tem de ficar com a pulseira?” Você retrucou: “Por que não? Eu sou a mais velha.” E, quando ele saiu, você sorriu ao admirá-la no pulso. “Combina comigo”, falou. “Não acha que combina comigo?” E beliscou uma camada de gordura no meu braço. “Duvido que ela fosse caber nesse seu bracinho gorducho.”

Enxuguei os olhos. Você me alfinetava desse jeito com frequência; a crueldade sempre foi o seu forte. Algumas farpas — sobre a minha gordura, sobre o quanto eu era lenta, sem graça — eu deixava para lá. Outras — “Ah, peraí, Julia... Seja sincera. Você não gostou nem um pouquinho?” — estavam entranhadas tão fundo na minha carne que eu não tinha como tirá-las a não ser abrindo novas feridas. Essa última foi sussurrada com uma voz pastosa dentro do meu ouvido no dia em que enterramos a nossa mãe — ah, eu teria ficado feliz em estrangular você com minhas próprias mãos por causa dessas palavras. E se você fez aquilo comigo, se foi capaz de me fazer sentir daquele jeito, em quem mais você despertou instintos assassinos?

Lá embaixo, nos recônditos da casa, em seu estúdio, remexi sua papelada. Comecei com as coisas mundanas. Dos arquivos-armários de madeira encostados na parede, tirei pastas contendo exames médicos seus e de Lena, a certidão de nascimento de Lena, sem o nome do pai. Eu já havia imaginado que esse seria o caso, claro; esse era um dos seus mistérios, um dos segredos que você guardava em seu íntimo. Mas que nem mesmo Lena soubesse? (Eu tive de me perguntar, maliciosamente, se você também talvez não soubesse.)

Havia boletins escolares da Park Slope Montessori, no Brooklyn, e da escola primária e secundária daqui de Beckford. Os títulos de propriedade da casa, uma apólice de seguro de vida (com Lena como beneficiária), extratos bancários, contas de investimento. Todos os fragmentos comuns de uma vida relativamente bem organizada, sem segredos para revelar nem verdades ocultas para contar.

Nas gavetas inferiores estavam suas pastas relacionadas “ao projeto”: caixas abarrotadas de impressões grosseiras de fotografias, páginas de anotações, algumas datilografadas, outras na sua caligrafia ilegível, em tinta azul e verde, palavras riscadas, escritas em maiúsculas e sublinhadas, como os desvarios de uma teórica das conspirações. Uma louca. Diferentemente das outras pastas, essas não estavam em ordem, estava tudo bagunçado, misturado. Como se alguém tivesse revirado os arquivos atrás de alguma coisa. Senti um calafrio, minha boca ficou seca. A polícia tinha revistado tudo, claro . Estavam com o seu computador, mas quiseram olhar isto também. Talvez estivessem atrás de um bilhete.

Dei uma olhada na primeira caixa de fotos. A maioria era do poço, das rochas, da faixa de areia. Em algumas delas, você havia feito anotações nas beiradas, códigos que eu não tinha como decifrar. Havia fotos de Beckford também: suas ruas e casas, as mais bonitas de pedra, e as recentes, mais feias. Uma delas fora retratada várias vezes, uma casa eduardiana geminada simples, com cortinas encardidas abertas pela metade. Havia fotos do centro da cidade, da ponte, do pub, da igreja, do cemitério. Do túmulo de Libby Seeton.

Pobre Libby. Você era obcecada por ela quando criança. Eu odiava a história, triste e cruel como era, mas você queria ouvi-la sem parar. Queria ouvir como Libby, ainda pequena, fora levada para a água, acusada de bruxaria. Por quê?, eu perguntava, e nossa mãe respondia: “Porque ela e a avó tinham conhecimento de ervas e de plantas. Sabiam fazer remédios.” Aquilo me parecia um motivo idiota, mas as histórias dos adultos eram cheias de crueldades idiotas: criancinhas impedidas de entrar na escola porque tinham a cor de pele errada, gente surrada ou morta por adorar o deus errado. Mais tarde você me contou que aquilo não teve nada a ver com fazer remédios, foi porque Libby seduziu (você explicou o significado da palavra) um homem mais velho e fez com que ele deixasse a mulher e o filho. Isso não a diminuiu aos seus olhos; era um sinal do poder dela.

Quando você era pequena, com uns 6 ou 7 anos, insistiu em usar uma das saias velhas da mamãe para ir ao poço; a saia foi arrastando pela terra, mesmo você a tendo puxado até debaixo do queixo. Você escalou as pedras e se atirou na água enquanto eu brincava na areia. Você era Libby: Olhe, mamãe! Olhe! Você acha que eu vou afundar ou boiar?

Ainda consigo ver você fazendo aquilo, a animação estampada no rosto. Sinto a maciez da mão da mamãe na minha, a areia quentinha entre meus dedos dos pés enquanto a observávamos. Mas isso não faz sentido: se você tinha 6 ou 7 anos, eu não tinha mais que 2 ou 3 — não há a menor chance de eu conseguir me lembrar disso, há?

Lembrei do isqueiro que encontrei na sua gaveta, das iniciais gravadas nele. LS . Uma homenagem a Libby? Sério, Nel? Você era tão obcecada por uma garota morta há trezentos anos que mandou gravar as iniciais dela em um objeto seu? Talvez não. Talvez não tenha sido obsessão. Talvez só tenha gostado da ideia de poder segurá-la na palma da mão.

Voltei às pastas, à procura de mais informações sobre Libby. Vasculhei as páginas impressas e as fotos, reproduções de velhos artigos de jornal, recortes de revistas, aqui e ali seus garranchos na borda das páginas, quase sempre ilegíveis, raramente distintos. Havia nomes que eu já tinha ouvido e nomes que não: Libby e Mary, Anne e Katie, Ginny e Lauren, e lá, no topo da página sobre Lauren, em tinta preta grossa, você havia escrito: Beckford não é um local de suicídios. Beckford é um local para se livrar de mulheres encrenqueiras.