Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 62 de 91

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Em Águas Sombrias

Erin

 

QUALQUER COISA ERA possível. Quando ouvimos o barulho de cascos, procuramos cavalos, mas não dá para ignorar a possibilidade de serem zebras. Não de cara. Motivo pelo qual, enquanto Sean ia com Callie dar uma olhada na casa de Henderson, fiquei incumbida de falar com Louise Whittaker sobre o tal “confronto” que ela teve com Lena pouco antes de a menina desaparecer.

Quando cheguei à casa dos Whittakers, Josh abriu a porta, como sempre fazia. E, como sempre era o caso, pareceu assustado ao me ver.

— O que está acontecendo? — perguntou ele. — Vocês acharam a Lena?

Fiz que não com a cabeça.

— Ainda não. Mas não se preocupe...

Ele me deu as costas, os ombros caídos. Eu o segui casa adentro. Ao pé da escada, ele se virou para me encarar.

— Foi por causa da mamãe que ela fugiu? — perguntou ele, as bochechas corando um pouco.

— Por que você perguntaria uma coisa dessas, Josh?

— A mamãe fez ela se sentir mal — respondeu ele, um tanto rabugento. — Agora que a mãe da Lena não está mais viva, ela culpa a Lena de tudo. Isso é burrice. A culpa é tão minha quanto dela, mas a mamãe culpa ela de tudo. E agora Lena sumiu — disse ele, a voz ficando aguda. — Ela sumiu.

— Com quem você está falando, Josh? — perguntou Louise, lá de cima.

O filho a ignorou, então respondi:

— Sou eu, Sra. Whittaker. A detetive-sargento Morgan. Posso subir?

Louise estava com um agasalho esportivo que já havia visto dias melhores. Os cabelos estavam presos, o rosto, pálido.

— Ele está zangado comigo — disse ela, sem me cumprimentar. — Me culpa por Lena ter fugido. Acha que a culpa é minha. — Eu a segui pelo patamar da escada. — Ele me culpa, eu culpo Nel, eu culpo Lena e a gente segue rodando em círculos. — Parei na porta do quarto. Estava praticamente vazio, a cama sem lençóis, o guarda-roupa vazio. As paredes lilás-claro exibiam vestígios de fitas adesivas arrancadas bruscamente. Louise abriu um sorriso cansado. — Pode entrar. Já estou quase acabando. — Ela se ajoelhou, retomando a tarefa que eu devia ter interrompido, e que consistia em guardar livros em caixas de papelão. Me agachei ao seu lado para ajudá-la, mas, antes que eu pudesse pegar o primeiro livro, ela segurou meu braço com firmeza. — Não, obrigada. Prefiro fazer isso sozinha. — Eu me levantei. — Não quero ser grosseira — disse ela —, só não quero outras pessoas encostando nas coisas dela. Parece bobagem, né? — perguntou ela, erguendo a vista para mim, os olhos brilhando. — Mas eu quero que só ela tenha encostado nelas. Quero que fique alguma coisa dela nas sobrecapas dos livros, nas roupas de cama, na escova de cabelo... — Ela parou e respirou fundo. — Não pareço estar fazendo grandes progressos. Em seguir com a vida, em deixar para trás o que aconteceu, em continuar em frente de qualquer forma que seja...

— Não creio que ninguém esteja esperando isso de você — falei, baixinho. — Ainda...

— Ainda não? O que sugere que em algum momento eu não vou mais me sentir assim. Mas o que as pessoas parecem não perceber é que eu não quero não me sentir assim. Como posso não me sentir assim? Minha tristeza me parece adequada. Ela... tem o peso certo, me esmaga só o suficiente. Minha raiva é pura, ela me fortalece. Bem... — Ela deu um suspiro. — Só que agora meu filho pensa que sou responsável pelo sumiço de Lena. Às vezes me pergunto se ele acha que eu empurrei Nel de cima daquele penhasco. — Ela fungou. — De qualquer forma, ele me considera responsável por Lena ter ficado nessa situação. Sem mãe. Sozinha.

Permaneci no meio do quarto, os braços cruzados, tentando não tocar em nada. Como se estivesse numa cena de crime e não quisesse contaminar nada.

— Ela não tem mãe — concordei —, mas e quanto a um pai? Você realmente acredita que Lena não tenha a menor ideia de quem seja o pai dela? Sabe se ela e Katie alguma vez falaram sobre isso?

Louise balançou a cabeça.

— Tenho quase certeza de que ela não sabe. Era o que Nel sempre dizia. Eu achava esquisito. Como várias das escolhas de Nel como mãe, não só esquisitas, mas irresponsáveis. Quer dizer, e se houvesse uma questão genética, uma doença, ou coisa assim? Me parecia injusto com Lena, de qualquer maneira, não dar à menina nem a opção de conhecer o pai. Quando pressionada, e eu a pressionei, no tempo em que nós duas tínhamos um relacionamento melhor, ela disse que foi um caso de uma noite só, alguém que conheceu logo que se mudou para Nova York. Disse que não sabia o sobrenome dele. Quando pensei nisso mais tarde, concluí que devia ser mentira, porque eu tinha visto uma foto de Nel se mudando para o seu primeiro apartamento no Brooklyn com a camisa de malha bem esticada por cima da barriga já grávida.

Louise parou de empilhar livros. Balançou a cabeça outra vez.

— Então, nesse sentido, Josh tem razão. Ela está, sim, sozinha. Não tem nenhum parente além da tia. Ou pelo menos ninguém mais de quem eu tenha ouvido falar. E quanto a namorados... — Ela abriu um sorriso pesaroso. — Nel me disse uma vez que só dormia com homens casados, porque eram discretos, faziam poucas exigências e a deixavam seguir com sua vida. Os casos dela eram secretos. Eu não tenho dúvida de que havia homens, mas ela não tornava público esse tipo de relacionamento. Sempre que a víamos, estava sozinha. Sozinha ou com a filha. — Ela suspirou. — O único homem com quem vi Lena demonstrando o mínimo de carinho é Sean. — Ela ruborizou ao dizer o nome dele, virando a cabeça para o outro lado, como se tivesse dito alguma coisa que não devia.

— Sean Townsend? Sério? — Ela não respondeu. — Louise? — Ela se levantou para pegar outra pilha de livros da estante. — Louise, o que você está dizendo? Que tem algo de... impróprio entre Sean e Lena?

— Meu Deus, não! — Ela deu uma risada forçada. — Lena, não.

— Se não Lena? Então... Nel? Está dizendo que havia algo entre ele e Nel Abbott?

Louise comprimiu os lábios e virou o rosto para que eu não pudesse ver sua expressão.

— Porque, você sabe, isso seria extremamente inapropriado. Investigar a morte suspeita de uma pessoa com quem ele teve um relacionamento, isso seria...

Isso seria o quê? Antiprofissional, antiético, motivo para demissão? Ele não faria isso. Não há a menor chance de ele ter feito isso, impossível ele ter escondido uma coisa dessas de mim. Eu teria visto algo, percebido algo, não teria? Então me lembrei do jeito que ele estava da primeira vez que o vi, de pé na margem do poço com Nel Abbott aos seus pés, a cabeça baixa como se estivesse rezando por ela. Os olhos marejados, as mãos trêmulas, o jeito ausente, a tristeza. Mas aquilo tinha a ver com a mãe dele, não tinha?

Louise continuou a guardar os livros nas caixas, em silêncio.

— Escute aqui — comecei, erguendo a voz para obter sua total atenção. — Se você sabe que houve algum tipo de relacionamento entre Sean e Nel, então...

— Eu não disse isso — afirmou ela, me olhando bem dentro dos olhos. — Eu não disse nada do gênero. Sean Townsend é um bom homem. — Ela ficou de pé. — Agora, eu tenho muito o que fazer, detetive. Acho que talvez esteja na hora de você ir.