Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 45 de 91

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Em Águas Sombrias

Sean

 

 

DURANTE VÁRIOS DIAS depois que minha mãe morreu, eu não falei. Nem uma única palavra. Ou é o que meu pai me diz, pelo menos. Não lembro muito daquele tempo, embora eu me lembre de como papai me tirou do meu silêncio à força, segurando minha mão esquerda sobre uma chama até eu gritar. Foi cruel, mas eficaz. E, depois, ele me deixou ficar com o isqueiro. (Eu o guardei por muitos anos, costumava carregá-lo para cima e para baixo comigo. Perdi-o recentemente, não me lembro onde.)

Dor, choque, isso afeta as pessoas de formas estranhas. Eu já vi gente reagir a más notícias com risos, com aparente indiferença, com raiva, com medo. O beijo de Jules no carro depois do enterro... aquilo não teve nada a ver com luxúria, teve a ver com dor, com querer despertar algum sentimento — qualquer um — além de tristeza. A minha mudez quando eu era pequeno deve ter resultado do choque, do trauma. Perder uma irmã pode não ser o mesmo que perder um pai ou uma mãe, mas eu sei que Josh Whittaker era muito ligado à irmã, então reluto em julgá-lo, em enxergar além do que ele diz ou faz e de como se comporta.

Erin me ligou para dizer que tinha havido um ato de vandalismo numa casa no lado sudeste da periferia da cidade — uma vizinha havia ligado dizendo que, ao chegar do trabalho, viu os vidros das janelas da casa em questão quebradas e um garoto deixando o local numa bicicleta. A casa pertencia a um dos professores da escola, já o menino — cabelos pretos, camisa de malha amarela e guiando uma bicicleta vermelha —, eu tinha quase certeza de se tratar de Josh.

Foi fácil encontrá-lo. Estava sentado no muro da ponte, a bicicleta encostada ali, as roupas encharcadas e as pernas riscadas de lama. Não correu quando me viu. Na verdade, pareceu aliviado quando me cumprimentou, educado como sempre.

— Boa tarde, Sr. Townsend.

Perguntei a ele se estava bem.

— Vai pegar um resfriado — comentei, apontando para as roupas molhadas, e ele abriu um meio sorriso.

— Estou bem — falou.

— Josh, você estava andando de bicicleta na Seward Road hoje à tarde? — perguntei. Ele fez que sim. — Por acaso passou pela casa do Sr. Henderson?

Ele mordeu o lábio inferior, os gentis olhos castanhos se arregalando, enormes.

— Não conta para a minha mãe, Sr. Townsend. Por favor, não conta para a minha mãe. Ela já tem muita coisa para se preocupar.

Senti um nó na garganta e me forcei a reprimir as lágrimas. Ele é um menino tão pequeno e de aparência tão vulnerável. Eu me ajoelhei ao seu lado.

— Josh! O que diabos você estava fazendo? Tinha mais alguém com você? Alguns dos meninos mais velhos, talvez? — perguntei, esperançoso.

Ele sacudiu a cabeça, mas não olhou para mim.

— Fui só eu.

— Sério? Tem certeza? — Ele desviou o olhar. — Porque eu vi você conversando com Lena fora da delegacia hoje mais cedo. Isso não teria nada a ver com ela, teria?

— Não! — gritou ele, a voz um ganido dolorido e humilhante. — Não. Fui eu. Só eu. Eu atirei pedras na janela dele. Na janela daquele... filho da puta. — “Filho da puta” foi pronunciado cuidadosamente, como se ele estivesse dizendo isso pela primeira vez.

— Por que diabos você faria uma coisa dessas?

Ele me olhou nos olhos nesse momento, o lábio inferior tremendo.

— Porque ele mereceu — respondeu. — Porque eu odeio ele.

E começou a chorar.

— Venha — falei, pegando a bicicleta dele do chão. — Vou levar você para casa. — Mas ele agarrou o guidom.

— Não! — disse, chorando. — Você não pode fazer isso. Não quero que a mamãe saiba. Nem o papai. Eles não podem saber disso, não podem...

— Josh — eu me abaixei outra vez, pousando a mão no banco da bicicleta. — Está tudo bem. Não é tão ruim assim. A gente resolve essa história. Sério. Não é o fim do mundo.

Ao ouvir isso, ele começou a uivar.

— Você não entende. Mamãe nunca vai me perdoar...

— É claro que vai! — Eu me controlei para não rir. — Ela vai ficar um pouco zangada, claro, mas você não fez nada assim tão terrível, não machucou ninguém...

Seus ombros sacudiam.

— Sr. Townsend, o senhor não entende. Não entende o que eu fiz.

 

No fim, eu o levei para a delegacia. Não sabia o que mais podia fazer, ele não queria me deixar levá-lo para casa e eu não podia deixá-lo na rua naquele estado. Acomodei-o na sala dos fundos e preparei uma xícara de chá para ele, então pedi a Callie que saísse e comprasse uns biscoitos.

— Não pode interrogá-lo, senhor — disse Callie, alarmada. — Não sem um adulto responsável.

— Eu não vou interrogá-lo — retruquei, irritado. — Ele está assustado e não quer ir para casa ainda.

Essas palavras desencadearam em mim uma memória: Ele está assustado e não quer ir para casa. Eu era menor que Josh, tinha só 6 anos, e uma policial segurava a minha mão. Nunca sei quais das minhas lembranças são reais — já ouvi tantas histórias sobre aquela época, de tantas fontes diferentes, que é difícil diferenciar memória de mito. Só que nessa eu estava tremendo e com medo, e tinha uma policial ao meu lado, uma mulher grande, me consolando e me segurando de modo protetor junto ao quadril enquanto homens falavam acima da minha cabeça.

— Ele está assustado e não quer ir para casa — disse ela.

— Você poderia levá-lo para a sua casa, Jeannie? — perguntou meu pai. — Você poderia levá-lo com você? — Era isso. Jeannie. A policial Sage.

 

Meu telefone tocando me trouxe de volta a mim mesmo.

— Senhor? — Era Erin. — A vizinha do outro lado viu uma menina sair correndo na direção oposta. Adolescente, cabelos loiros, compridos, short jeans, camisa de malha branca.

— Lena. Claro.

— É, é o que está parecendo. Quer que eu vá buscá-la?

— Hoje, não — falei. — Ela já passou por muita coisa. Conseguiu entrar em contato com o dono, com Henderson?

— Ainda não. Estou ligando, mas cai direto na caixa postal. Quando falei com ele mais cedo, ele disse alguma coisa sobre uma noiva em Edimburgo, mas não tenho o telefone dela. É possível que já estejam no avião.

Levei a xícara de chá para Josh.

— Ouça — comecei —, nós precisamos entrar em contato com seus pais. Eu só preciso avisar a eles que você está aqui e que está bem, pode ser? Não preciso entrar em detalhes, não agora, só vou dizer que você está chateado e que eu o trouxe para cá para a gente conversar um pouco. Está bem assim? — Ele assentiu com a cabeça. — Então você pode me dizer por que está chateado e a gente segue daí. — Ele assentiu de novo. — Mas em algum momento você vai ter de explicar que história é essa da casa.

Josh bebericou o chá, chorando de vez em quando, ainda não recuperado da sua explosão emocional. As mãos envolviam a xícara com força e a boca se movimentava enquanto buscava as palavras que queria me dizer.

Por fim, ergueu os olhos.

— Não importa o que eu fizer — começou ele —, alguém vai ficar chateado comigo. — Então, ele balançou a cabeça. — Não, na verdade, não é bem assim. Se eu fizer o que é certo, todo mundo vai ficar chateado comigo, e se eu fizer a coisa errada, ninguém vai. Não devia ser assim, devia?

— Não — respondi —, não devia. E eu não sei bem se você está certo quanto a isso. Não consigo pensar em uma única situação na qual fazer o que é certo vai deixar todo mundo chateado com você. Uma ou duas pessoas, talvez, mas, se for a coisa certa, alguns de nós a veremos dessa forma, não? E seremos gratos a você?

Ele voltou a morder o lábio.

— O problema — começou ele, a voz voltando a falhar — é que o estrago já está feito. Eu demorei muito. Agora é tarde demais para fazer a coisa certa.

Ele voltou a chorar, mas não como antes. Não estava aos prantos nem em pânico, dessa vez chorava como uma pessoa que já perdeu tudo, toda a esperança. Estava desesperado e eu não pude suportar aquilo.

— Josh, eu tenho que pedir para os seus pais virem até aqui — falei, mas ele segurou o meu braço.

— Por favor, Sr. Townsend. Por favor.

— Eu quero ajudar você, Josh. Quero mesmo. Por favor, me diga o que está te atormentando tanto.

(Eu me lembro de estar sentado numa cozinha quentinha, que não era a minha, comendo torrada com queijo. Jeannie estava lá, sentada ao meu lado. Não quer me contar o que aconteceu, querido? Por favor, me conte. Eu parei de falar e não disse mais nada. Nem uma palavra. Nem uma única palavra.)

Josh, no entanto, estava pronto para falar. Enxugou as lágrimas e assoou o nariz. Tossiu e se sentou mais ereto na cadeira.

— É sobre o Sr. Henderson — começou. — Sobre o Sr. Henderson e a Katie.