Empreendedorismo para visionários

José Dornelas · Capítulo 15 de 58

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Empreendedorismo para visionários

2.4 Tipos de empreendedores

 

Os vários tipos de empreendedores apresentados na Figura 2.1 são os mais comuns, mas, como o tema empreendedorismo está em franca expansão e disseminação, é provável que, com o passar dos anos, novas denominações surjam. Na sequência, alguns exemplos e considerações para cada denominação empreendedor são apresentados.

Figura 2.1 Diferentes maneiras de empreender.

Figura 2.2 Caminhos possíveis ao empreendedor.

 

Empreendedor informal. Há vários exemplos que se enquadram nessa categoria, como pessoas que vendem mercadorias nas esquinas das ruas, em barracas improvisadas, nos semáforos etc.; vendedores ambulantes; autônomos que prestam serviços diversos.

Empreendedor cooperado. São, por exemplo, artesãos que se unem em uma cooperativa; catadores de lixo reciclável que criam uma associação para poder ganhar escala e negociar a venda do que produzem/reciclam com empresas; é o indivíduo que empreende seu pequeno negócio/propriedade rural e que se associa a demais empreendedores do mesmo ramo para, em conjunto, suprir a demanda de um laticínio. Empreendedor individual. É o antigo empreendedor informal que, agora legalizado, começa a ter uma empresa de fato, contrata funcionários, pode crescer e, quem sabe, deixará de ser um empreendedor individual para se tornar dono de um negócio maior.

Franquia. O franqueado é aquele que inicia uma empresa a partir de uma marca já desenvolvida por um franqueador; sua atuação é local/regional, e alguns dos setores que mais se destacam são alimentação, vestuário e

educação/treinamento. O franqueador é um empreendedor visionário que vê no modelo de negócio de franquias uma maneira de ganhar escala e tornar sua marca conhecida rapidamente.

Empreendedor social. Pessoas que querem ajudar o próximo e criam ou se envolvem com uma organização sem fins lucrativos para cumprir determinado objetivo social: educação a quem não tem acesso, melhoria na qualidade de vida das pessoas, desenvolvimento de projetos sustentáveis, arte, cultura etc. O típico empreendedor social não aufere lucro com a iniciativa, mas pode ser remunerado como funcionário ou associado. Mais recentemente, surgiu um modelo intermediário, conhecido como setor dois e meio, no qual o empreendedor social busca cumprir seu objetivo de mudar e melhorar a sociedade na qual vive e ainda consegue auferir lucro com a iniciativa.

Empreendedor corporativo. São funcionários conscientes de seu papel na organização para a qual trabalham e que trazem ideias e executam projetos que visem ao crescimento da empresa no longo prazo; pessoas que inovam na empresa estabelecida, em todos os níveis hierárquicos. Empreendedor público. São pessoas comprometidas com o coletivo, que não se deixam cair na monotonia por ter estabilidade no emprego; pelo contrário, querem melhorar os serviços à população e propõem maneiras de utilizar os recursos públicos com mais eficiência. Apesar do rótulo totalmente oposto ao empreendedorismo, comumente atribuído aos funcionários públicos, na verdade, há muitos empreendedores públicos que fazem a diferença e trabalham por um país mais justo e igualitário. Não se pode confundir esse empreendedor com os políticos que utilizam o conceito do empreendedorismo para autopromoção. Empreendedor do conhecimento. Há inúmeros exemplos que se enquadram nessa categoria, como um atleta que se prepara com dedicação, planeja a melhor estratégia para otimizar seu desempenho e executa com perfeição o que planejou, realizando seu sonho em uma olimpíada; o advogado, dentista, médico, enfim, o profissional liberal que quer fazer a diferença; o maestro que rege a orquestra com perfeição e entusiasma a plateia com o resultado obtido; o escritor que estimula as pessoas a sonhar e a viver o papel do protagonista da história. Negócio próprio. O típico dono do próprio negócio é o indivíduo que busca autonomia, que deseja ser patrão e cria uma empresa estilo de

vida, sem maiores pretensões de crescimento, para manter um padrão de vida aceitável, que lhe atribua o status de pertencer à classe média; o problema é que o negócio estilo de vida é de alto risco, já que há muitos concorrentes fazendo o mesmo que você e tentando conquistar os mesmos clientes; o empreendedor do negócio próprio que pensa grande também arrisca, mas pode construir algo duradouro e que eventualmente muda o mundo, ou pelo menos sua região, cidade, comunidade; o dono do próprio negócio que cria uma empresa pensando em crescer pode inclusive ser um franqueador, permitindo que outros empreendedores utilizem sua marca e modelo de negócio em outras localidades, e, com isso, todos ganham.

 

Como já mencionado, o empreendedor do negócio próprio é o tipo mais comum, e, por isso, durante muitos anos, rotulou-se designar o empresário, dono de uma empresa, como sinônimo de empreendedor e vice-versa. As várias definições apresentadas anteriormente mostraram que empreender vai além da criação e gestão da própria empresa. Mas como o foco deste livro é o negócio próprio, cabe buscar entender como pensa e age esse tipo de empreendedor para, então, propor maneiras de se replicar o método e processo empreendedor em novas iniciativas no Brasil.

O empreendedor do negócio próprio pode ainda ser classificado em subtipos ou perfis que constituem os vários grupos de indivíduos que buscam realizar seus sonhos ao criar e gerir uma empresa. A maioria dos subtipos mais comuns já foi apresentada em detalhes no livro

Empreendedorismo na Prática19, e alguns desses são listados a seguir.

 

Empreendedor nato. Geralmente, são os mais conhecidos e aclamados. Suas histórias são brilhantes e, muitas vezes, começaram do nada e criaram grandes impérios. Começam a trabalhar muito jovens e adquirem habilidade de negociação e de vendas. Em países ocidentais, esses empreendedores natos são, em sua maioria, imigrantes, ou seus pais e avós o foram. São visionários, otimistas, estão à frente do seu tempo e comprometem-se 100% para realizar seus sonhos. Suas referências e exemplos a seguir são os valores familiares e religiosos, e eles mesmos acabam por se tornar uma grande referência. Se você perguntar a um empreendedor nato quem ele admira, será comum se

lembrar da figura paterna/materna, de algum familiar mais próximo ou, em alguns casos, não haverá nenhum exemplo específico para citar. Exemplos: Bill Gates, Andrew Carnegie, Sílvio Santos, Irineu Evangelista de Souza (Barão de Mauá), entre outros. Empreendedor serial (cria novos negócios). O empreendedor serial é aquele apaixonado, não apenas pelas empresas que cria, mas, principalmente, pelo ato de empreender. É uma pessoa que não se contenta em criar um negócio e ficar à frente dele até que se torne uma grande corporação. Como geralmente é uma pessoa dinâmica, prefere os desafios e a adrenalina envolvidos na criação de algo novo a assumir uma postura de executivo que lidera grandes equipes. Normalmente, está atento a tudo o que ocorre ao seu redor e adora conversar com as pessoas, participar de eventos, associações, fazer networking. Para esse tipo de empreendedor, a expressão “tempo é dinheiro” cai como uma luva. Geralmente, tem uma incrível habilidade para montar equipes, motivar o time, captar recursos para o início do negócio e colocar a empresa em funcionamento. Sua habilidade maior é acreditar nas oportunidades e não descansar enquanto não as vir implementadas. Ao concluir um desafio, precisa de outros para se manter motivado. Às vezes, se envolve em vários negócios ao mesmo tempo e não é incomum ter várias histórias de fracasso, mas que servem de estímulo para a superação do próximo desafio.

Empreendedor “Normal” (planejado). Toda teoria sobre o empreendedor de sucesso sempre apresenta o planejamento como uma das mais importantes atividades desenvolvidas pelos empreendedores. E isso tem sido comprovado nos últimos anos, já que o planejamento aumenta a probabilidade de um negócio ser bemsucedido e, em consequência, leva mais empreendedores a usarem essa técnica para garantir melhores resultados. O empreendedor que “faz a lição de casa”, que busca minimizar riscos, que se preocupa com os próximos passos do negócio, que tem uma visão de futuro clara e que trabalha em função de metas é aqui definido como o empreendedor “normal” ou planejado. “Normal” do ponto de vista do que se espera de um empreendedor, mas não necessariamente do que se encontra nas estatísticas gerais sobre a criação de negócios (a maioria dos empreendedores ainda não se encaixa na categoria “normal”). O empreendedor normal seria o mais completo

do ponto de vista da definição de empreendedor, mas que, na prática, ainda não representa uma quantidade considerável de empreendedores.

 

A Tabela 2.1 apresenta uma comparação entre os vários tipos de empreendedores, considerando vários atributos comumente relacionados com o empreendedorismo.

O empreendedor do negócio próprio tem sido o objeto dos estudos internacionais de pesquisadores que se dedicam ao tema há várias décadas. Há tanto estudos relacionados com os processos, técnicas e métodos de gestão empregados pelos empreendedores quanto os que se dedicam a entender o perfil e as caraterísticas empreendedoras. A partir da década de 1980, a ênfase em entender o perfil do empreendedor deixou de ser o foco dos pesquisadores internacionais, apesar de ainda despertar a curiosidade de muitos pesquisadores brasileiros que se dedicam ao assunto.

 

Tabela 2.1 Comparação entre os tipos de empreendedores

Tipo de Ganho $ Nível de Nível de risco Dedicação ao Trabalho em equipe Recursos para a Objetivo

Empreendedor autonomia trabalho iniciativa Informal Precisa para Alto, mas sem Baixo, já está em Parcial, trabalha o Geralmente envolve a Não possui, usa Não possui, crê

sobreviver e garantia de situação limítrofe. suficiente para família, mas também apenas o que, em algum almeja resultado. garantir o sustento pode ser solitário. conhecimento tácito. momento, sua ganhar. do dia. “sorte” pode

mudar.

Cooperado Precisa para Médio, suas Baixo, a cooperativa Parcial, trabalha o É fator-chave de sucesso, Pouco, geralmente a Crescer e, um dia,

seu sustento atividades devem ajuda a manter uma necessário para pois, sozinho, não se própria dedicação ao se tornar e almeja estar em renda média devido cumprir as metas atingem resultados nesse trabalho e pouco independente ou ganhar. consonância com ao esforço coletivo. de produção. caso. capital financeiro. continuar na

as dos demais cooperativa em

cooperados. um ambiente

protegido.

Individual Precisa para Alto, pois decide Baixo, tem pouco a Parcial, trabalha o Parcial, tem geralmente Pouco, resume-se às Crescer e mudar

seu sustento sozinho os rumos perder. necessário; ou alto, um funcionário, mas não suas reservas de patamar de e almeja do negócio. caso sonhe em é solitário. financeiras ou às da empresa ou ficar ganhar. mudar de patamar. família. como está.

Franquia Vislumbra Médio, pois precisa Baixo, se a franquia Alto, apesar de ser Importante para conseguir Na maioria dos casos, Conseguir o

uma renda sempre seguir as for conceituada; franqueado, precisa cumprir metas; no caso recursos próprios; há retorno do média regras do médio ou alto se a gerir uma empresa da microfranquia, é casos de investimento mensal de franqueador. franquia ainda não completa (a menos crítico. financiamento em inicial; há os que acordo com tiver resultados exceção são as bancos ou junto ao querem ainda o estimado expressivos. microfranquias). franqueador. criar outra pelo franquia da

franqueador. mesma marca ou

diversificar o

setor.

Social Não é seu Médio, pois Baixo, mas pode ser Parcial, caso tenha Primordial para o sucesso Próprios, de amigos, Mudar o mundo e

objetivo; visa dificilmente realiza frustrante não outras fontes de da iniciativa. família, doações de inspirar outras apenas ter as ações conseguir colocar renda; Integral, empresas e governo pessoas a fazê-lo. um salário almejadas sem o em prática o que caso o foco seja o etc. ou tem outra envolvimento de almeja. social. fonte de outras

renda. pessoas/entidades.

Corporativo Faz parte de Parcial, pois Alto, se a cultura Acima do normal se Fundamental para colocar Da própria empresa Crescer na

suas metas, depende da corporativa não comparada à de suas ideias em prática e ou externos à empresa, obter mas o empresa e de sua incentivar o funcionários que cumprir metas. empresa. promoção, ganhar principal é posição empreendedorismo; não abraçam o bônus e ser crescer na hierárquica; nunca médio, mesmo em empreendedorismo. reconhecido. carreira. será total, pois empresas

sempre haverá empreendedoras.

alguém a quem

prestar contas.

Público Não é o que Baixo, pois há Baixo, pois Acima do normal, Essencial e condição Públicos, mas de Ajudar as

o motiva, muita burocracia a dificilmente projetos se comparado a básica para conseguir difícil obtenção. pessoas, realizar-pois já sabe ser vencida. ousados são outros funcionários fazer acontecer. se qual será aprovados e públicos não profissionalmente seu salário implementados sem empreendedores. e provar a si e aos no final do interferências ou outros que seu mês. modificações. papel na

sociedade é

nobre.

do Almeja ter Depende da Baixo, mas precisa Acima do normal e, Não é o seu forte, pois há Geralmente, recursos Realização Conhecimento recursos atividade, mas, em zelar pela reputação muitas vezes, um componente próprios, mas não profissional e

acima da geral, é alto, pois para não denegrir a confunde o pessoal egocêntrico que necessariamente reconhecimento. média de sua habilidade (e própria imagem. com o profissional, predomina; se necessário, financeiros. seus pares ativo principal) é o pois “sua faz esforço e sabe que para arcar próprio pessoa/imagem” é precisa compartilhar com seus conhecimento. o produto que está trabalho, ideias, projetos desejos de à venda. para multiplicar consumo. resultados.

Negócio É um dos Alto, mas, Alto, pois se envolve Total, muitas vezes Rapidamente percebe Na maioria dos casos, Realização próprio seus conforme a de corpo e alma à confundindo e não que, se não tiver uma recursos próprios e/ou pessoal,

objetivos empresa cresce, iniciativa, sabendo separar equipe competente de da família; há ainda os autonomia principais, precisa delegar e comprometendo adequadamente pessoas que que conseguem financeira, deixar apesar de evitar o excesso de geralmente mais do momentos de complementem seu perfil, financiamento em legado e contribuir nem sempre controle. que imaginava trabalho, lazer e a sua empresa não bancos ou para o falar sobre o inicialmente para vida pessoal e crescerá. investimento de risco, crescimento e assunto. fazer o negócio familiar. mas são a minoria. desenvolvimento

acontecer. econômico do

país.

 

Já os demais tipos de empreendedores começaram a ser discutidos e analisados mais recentemente, tanto em nível internacional como nacional, quando o foco da atenção deixou de ser apenas o negócio próprio. Isso porque o comportamento empreendedor pode ser desenvolvido e praticado em várias situações. O empreendedor deve estar atento ao ambiente no qual está inserido para poder praticar suas habilidades empreendedoras e aumentar suas chances de sucesso, seja qual for sua atividade profissional ou organização à qual pertence.

 

Na prática

 

Diferentes maneiras de empreender

 

1. Pesquise na internet, jornais, revistas, livros etc. e identifique,

pelo menos, um exemplo de empreendedor para cada um dos nove tipos listados na Tabela 2.1. Para qual dos tipos foi mais difícil encontrar um exemplo? Por quê? Compartilhe seu resultado com os colegas e debata se os exemplos citados podem de fato ser considerados empreendedores nos vários casos. O que você levou em consideração para chegar à conclusão de que um exemplo é ou não empreendedor?

2. Utilize a Figura 2.2 e sugira pelo menos três outros caminhos

possíveis que podem ocorrer a pessoas que empreendem ao longo da vida. Cite algum exemplo de pessoa que percorreu pelo menos um dos caminhos que você sugeriu.

 

Acesse o fórum de empreendedorismo em

www.josedornelas.com.br, coloque suas respostas e veja o que

outras pessoas pensam sobre as diferentes maneiras de

empreender.

 

Desafio

 

Conhecendo empreendedores (Parte 1)

Seu desafio será, individualmente ou em grupo, identificar pessoas empreendedoras na sua cidade/região, contatá-las e convidá-las para uma palestra em sua faculdade/universidade, sob a supervisão

e concordância do professor da disciplina.* O ideal é que, além do empreendedor do negócio próprio, sejam convidados pelo menos mais dois outros empreendedores entre os diferentes tipos apresentados neste capítulo. Após a apresentação de cada empreendedor (30 minutos a uma hora cada), deve-se promover um debate entre os participantes e os palestrantes. O objetivo dessa atividade é conhecer mais a respeito das atitudes que fazem um empreendedor ter sucesso, analisar os prós e contras de empreender, validar as comparações apresentadas na Tabela 2.1 e ouvir conselhos dos convidados àqueles que pretendem empreendedor um dia.

 

Resumo

 

Empreender não é exclusivo àqueles que criam um negócio

próprio. A decisão de empreender é motivada por inúmeros

fatores e circunstâncias que levam as pessoas a optar por se

envolverem em atividades que acabam por definilas como

pessoas empreendedoras. Há motivações restritas ao

empreendedorismo de necessidade, e outras ao

empreendedorismo de oportunidade. A partir das várias

motivações empreendedoras, podem-se identificar também as

várias maneiras de se empreender, e, com isso, definem-se

tipos de empreendedores. O tipo mais comum é o

empreendedor do negócio próprio, mas, mais recentemente,

outros tipos de empreendedores têm sido identificados. As

pessoas que empreendem têm um comportamento similar, que

não é restrito aos empreendedores do negócio próprio.

 

* É de extrema importância que esta atividade seja feita sob a supervisão e concordância do professor

responsável e da coordenação da faculdade/universidade. A atividade visa estimular a iniciativa

nos alunos, mas precisa ser feita de acordo com os critérios e regras do estabelecimento de ensino.

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