Empreendedorismo para visionários

José Dornelas · Capítulo 57 de 58

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Empreendedorismo para visionários

Capítulo 10 | Os desafios além da fase inicial

Ao compreender os estágios de crescimento de um negócio, o empreendedor conclui que a criação do negócio foi apenas o primeiro desafio. A partir da colocação da empresa em funcionamento, os problemas e adversidades surgem diariamente e, com isso, o empreendedor precisa cada vez mais abraçar a gestão administrativa como algo primordial ao sucesso do negócio.

Muitos empreendedores iniciam um negócio porque possuem competência técnica ou conhecimento profundo do produto, mas poucos são preparados, desde o início, para a gestão da empresa em crescimento. Esse aprendizado ocorre com a prática e com o tempo à frente do empreendimento.

Aos poucos, a empresa vai adquirindo uma identidade intimamente ligada às crenças e aos valores do empreendedor, que lidera o processo de desenvolvimento do negócio. A cultura corporativa começa a tomar corpo, e as regras explícitas e implícitas passam a fazer parte do dia a dia do negócio. Com isso, fica mais evidente a burocracia, que nada mais é que a tentativa de embutir controle às atividades para evitar o caos. A burocracia quase sempre se mostra mais uma maneira de engessar os processos da empresa que de facilitar o cumprimento das regras de negócio.

Esses são os problemas típicos que todo empreendedor vai enfrentar quando sua empresa crescer, mas pelos os quais ele jamais imaginou passar quando decidiu criar a própria empresa. Empreendedores que já criaram mais de uma empresa conseguem fazer com que esses problemas se tornem menos evidentes, mas não conseguem eliminá-los. Isso ocorre porque é impossível replicar tudo o que se sabe em uma nova empresa e tratar o negócio como uma máquina perfeita, que funciona a partir do acionamento de um botão.

As empresas são, essencialmente, um local no qual há pessoas que criam um ambiente social e de convivência. São essas pessoas que tornam a empresa viva e, por isso, suas crenças e valores pessoais, objetivos de vida e carreira, também influenciarão no desenvolvimento do negócio.

Muitos podem, então, questionar que, se é para ter mais problemas, o melhor seria não crescer, deixar a empresa com uma estrutura e tamanho controláveis para que pudesse ser gerida com mais facilidade. De fato, essa é uma opção de muitos empreendedores, mas outros problemas surgirão mesmo para a empresa que não cresce. Na verdade, o risco de o empreendedor decidir não fazer a empresa crescer é muito alto. Não crescer significa rejeitar uma expansão de mercado e dar espaço para a concorrência. Essa decisão pode se mostrar equivocada, e o negócio pode rapidamente sucumbir, pois a concorrência vai querer entrar no seu espaço. Há ainda o papel dos próprios clientes, que querem cada vez mais o novo e o inovador.

Isso não significa que a tradição não ganhe o jogo. Há muitos negócios que conseguem se manter ativos por décadas, com estrutura enxuta e eficiente e com a estratégia deliberada do empreendedor-líder de não crescer além de determinado patamar. Qual o segredo do sucesso de tais negócios? A construção de uma marca, de um diferencial e da fidelização dos clientes. Porém, hoje em dia, ter esses ingredientes todos juntos, em um único negócio, tem sido tarefa cada vez mais difícil de concretizar, pois não depende apenas do papel do empreendedor. O cliente de hoje é diferente do cliente do passado. Hoje, a exigência é considerável, e a fidelidade deixa de existir quando uma alternativa mais inovadora, mais eficiente e eventualmente mais barata é apresentada ao mercado.

Há um ditado americano que diz: “É melhor pensar grande que pequeno. O trabalho do empreendedor vai ser grande nos dois casos. Portanto, é melhor escolher a opção que possa trazer mais retorno!” De fato, ousar pode ser o caminho mais acertado, mas não é fácil ousar sem preparo. Não bastam coragem e vontade de fazer acontecer. O empreendedor ousado precisa conhecer muito bem o chão que pisa e ter um diferencial considerável: ser inovador na sua proposta de valor, no produto/serviço e, com isso, criar uma barreira para seus potenciais competidores.

Talvez, com essa abordagem, o empreendedor consiga criar uma empresa admirável interna e externamente, aos olhos dos colaboradores, dos clientes, competidores e demais observadores. Mas isso não tem a ver com massagem no ego do empreendedor, mas com a criação de valor e do retorno à sociedade. Trata-se do maior legado que um empreendedor pode deixar, que pode ser perpetuado não só por eventuais herdeiros que assumam o comando do negócio, mas por aqueles que aderiram à cultura da empresa e querem levá-la à frente. Afinal, o que o empreendedor busca além de realização, de deixar algo de concreto e inspirar os outros a seguir seu caminho?

A realização financeira é apenas uma, não a única, das métricas para medir o sucesso do empreendedor. Por isso, os empreendedores bem-sucedidos dizem que o dinheiro não era o objetivo principal, mas apenas uma métrica importante e sem a qual nada seria possível. O dinheiro pelo dinheiro não leva à realização empreendedora, mas é o combustível para toda a jornada.

O empreendedor deve ter vários objetivos ao longo da vida, como ficou claro com o PEP, mas não pode se esquecer de aproveitar a jornada. Observe os relatos de quem já chegou ao cume do Everest. O objetivo atingido é o grande resultado, mas nada substitui o prazer das realizações intermediárias, dos problemas e desafios superados durante toda a jornada. Se isso tudo não fosse importante, não teria sentido passar apenas alguns minutos no cume, depois de tanto esforço empreendido. E depois tem a volta, ainda mais desafiadora...

Com o empreendedor é igual. Deve-se aproveitar a jornada e cada realização. Pode ser que você leve sua empresa a um estágio tal que a próxima decisão seja vendê-la e sair de cena como o dono do negócio. Alguém pode dizer que tudo foi construído em vão, já que, depois de anos, o empreendedor deixou de estar à frente de sua “criação”. Mas não é verdade. O empreendedor que passa por essa experiência geralmente começa algo novo com ou sem fins lucrativos. Os propósitos são outros, mas o resultado final será o mesmo: gerar valor para a sociedade.

 

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