Empreendedorismo para visionários

José Dornelas · Capítulo 20 de 58

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Empreendedorismo para visionários

4.2 Processo versus Método

Figura 4.1 O processo empreendedor (Fase 1).

 

Como muitos dos empreendedores já estabelecidos não tiveram acesso a esse tipo de informação ou metodologia quando optaram por empreender, é natural que não tenham aplicado tais filtros ao escolher suas ideias de negócio. Mas àqueles que, como você, podem usufruir de tais ferramentas, o que se aconselha é que utilizem desse conhecimento com o objetivo de reduzir riscos e aumentar as probabilidades de sucesso da jornada empreendedora.

 

4.2 Processo versus Método

 

Da maneira como é apresentado na Figura 4.1, o processo empreendedor tem uma conotação de linearidade e de um objetivo claro a ser atingido. Porém, nem sempre é o que ocorre na prática. Os empreendedores muitas vezes não têm clareza de aonde querem chegar, ou seja, do objetivo a ser atingido. Mais recentemente, o conceito de empreendedorismo efectual tem

sido difundido e foca mais o método empreendedor que o processo.27 Não se trata de negar o processo empreendedor, mas de analisar alternativas para o ato de empreender o negócio próprio. Há casos em que o processo empreendedor é mais aplicável (quando o objetivo está claro), e outros nos quais o método empreendedor é o mais indicado (foco na experiência, na tentativa e erro, no que você tem em mãos, e não nos fins ou em um objetivo a ser atingido).

O método empreendedor é mais experimental e viável para prototipação de ideias. O empreendedor coloca as ideias em prática, testa seu conceito no mercado e, dependendo da receptividade dos clientes, altera, melhora ou descarta o que fez e tenta de novo. Em vez de analisar em detalhes a oportunidade, como sugere o processo empreendedor, no método efectual, o empreendedor cria a oportunidade. Naturalmente, esse tipo de abordagem não é aplicável para todo tipo de negócio, principalmente naqueles casos nos quais um planejamento criterioso deva ser feito e o investimento necessário extrapole a capacidade financeira do empreendedor, ou seja, quando se tem uma perda em potencial acima da capacidade de arcar com o prejuízo (em caso de o negócio não dar certo) por parte do empreendedor. O método efectual foca três perguntas-chave:

 

1. Quem sou?

2. O que sei?

3. Quem conheço?

 

As perguntas indicam ao empreendedor que ele deve avaliar o que tem em mãos para começar a empresa. Um resumo seria: comece a partir do que você possui e então parta para a ação. Essa abordagem indica ainda ao empreendedor que ele não deve ficar esperando pela oportunidade ideal ou adotar a estratégia de buscar o que não tem em outros lugares (por exemplo, a incessante busca por investimento, comum a muitos empreendedores, mas, nem sempre, são bemsucedidos na empreitada).

As variáveis estão mais sob o controle do empreendedor, mas sua capacidade de escalabilidade é limitada, dependendo das respostas às perguntas. “Quem sou?” não se refere apenas à autoanálise de perfil do empreendedor, mas a suas crenças e valores. A pessoa do empreendedor é o principal ativo do negócio, além das pessoas que atrairá para compor a equipe que desenvolverá a empresa com ele. “O que sei?” refere-se ao conhecimento e à experiência do empreendedor. Por exemplo, você terá muito mais chances de sucesso ao criar um negócio que requeira conhecimento técnico caso suas áreas de atuação e formação sejam condizentes com esse tipo de negócio. Aliado a isso, deve ser considerada ainda sua capacidade de gerir o negócio, ou seja, seu conhecimento administrativo e de gestão. “Quem conheço?” refere-se às suas relações interpessoais, à sua rede de contatos. Os empreendedores mais experientes sabem que nutrir e desenvolver a rede de contatos é tão importante quanto qualquer outra atividade do negócio. As pessoas que você conhece ao longo da vida abrem as portas para novas oportunidades e o auxiliam a superar os desafios.

Após responder às três perguntas, o empreendedor deve definir quais são suas perdas aceitáveis, ou seja, o que ele está disposto a perder. Note que o processo tradicional de planejar para atingir um objetivo não se aplica a esse caso. Mais que pensar no que você quer ganhar, deve-se pensar no que você está disposto a perder. Essa regra pode ser resumida como em uma situação na qual você participa de um jogo no qual os resultados são

imprevisíveis. O conselho é que você siga duas regras:28

 

1. Não aposte mais do que você pode esperar como retorno. 2. Não aposte mais do que você está disposto a perder.

 

De fato, a ideia aqui é que você defina o que está disposto a perder de dinheiro, tempo (ou período sem ganhos, por exemplo), oportunidades no mercado de trabalho (ao se dedicar ao negócio próprio, você fecha as portas para oportunidades de trabalho como empregado, por exemplo) e assim por diante.

Parece simples, mas há bastante risco nessa abordagem. Se não houver comprometimento do empreendedor, a perda que ele definiu como aceitável pode ser maior que o esperado. Como você lidará com situações imprevisíveis, deverá ter alta tolerância a situações ambíguas, incertas, e não terá como prever o futuro, já que não planejou ou não conseguiu planejar.

Como muitos empreendedores têm grande dificuldade de concatenar informações e prever o que ocorrerá no mercado nos próximos anos, acabam por não planejar adequadamente ou não conseguir de fato planejar. O método efectual acaba sendo uma boa alternativa nesses casos, mas lembrando das ressalvas já apresentadas. Há alto grau de risco nesse método, apesar de muito utilizado, mesmo que informalmente, pelos empreendedores.

Em vez de mapear as oportunidades com uma análise de mercado estruturada, o empreendedor cria oportunidades, coloca suas ideias em prática e revê o modelo de negócio a partir da interação com os clientes e o mercado. É o método da tentativa e erro e de prototipagem, que pode funcionar melhor para alguns modelos e tipos de negócios que para outros. Por exemplo, muitas empresas startup de internet utilizam o método efectual, preterindo o planejamento formal por meio de um plano de negócios, pois são mais ágeis assim. O investimento para colocar o site no ar geralmente não é grande, e as perdas potenciais para o empreendedor são pequenas. Se a oportunidade realmente existir, em um segundo momento, quando a empresa se desenvolver mais e começar a ter certa estrutura, talvez caiba o planejamento mais formalizado, inclusive por meio de um plano de negócios.

De novo, cabe ressaltar que o método efectual deve ser utilizado em situações nas quais a previsão não é possível ou muito difícil de ser feita. Em vez de desistir, pelo fato de não conseguir prever como será o mercado e o crescimento do negócio, ou seja, não conseguir analisar cenários para o futuro, o empreendedor deve analisar o que tem em mãos e ir para a prática. Os resultados obtidos moldarão o que será a empresa. Provavelmente, as várias iterações e prototipações acabarão por constituir um negócio bem diferente do inicialmente imaginado pelo empreendedor.

Porém, caso a previsão ou o ato de criar cenários futuros seja possível, adote essa abordagem, já que você terá mais informação em mãos para tomar decisão. O fato é que não existe certo ou errado, e você pode também adotar uma abordagem mista, envolvendo o processo e o método empreendedor. A conceituada escola de negócios americana Babson College, considerada a principal referência mundial em empreendedorismo, resolveu chamar essas abordagens de Entrepreneurial Thought & Action, algo como “Pensamento e Ação Empreendedores”. O Pensamento está muito relacionado com prever e planejar. Já a Ação está relacionada com criar e colocar ideias em prática. Uma comparação entre as duas abordagens

é apresentada na Tabela 4.1.29

 

Tabela 4.1 Processo versus método empreendedor

Processo Método

Entradas e saídas conhecidas Um conjunto de técnicas e habilidades

Passos Ferramentas

Foco na previsibilidade Foco na criação

Linearidade Iteratividade

Precisão Experimentação

Teste Prática

 

A Tabela 4.2 apresenta um complemento da análise ao comparar o foco

na previsibilidade com o foco na criação.29

 

Tabela 4.2 Previsão versus criação

 

Previsão Criação

Lógica dedutiva: analisam-se dados para É o mais usado por empreendedores seriais (seguem a

se chegar a possíveis conclusões intuição e colocam as ideias em prática)

Utiliza ferramentas matemáticas e outros Utiliza o resultado real da prototipação/tentativa para

métodos analíticos definir os próximos passos

Lógica central, utilizada em grandes O mantra resume-se a “A Ação vence qualquer coisa”

empresas (planejamento de cenários

futuros)

Funciona bem quando o futuro pode ser Funciona bem quando o futuro não pode ser previsto a

determinado ou extrapolado a partir dos partir do passado. É a única saída quando se lida com o

resultados do passado desconhecido ou o incerto

Causal Efectual

 

Um resumo de ambas as abordagens (Pensamento e Ação) é representado

pela Figura 4.2.29 O Pensamento está mais presente nas grandes empresas e é a base das análises gerenciais. A Ação é comum em empresas menores, iniciantes, e nas práticas dos empreendedores seriais.

Figura 4.2 29 Pensamento (Previsão) versus Ação (Criação).

 

Na prática

 

Previsão versus Criação

 

Esta dinâmica foi desenvolvida por Heidi Neck, do Babson College, tendo como base as pesquisas desenvolvidas por Saras Sarasvathy, e resume as abordagens de previsão (causal) e criação (efectual). Recursos necessários: quebra-cabeça (um jogo de 200 peças para cada quatro a seis participantes); retalhos de pano (várias quantidades, tamanhos, formatos e cores, totalizando pelo menos dez retalhos por participante) e tesouras (uma para cada quatro a seis participantes).

Inicialmente, cada grupo de quatro a seis participantes deve se reunir durante 20 minutos em torno de uma mesa, ou mesmo no chão, para montar o quebra-cabeça. Todos os grupos devem iniciar a montagem ao mesmo tempo. O professor responsável pela disciplina deve acompanhar os grupos para garantir que sigam as regras!