Empreendedorismo para visionários

José Dornelas · Capítulo 16 de 58

Páginas do PDF

Empreendedorismo para visionários

Capítulo 3 | Quem é o empreendedor do próprio negócio

3.1 Conhecendo o perfil do empreendedor

 

A tentativa de rotular o perfil do empreendedor e definir os traços comuns àqueles que empreendem não é recente. Há décadas os pesquisadores se debruçam sobre dados das mais variadas fontes com o objetivo de identificar o que pensa e como age o empreendedor. Alguns dos estudos mais conhecidos e disseminados no Brasil pelo SEBRAE é o conjunto de características comportamentais empreendedoras, definidas por David

McClelland nas décadas de 1960 e 1970.20 Nos livros Empreendedorismo,

Transformando Ideias em Negócios21 e Empreendedorismo na Prática22 também são apresentados estudos e uma relação de características empreendedoras, de maneira a ratificar que o rótulo de empreendedor é um dos mais difíceis de definir, já que a própria definição de empreender, como apresentada no Capítulo 1, permite interpretações subjetivas.

De todo modo, algumas características ou traços empreendedores quase sempre são citados pelos pesquisadores como bastante comuns aos empreendedores do próprio negócio. Assumir riscos calculados é uma delas e que acaba por contrariar o mito de que os empreendedores são loucos pelo risco. Na verdade, os empreendedores sabem que, se não arriscarem, dificilmente conseguirão grandes resultados. Por isso, buscam definir estratégias para calcular e minimizar o risco, mesmo sabendo que eliminá-lo é tarefa impossível.

Antes de assumir risco, porém, há de se ter iniciativa. Já a curiosidade pode levar à criatividade e à inovação. Para atrair talentos ao seu projeto, o empreendedor precisa ainda persuadir pessoas, convencê-las a aderir ao seu projeto e compartilhar seu sonho. Mas não basta apenas a habilidade de persuasão se não houver uma liderança para que todos sejam inspirados e concordem em seguir o projeto do empreendedor, o que geralmente se torna mais factível quando ele tem uma visão clara de futuro, mesmo sabendo que mudanças ocorrerão ao longo do caminho.

O fato é que, mesmo identificando as características mais comuns aos empreendedores e definindo uma estratégia pessoal para identificá-las e desenvolvelas, não há garantias que você será um empreendedor bem-sucedido. Os fatores externos à empresa, geralmente relacionados com o mercado e a concorrência, e os fatores internos (as forças e fraquezas de seu negócio) influenciam tanto quanto as habilidades pessoais do empreendedor e sua equipe. Porém, sem habilidades empreendedoras bem desenvolvidas, você pode perder oportunidades e não se realizar como empreendedor. Por isso, é válido identificar suas principais competências empreendedoras e traçar uma estratégia para desenvolvê-las. Há vários testes e diagnósticos que podem ser aplicados para esse objetivo, como os apresentados nos livros Empreendedorismo, Transformando Ideias em Negócios,

Empreendedorismo na Prática e Criação de Novos Negócios,23 além do

teste gratuito disponibilizado no portal planodenegocios.com.br24 e do teste de perfil empreendedor de McClelland, disponível para tablets e

smartphones em http://bit.ly/perfilempreendedor.25

O que esses testes buscam identificar são padrões de comportamento e crenças pessoais, para então compará-los aos resultados obtidos quando foram aplicados aos indivíduos considerados empreendedores. Por isso, note que, ao se autoaplicar um teste de perfil empreendedor, você deve levar em consideração que suas crenças, habilidades, conhecimento, experiência, mudam com o passar do tempo e, por isso, um resultado obtido hoje não significa um rótulo que deve ser levado para o resto da vida.

Em resumo, caso você identifique deficiências que precisam ser aperfeiçoadas, considere o teste como um balizador que se propõe a auxiliá-lo na definição de metas de melhoria. Já o contrário também deve ser visto com ressalvas, uma vez que obter pontuações ou resultados máximos em testes pode levar o indivíduo a relaxar e achar que está “pronto” para os desafios e que nada mais precisa aprender. Isso é temerário e pode até soar tolo, mas muitas pessoas acabam por cair nesse tipo de armadilha e vivem por anos sendo consideradas excelentes empreendedoras em potencial, que não colocam em prática toda sua sabedoria.

A partir dessas ressalvas, cabe discutir algumas das habilidades mais comuns aos empreendedores para tentar entender como esses indivíduos especiais para a sociedade se comportam, mesmo sabendo que essa tentativa não levará a uma conclusão exata. A Tabela 3.1 apresenta 20 características comumente atribuídas aos empreendedores.

 

Tabela 3.1 Vinte características empreendedoras

Motivação Os empreendedores geralmente são pessoas motivadas, pois têm um motivo

para agir, uma missão a cumprir, um sonho a realizar. A realização do empreendedor não ocorre apenas por meio do ganho financeiro, mas ganhar dinheiro é uma das maneiras de se realizar!

Iniciativa Os empreendedores não esperam os eventos acontecerem, eles se antecipam e

tomam a iniciativa, são pioneiros, proativos e querem estar à frente da concorrência.

Paixão Os empreendedores são pessoas otimistas e apaixonadas pelo que fazem. Isso

ocorre porque geralmente o negócio criado é o caminho para realização de seu sonho e objetivos traçados (mesmo que informalmente) de realização pessoal.

Visão O hábito de sonhar do empreendedor faz com que vislumbre cenários futuros,

mudanças no ambiente, no comportamento das pessoas e no mercado. A partir dessa análise, o empreendedor passa a desenvolver uma visão clara do futuro de seu negócio.

Networking Os empreendedores sabem que, se não se relacionarem, não conseguirão

convencer as pessoas de que seu sonho é viável. A habilidade de relacionamento pessoal leva ao desenvolvimento de uma rede de contatos extensa, com os mais variados tipos de pessoas. Esse networking é o alicerce das relações que terá por toda a vida; e as conexões estabelecidas serão úteis ao seu desenvolvimento pessoal e ao negócio.

Liderança Os empreendedores são autênticos e demonstram possuir uma energia e crença

incomuns. Esse comportamento inspira as pessoas ao seu redor, que são contagiadas por uma liderança natural.

Trabalho em O empreendedor aprende na prática que, sozinho, dificilmente conseguirá

equipe realizar seu sonho. A formação de equipes que pensam e agem conforme sua

visão e que complementam seu perfil passa a ser um trunfo para o sucesso do negócio.

Fazer a Apesar de uma frase que permite interpretações subjetivas, o “fazer acontecer”

diferença resume o mantra dos empreendedores. A atitude perante os desafios resume-se

nessa frase, que pode ainda ser interpretada como o ato de realização.

Conhecimento O conhecimento é um ativo intangível, mas de extrema importância para o

sucesso do empreendedor. Aqueles que conhecem em detalhes seu produto/serviço, o modelo de negócio de sua empresa, o setor/mercado no qual a empresa atua, adquirem uma vantagem em relação a seus competidores.

Criatividade Ser criativo não é pré-requisito para ser empreendedor, mas os empreendedores

criativos geralmente estão mais preparados para inovar. Um caminho para desenvolver a criatividade é praticar o ato de ser curioso, já que a curiosidade desperta no empreendedor o interesse por novas oportunidades.

Dinamismo Não se contentar com o status quo e ser um inconformado são o que faz do

empreendedor uma pessoa dinâmica, que se envolve em várias atividades e não se sente confortável com a calmaria. O lado ruim desse tipo de comportamento

pode ser o excesso de impaciência, que muitas vezes leva ao estresse em demasia.

Assumir risco Quem não arrisca não petisca. Essa é a essência do comportamento

empreendedor. Para conseguir resultados relevantes, deve haver uma pitada de risco. E quando se arrisca, pode-se falhar. Aceitar que a falha com certeza pode ou vai ocorrer é o primeiro passo para lidar com o risco. Com isso, o empreendedor aprende a se levantar quando há um fracasso e dedica-se a novos desafios. O fracasso, portanto, faz parte da curva de aprendizado do empreendedor.

Planejamento Quando se tem um objetivo claro do que se quer ou aonde se quer chegar, o

planejamento passa a ser uma atividade quase natural. Por isso, o ato de planejar é considerado de suma importância para o sucesso do empreendedor. Porém, há empreendedores que têm o sonho claro, mas o objetivo não tão bem definido. Nesses casos, o planejamento tradicional parece não ter sentido, pois não se sabe aonde se quer chegar. O planejamento efectual (que será tratado no Capítulo 4) passa a ter grande relevância nessas situações.

Organização Organizar, do ponto de vista empreendedor, não é o ato de ser metódico,

burocrático ou detalhista. Trata-se de saber juntar adequadamente os recursos e as partes para formar o todo de que um projeto precisa para ser executado.

Explorar Ideias só se tornam grandes negócios quando transformadas em oportunidades.

oportunidades Os empreendedores estão sempre atentos para identificar lacunas nos

mercados, propor soluções para problemas da sociedade ou desenvolver mercados a partir de ideias inovadoras que tiveram.

Tomar Quando precisam decidir entre as alternativas disponíveis, mesmo sem ter em

decisões mãos todas as informações de que gostariam, os empreendedores sabem que, se

não tomarem uma decisão, podem deixar a oportunidade passar. Por isso, não titubeiam, não hesitam, são decididos.

Dedicação O olho do dono é que engorda o rebanho, dito popular que exprime como o

envolvimento do empreendedor é essencial para o sucesso de seu empreendimento. Os empreendedores sabem disso e envolvem-se de corpo e alma no negócio, abrindo mão de horas de lazer, finais de semana e férias, por exemplo. Muitas vezes, essa excessiva dedicação leva a disfunções, como problemas de relacionamento familiar, deterioração da saúde, pouca qualidade de vida etc. Por isso, os empreendedores contemporâneos estão mais atentos ao equilíbrio entre o tempo dedicado ao trabalho, lazer, família e a si mesmo.

Autonomia A sensação de liberdade para decidir os próprios caminhos, de independência,

controle da situação e de poder resumem a autonomia do empreendedor. Trata-se de uma das características mais claras nos empreendedores e, ao mesmo tempo, um dos anseios mais buscados pelos que querem empreender um dia.

Persuasão Os empreendedores precisam sempre vender sua tese, conceito, proposta de

valor para que outros comprem seus produtos e serviços. A persuasão é típica dos empreendedores que buscam convencer o interlocutor que sua oferta é a mais apropriada. Como geralmente o empreendedor é o maior conhecedor de seu próprio negócio, não é difícil para ele assumir o papel de principal

“vendedor” da empresa. Ao se juntar a ingredientes como paixão, prazer, conhecimento e dedicação, a persuasão se torna uma poderosa ferramenta nas mãos do empreendedor.

Valor para a O empreendedor do próprio negócio cria empregos, paga impostos, gera valor

sociedade e riqueza para a sociedade, não só para si. Seu papel é fundamental para o

desenvolvimento econômico do país. Além disso, o empreendedor é um modelo de referência e inspiração aos mais jovens que sonham com um mundo melhor.

 

Muitas das características da Tabela 3.1 são ratificadas pelo estudo da Ernst & Young sobre o DNA do empreendedor de sucesso. Nesse estudo, foram entrevistados 685 líderes empreendedores de 30 países, atuando em 25 setores diferentes da economia. As empresas desses empreendedores

faturaram, em 2011, entre U$10 milhões e U$20 bilhões.26 Uma das perguntas feitas aos empreendedores buscou identificar, na sua própria visão, quais seriam as qualidades mais importantes de um líder

empreendedor. O resultado é apresentado na Figura 3.1.

Algumas das qualidades ressaltadas no estudo merecem atenção dos candidatos a empreendedor, como foco (dedicação total a um projeto até conseguir os resultados almejados), resiliência (capacidade de resistir à pressão ou de lidar com problemas) e integridade (não se corromper e ser fiel a seus princípios de conduta ética).

Outro destaque desse estudo foi a resposta à pergunta: “Qual é o maior desafio para um negócio em fase inicial?”. A resposta que aparece em primeiro lugar, para 33% dos participantes do estudo, foi “o investimento inicial”; em segundo lugar, empatadas com 19%, encontram-se “pessoas/equipe” e “know-how/conhecimento”.

Conseguir recursos sempre foi e continua sendo um desafio para os empreendedores iniciantes. Já montar times ou equipes com as habilidades necessárias é considerado um desafio pelos empreendedores. Mais difícil ainda é encontrar pessoas com os valores adequados e em consonância com os do empreendedor e da empresa que está criando. Eles relatam também ser essencial montar equipes com habilidades técnicas sólidas e com conhecimento de gestão abrangente, o que é raro encontrar na maioria dos indivíduos.

Figura 3.1 26 Principais qualidades dos líderes empreendedores

 

Na prática

 

O perfil do empreendedor do próprio negócio

 

1. Acesse o site www.planodenegocios.com.br, realize o teste de

perfil empreendedor (McClelland) disponível gratuitamente e analise suas características empreendedoras. Compare seus resultados com a média de resultados apresentados no site e ainda com os resultados de seus colegas. Quais são as suas conclusões? Qual é a sua opinião sobre os testes de perfil empreendedor?

2. Das características empreendedoras trabalhadas no teste de

McClelland quais não foram citadas na Tabela 3.1? A partir do que você estudou neste capítulo, de pesquisas na internet e do