Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 20 de 79

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Flores do Campo

Resposta

Póde exceder em amar.

Em cinza, em terra, em nada,

Meu sêr converte, ó luz,

Mas sempre, sempre amada,

Deliciosa cruz!

 

Portimão.

 

RESPOSTA

 

A A. DO QUENTAL

Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando

Para as nuvens do céo, nuvens d'aquellas, E parece-me ainda que mais bellas,

Anda a gente fazendo e desmanchando.

Dá-me uma saudade em me lembrando

O bello tempo que passei com ellas,

Por essa immensa abobada de estrellas, Por esse mar de fogo viajando...

Andasse ainda eu lá, que não me havia

De vêr por estes charcos atolado,

Onde nem sol nem lua me alumia.

Andasse ainda eu lá, desenganado

Mesmo já como estou de achar um dia A patria d'aonde ando desterrado.

 

Pois se o homem, se anjo e nume,

Planta e flôr,

Dá seu canto, luz, perfume,

Crença e amor;

Pois se tudo sobre a terra

Que ame alguem,

Rosa ou espinho, quanto encerra

Dá, se o tem;

Se os carvalhos, nus, medonhos,

Veste abril;

Se inda a noite presta aos sonhos

Graças mil;

Se onde ha ramo, voz uma ave

Desprendeu;

Se onde ha folha, gotta suave

Cahe do céo;

Se na praia, quando a onda

Vem de lá,

Beijos, antes que se esconda,

Mil lhe dá;

Tambem, anjo meu saudoso!

Te hei de emfim Ah! dar quanto de precioso

Sinto em mim!

Dou-te o nectar, que me acalma;

Toma-o tu!

Sim, meu pranto; mais uma alma

Que eu possuo!

Dou-te os sonhos meus ardentes,

Mas leaes;

Dou-te as notas mais cadentes

Dos meus ais!

Do que ha lindo, tudo quanto

Me seduz;

D'esta vida, riso e pranto,

Noite e luz!

Dou-te o genio meu, que á sorte

Vês fluctuar

Sem mais véla, sem mais norte

Que esse olhar!

Dou-te a lyra, que me inspiras,

Sonho meu!

Que suspira, se suspira,

Flôr do céo!

Dou-te; aceita: tudo é santo,

Tudo, flôr!

Dou-te uma alma toda encanto,

Toda amor!

V. H .

 

Coimbra.