Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 73 de 79

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Flores do Campo

2.º Coro

Não fallando em diamantes

E pedras as mais brilhantes

Que lá isso excede a tudo.

 

2.º CORO

—Além vem já Salomão:

Lá vem elle já coroadoCom a corôa do noivado

Que a mãi lhe poz na cabeça

Pela sua propria mão.

Hoje é o dia fallado:

Moços, moças de Sião!

Assomai-vos já depressa.

 

SALOMÃO

—Que enlevo, que formosura!

A pomba não tem de certo

No olhar tanta doçura:

E fóra o que anda encoberto.

O cabello, em quantidade

E tamanho, é singular;

E não me lembra senão

Das cabras de Galaad

Que lhes rola pelo chão

Em ellas indo a andar.

Os dentes, em tu abrindo

A tua boca, que lindo!

Nem um rebanho d'ovelhas

Todas brancas e parelhas

Quando, em sendo tosquiadas,

Veem saindo do banho

D'uma em uma, enfileiradas,

E atraz d'ellas, cada uma

Seus dois gemeos d'um tamanho,

Sem ser maninha nenhuma.

Pois a bocca é comparada

A uma fita encarnada.

A voz ouvil-a é um gosto:

Parte a romã pelo meio

Verás as rosas do rosto;

E fóra no que eu receio

Fallar que me não é dado.

O pescoço, pensa a gente,

Em o vendo de collares,

Que é a torre exactamente

De David, n'esses ares,

De baluartes, e toda,

Lá cima, escudos á roda.

Os peitos é um casal

De corcinhas, que o seu pasto

São açucenas do val:

Nada mais timido e casto.

E deitam um cheiro á goma,

Da myrrha mais do incenso,

A ponto que ás vezes penso

Que elles são duas collinas

Por onde aquellas resinas

Espalham aquelle aroma.

És formosa sem senão,

Amada do coração!

E que fazias tu lá

Pelo Libano, pombinha!

Deixa o Libano, anda cá.

Vaes ser coroada rainha

No mais alto d'Amaná

Ou d'Hermão ou de Sanir,

Onde ha leões e onde ha

Leopardos... deves vir.

Trespassou-me o coração

O teu olhar; o cabello

Prendeu-me como um grilhão.

O teu peito, basta vêl-o,

Para embebedar d'amor.