Flores do Campo
2.º Coro
Não fallando em diamantes
E pedras as mais brilhantes
Que lá isso excede a tudo.
2.º CORO
—Além vem já Salomão:
Lá vem elle já coroadoCom a corôa do noivado
Que a mãi lhe poz na cabeça
Pela sua propria mão.
Hoje é o dia fallado:
Moços, moças de Sião!
Assomai-vos já depressa.
SALOMÃO
—Que enlevo, que formosura!
A pomba não tem de certo
No olhar tanta doçura:
E fóra o que anda encoberto.
O cabello, em quantidade
E tamanho, é singular;
E não me lembra senão
Das cabras de Galaad
Que lhes rola pelo chão
Em ellas indo a andar.
Os dentes, em tu abrindo
A tua boca, que lindo!
Nem um rebanho d'ovelhas
Todas brancas e parelhas
Quando, em sendo tosquiadas,
Veem saindo do banho
D'uma em uma, enfileiradas,
E atraz d'ellas, cada uma
Seus dois gemeos d'um tamanho,
Sem ser maninha nenhuma.
Pois a bocca é comparada
A uma fita encarnada.
A voz ouvil-a é um gosto:
Parte a romã pelo meio
Verás as rosas do rosto;
E fóra no que eu receio
Fallar que me não é dado.
O pescoço, pensa a gente,
Em o vendo de collares,
Que é a torre exactamente
De David, n'esses ares,
De baluartes, e toda,
Lá cima, escudos á roda.
Os peitos é um casal
De corcinhas, que o seu pasto
São açucenas do val:
Nada mais timido e casto.
E deitam um cheiro á goma,
Da myrrha mais do incenso,
A ponto que ás vezes penso
Que elles são duas collinas
Por onde aquellas resinas
Espalham aquelle aroma.
És formosa sem senão,
Amada do coração!
E que fazias tu lá
Pelo Libano, pombinha!
Deixa o Libano, anda cá.
Vaes ser coroada rainha
No mais alto d'Amaná
Ou d'Hermão ou de Sanir,
Onde ha leões e onde ha
Leopardos... deves vir.
Trespassou-me o coração
O teu olhar; o cabello
Prendeu-me como um grilhão.
O teu peito, basta vêl-o,
Para embebedar d'amor.