Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 77 de 79

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Flores do Campo

Coro

Eu só de lhe ouvir a falla

Fui ás nuvens de contente.

E em paga de tudo, abala;

Bradei-lhe, não me acudiu,

Vou por essas ruas fóra

Á busca d'elle, até'gora:

Parece que o chão se abriu...

Encontro a ronda, espancou-me;

Um dos da guarda á entrada

Da cidade, esse, roubou-me

A capa onde ia embrulhada.

Peço-vos isto por bem,

Moças de Jerusalem!

Contai tudo ao meu amado,

Que elle é por amor de quem

Estou n'este triste estado.

 

CORO

—O teu amado... responde,

Formosura sem igual!

Ha tantos onde escolher

Que é necessario um signal.

Qual é o signal por onde

Havemos de o conhecer?

—Eu vos digo: o meu amado,

D'aquellas côres no mundo,

Estou que não ha segundo;

É muito branco e córado.

A cabeça é um thesoiro

Do que ha de mais principal;

Que a sabedoria vale

Mais do que a prata e o oiro.

De negro que é o cabello,

Vêr um corvo, é mesmo vêl-o.

Os olhos, aquelle olhar,

Ha n'elles uma doçura,

Que não sei a que os compare;

Só sendo a um casalinho

De pombas, que estão no ninho,

Todas pureza e candura.

As suas faces rosadas,

Rescendem como um canteiro

D'aquellas plantas de cheiro

De que fazem as pomadas.

A bocca, digo a verdade,

Que a açucena mais pura

Cheia da myrrha melhor

Não apresenta a doçura,

Pureza e suavidade

Das fallas do meu amor.

Aquelles dedos, vereis,

São uns canudos de anneis!

O ventre d'elle é assim

Como um cofre de marfim.

As pernas, de musculosas,

São columnas magestosas

E de marmore inteiriço

Em bases de oiro maciço.

É o Libano em altura,

É como um cedro na matta

A sua bella figura.

É tão suave, tão pura

A sua voz, que arrebata.

Todo elle é singular

E todo de cubiçar.

Eil-o ahi retratado,

Moças de Jerusalem!

E não só o meu amado;

O meu amante tambem.