Flores do Campo
Coro
Eu só de lhe ouvir a falla
Fui ás nuvens de contente.
E em paga de tudo, abala;
Bradei-lhe, não me acudiu,
Vou por essas ruas fóra
Á busca d'elle, até'gora:
Parece que o chão se abriu...
Encontro a ronda, espancou-me;
Um dos da guarda á entrada
Da cidade, esse, roubou-me
A capa onde ia embrulhada.
Peço-vos isto por bem,
Moças de Jerusalem!
Contai tudo ao meu amado,
Que elle é por amor de quem
Estou n'este triste estado.
CORO
—O teu amado... responde,
Formosura sem igual!
Ha tantos onde escolher
Que é necessario um signal.
Qual é o signal por onde
Havemos de o conhecer?
—Eu vos digo: o meu amado,
D'aquellas côres no mundo,
Estou que não ha segundo;
É muito branco e córado.
A cabeça é um thesoiro
Do que ha de mais principal;
Que a sabedoria vale
Mais do que a prata e o oiro.
De negro que é o cabello,
Vêr um corvo, é mesmo vêl-o.
Os olhos, aquelle olhar,
Ha n'elles uma doçura,
Que não sei a que os compare;
Só sendo a um casalinho
De pombas, que estão no ninho,
Todas pureza e candura.
As suas faces rosadas,
Rescendem como um canteiro
D'aquellas plantas de cheiro
De que fazem as pomadas.
A bocca, digo a verdade,
Que a açucena mais pura
Cheia da myrrha melhor
Não apresenta a doçura,
Pureza e suavidade
Das fallas do meu amor.
Aquelles dedos, vereis,
São uns canudos de anneis!
O ventre d'elle é assim
Como um cofre de marfim.
As pernas, de musculosas,
São columnas magestosas
E de marmore inteiriço
Em bases de oiro maciço.
É o Libano em altura,
É como um cedro na matta
A sua bella figura.
É tão suave, tão pura
A sua voz, que arrebata.
Todo elle é singular
E todo de cubiçar.
Eil-o ahi retratado,
Moças de Jerusalem!
E não só o meu amado;
O meu amante tambem.