Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 27 de 79

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Flores do Campo

Carta

 

Maria! vêr-te á porta a fazer meia,

Olhando para mim de vez em quando,

É o que n'esta vida me recreia.

Acordo até de noite suspirando

Por que rompa a manhã e tenha o gosto

De te vêr já tão cedo trabalhando.

Desde pela manhã até sol-posto

Que não tens de descanço um só momento; Por isso tens tão bella côr de rosto.

E eu pallido, Maria! O pensamento

Não é trabalho que nos dê saude,

Esta imaginação é um tormento.

Que bello tempo aquelle em quanto pude Levar, como tu levas, todo o dia

N'essa vida chamada ingrata e rude!

Nunca soube o que foi melancolia,

Nunca provei as lagrimas salgadas

Com que a nossa alma as penas allivia;

Andava sim por essas cumiadas

Ao sol, á chuva, muita vez, sósinho,

Vendo os valles, das rochas escarpadas;

Descendo pelo córrego estreitinho,

De pontal em pontal, cortando o matto,

Pelas chapadas, fóra de caminho;

Mas não era que já o teu retrato

Me andasse a mim no coração impresso, Onde hoje o trago no maior recato,

E um desengano teu que não mereço

Me tivesse tirado a fé tão dôce

D'alcançar algum dia o que appeteço.

Não foi, não, a paixão que assim me trouxe Tão erradio a mim, digo a verdade

E nem eu te negava se assim fosse.

É que a gente na sua mocidade

Não cabe em si, não pára de contente,

E assim fui eu na flôr da minha idade.

Tu eras n'esse tempo simplesmente

A flôr que vai nascendo e mais valia

Seres tão tenra ainda e innocente.

Já esse lindo pé que tens, Maria!

Esse quadril tão largo, e cinta estreita,

Me não vinha á idéa noite e dia;

Esses encontros de mulher perfeita,

Esse peito redondo e arqueado

Como o de pomba farta e satisfeita.

Talvez vivesse então mais socegado,

Ou já que minha sorte é sempre triste

Ao menos não andasse enfeitiçado.

Esse bello pescoço, não existe

Outro assim torneado: o rosto é lindo

E a tão meiga expressão ninguem resiste.

A bocca é tão vermelha que, em te rindo, Lembra-me uma romã aberta ao meio

Quando já de madura está cahindo.

Esses olhos azues... que olhar! Receio

E desejo estar sempre a contemplal-o;

Não ha mais dôce e mais custoso enleio:

Eu não oiço fallar então, nem fallo

De enlevado que estou e, juntamente,

Gemendo e abafando os ais que exhalo.

Oh nuvem da manhã resplandecente,

Manto real de sêda delicada,

Cada fio um grilhão que prende a gente.

Bem podias, Maria! andar tapada

Só com o teu cabello, á semelhança

Do sol em nuvem de manhã doirada.

É tudo encantador. A gente cança,

Cança de estar olhando e sempre vendo

Um novo encanto a cada olhar que lança.

E se essa linda voz nos sái dizendo

As mimosas palavras que costuma,

Sente-se a gente logo derretendo;

Que além d'um rosto tão perfeito, em summa Coube-te em sorte um coração perfeito

E em ti não ha, Maria! falta alguma.

Oh que ditoso, alegre e satisfeito

Não viverá o homem que algum dia

Sentir pular-te o coração no peito,

E que em deliciosissima agonia,

Vendo-te já os olhos desmaiando

Como desmaia o céo á luz do dia,

Nas azas da ventura atravessando

Os espaços d'um extasi ineffavel Abraçado comtigo fôr voando

Lá para onde tudo é bello e estavel!

 

Messines.

 

—Dá-me esse jasmim de cera,

Minha flôr?

—Mas e depois se lh'o dera,

Meu senhor?

—Depois? era uma lembrança.

—Mas de quê?

—D'uma tão linda criança,

Já se vê.

—Oh tão linda! Mas, parece,

Sendo assim,

Que inda quando lhe não désse

Tal jasmim...

—Não me esquecia, de certo.

—Nunca já?

—Nunca.—Nunca, é muito incerto,

Mas... vá lá.

—E a rosa, que bem lhe fica,

Dá-m'a, flôr?

—Oh a rosa, a rosa pica,

Meu senhor!