Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 58 de 79

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Flores do Campo

Malmequer

Lisboa.

 

MALMEQUER

 

Talvez em eu morrendo a teus ouvidos

Chegue a noticia, que hoje os factos vôam,

E oiças então os intimos gemidos

Que exhalo e te não sôam.

Talvez então, embora me não ames,

Com esses olhos humidos de fito

Na minha sombra: «Desgraçado! exclames;

Amava-me, acredito.

«Levou a vida amando-me: que prova

Me podia alguem dar de mais ternura,

Ingrata como eu era! Abri-lhe a cova,

Cavei-lhe a sepultura!

«Hei-de regal-a de meu pranto. Julgo

Do meu dever... agradecer-lhe agora!

Purificar-me em lagrimas! O vulgo

Que me censure embora.

«Hei-de ir dispôr um pé de saudade

Na terra onde elle descançou da lida;

Mostrar-lhe amor, mostrar-lhe piedade,

Que não mostrei em vida!»

Se fôres, meu amor! uma perpetua,

E uma saudade ser-me-hia dôce!

Mas só perpetua ou saudade, aceito-a,

E um malmequer que fosse.

 

Lisboa.