Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 79 de 79

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Flores do Campo

Capítulo VI

 

PASSEIO

CORO

—Que linda mulher aquella!

Nem a aurora lhe ganha.

A lua não é tão bella

Nem a luz do sol tamanha;

Mette mais vista só ella

Que um exercito em campanha.

 

A SULAMENSE

—Nunca tive um susto igual!

Ia á horta das nogueiras,

Ia passear ao valle,

Vêr se tinha flôr a vinha

E já romãs as romeiras;

Mas a multidão que vinha

Atraz de mim era tal

Que não vi nada, e tão cedo

Apanho tamanho medo.

 

CORO

—Oh não fujas, anda cá,

Sulamense! deixa vêr

Belleza como não ha

No mundo nem póde haver.

 

SALOMÃO

—Arrebata na verdade,

Mas como um canto de guerra,

Porque ao mesmo tempo aterra

Este ar e magestade.

O teu andar, que nobreza!

E tem o pé uma graça

Assim calçado, princeza!

Os joelhos, que perfeitos!

Não ha ourives que faça

Eixos de oiro mais bem feitos.

Umbigo, qual é a taça,

D'estas taças pequeninas

Por onde a gente costuma

Beber bebidas mais finas,

Tão redondinha? Nenhuma.

É o ventre de tal modo

Casto e fecundo, que apenas

Um monte de trigo, todo

Rodeado de açucenas

Me parece haver no mundo

Assim tão casto e fecundo.

O teu seio é um casal

De corcinhas, que o seu pasto

São açucenas do val:

Nada mais timido e casto!

Lembra-me o pescoço a mim,

Uma torre de marfim

E os olhos, esses então

Os dois lagos de Hesebão.

Vês a torre que apparece

Lá no Libano, e que diz

Para Damasco? parece

Na lindeza esse nariz.

A cabeça vêl-a toda

Por cima das mais, é bello,

Como a serra do Carmelo,

Toda collinas á roda.

O cabello é tal e qual

Um grande manto real!

É tudo uma perfeição,

Amada do coração!

Vêr-te é vêr uma parreira

Armada n'uma palmeira;

E lá em cima os teus peitos,

No tamanho e no feitio,

Dois cachos d'uvas perfeitos

Que a parreira produziu.

E eu disse d'esta maneira:

Dois cachos d'uvas tão bellos

Hei-de ir lá cima colhel-os;

Que bem se vê que a doçura

Corresponde á formosura;

E que a tua bocca é pura

E a respiração é sã

Como o cheiro da maçã

Quando se apanha madura.

—Como é suave e me encanta

O que me estás a dizer!

A voz da tua garganta

Embebeda como o vinho,

D'esse que a doçura é tanta

Que se costuma beber

Aos sôrvos, devagarinho.

És só meu e eu tambem

Sou tua, de mais ninguem.

Anda com a tua amada

Morar para o campo, amor!

Iremos de madrugada,

Logo ao romper da manhã,

Em se a gente levantando,

Vêr se a vinha já tem flôr,

Se está em flôr a romã

E se a fruta vai vingando.

Alli é que eu hei-de então

Abrir-te o meu coração.

Estamos na primavera,

A mandrágora já cheira,

E em minha casa, estar lá,

É como estar n'uma horta:

Mesmo ao pé da nossa porta

Temos quanta fruta ha.

E o teu quinhão, meu amado!

Assim do anno passado

Como da que vem agora,

Esse está sempre guardado.

Ouvisse-te eu n'esta hora

Chamar mãi á minha mãi!

Como se tu com effeito

Fosses criado ao seu peito

Assim como eu fui tambem:

Então já eu te beijava

Ás claras e te abraçava

Sem vergonha de ninguem.

Vamos aonde ella dorme,

A pedir a nossos paes

A sua benção, conforme

Costumam fazer os mais,

E depois seja o que fôr

É só mandar, meu amor!

Verás como te hei-de dar

D'um vinho delicioso

E d'um licor precioso,

De romã, que has de gostar.

.........................

Um braço já me elle passa

Pelos hombros... e me abraça

Pela cinta... o meu amado!

—Deixai-a dormir, cuidado,

Moças de Jerusalem!

Deixai dormir o meu bem

Um somno bem socegado.

......................

 

Messines.

 

Ouviste-me não sei quê

Trincolejar n'algibeira,

Acudiste mui lampeira,

Que me amavas. Já se vê.

Tens amado mais de mil,

Não era agora o primeiro.

Mas pensas que era dinheiro?

É a pedra e o fuzil.

 

Messines.

FIM

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