Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 48 de 79

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Flores do Campo

Adeus!

Mas quando é bello o céo, bella a paizagem

E quando é bello o sol?

Limpo de nuvens, nú, derrete a neve

E a aguia até desmaia.

Tu não tens mais do que uma pobre saia,

E essa, curtinha e leve.

Onde o corpo te alteia, a saia avulta;

Onde te abaixa, desce...

És como a rosa! A rosa nasce e cresce,

Não para estar occulta.

O que te falta pois? os teus desejos

Quaes são? de que precisas?

Ah! não ser eu o marmore que pisas...

Calçava-te de beijos!

 

Coimbra.

 

ADEUS!

 

Adeus tranças côr de oiro,

Adeus peito côr de neve!

Adeus cofre onde estar deve

Escondido o meu thesoiro!

Adeus bonina, adeus lirio

Do meu exilio d'abrolhos!

Adeus oh luz dos meus olhos

E meu tão dôce martyrio!

Desfeito sonho doirado,

Nuvem desfeita de incenso,

Em quem dormindo só penso,

Em quem só penso acordado!

Visão sim mas visão linda!

Sonho meu desvanecido!

Meu paraiso perdido

Que de longe adoro ainda!

Nuvem, que ao sopro da aragem

Voou nas azas de prata,

Mas no lago que a retrata

Deixou esculpida a imagem!

Rosa d'amor desfolhada

Que n'alma deixou o aroma,

Como o deixa na redoma

Fina essencia evaporada!

Adeus sol que me alumia

Pelas ondas do oceano

D'esta vida, d'este engano,

D'este sonho d'um só dia!

No mesmo arbusto onde o ninho

Teceu a ave innocente

Se volta a quadra inclemente

Acha abrigo o passarinho:

Mas eu n'esta soledade

Quando em meus sonhos te estreito,

Rosto a rosto, peito a peito,

Acordo e acho a saudade!

Adeus pois morte! adeus vida!

Adeus infortunio e sorte!

Adeus estrella do norte!

Adeus bussola perdida!

 

Coimbra.