Flores do Campo
Duvida
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Prompta.
N'essas especies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquelle diabo faz.
Sem saber nem patavina
De grammatica latina,
Quer-se a gente d'alli fóra?
Vai elle com taes fallinhas,
Taes gaifonas, taes coisinhas...
Tlim!
Ora...
Aquella physionomia
E labia que o diabo tem!
Mas n'uma secretaria
Ahi é que é vêl-o bem!
Quando elle, de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a occasião:
Conhece este amigo antigo?
—Oh meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!
Coimbra.
DUVIDA
Amas-me a mim! Perdôa;
É impossivel! Não,
Não ha quem se condôa
Da minha solidão.
Como podia eu, triste,
Ah! inspirar-te amor,
Um dia que me viste,
Se é que me viste... flôr!
Tu, bella, fresca e linda
Como a aurora, ou mais
Do que a aurora ainda,
Mal ouves os meus ais!
Mal ouves porque as aves
Só soltam de manhã
Seus canticos suaves;
E tu és sua irmã!
De noite apenas trina
O triste rouxinol:
Toda a mais ave inclina
O collo ao pôr do sol.
Porquê? porque é ditosa!
Porquê? porque é feliz!
E a que sorri a rosa?
Ao mesmo a que sorris!
Á luz doirada e pura
Do astro creador.
Á noite, não, que é escura,
Causa-lhe a ella horror.
Ora uma nuvem negra,
Uma pesada cruz,
Uma alma que se alegra
Só quando vê a luz
De que elle, o sol, inunda
O mar, quando se põe!
Imagem moribunda
D'um coração... que foi!