Flores do Campo
Paixão
«Foi quando em summa o terno amante apanha
O dôce beijo, por que andava ardendo:
Este, que eternamente me acompanha,
«Beija-me a bocca a mim, todo tremendo!
A culpa foi do livro que se lia!
Não se continuou o dia lendo.»
Em quanto assim Francisca respondia,
Chorava Paulo, a ponto, d'aterrado
Me vêr nas convulsões da agonia,
E cahir, como um corpo inanimado!
D .
Lisboa.
PAIXÃO
Suppõe que d'uma praia, rocha ou monte,
Com essa vista embaciada e turva
Que dá aos olhos entranhavel dôr;
Tinhas podido vêr transpôr a curva,
Pouco a pouco, do liquido horisonte,
A saudosa barca, que levasse
Aquelle, a quem primeiro uniste a face
E o teu primeiro amor!
Depois, que toda mágoa e saudade,
Da mesma rocha ou alcantil deserto,
Olhando ávidamente para o mar;
Vias na solitaria immensidade,
Vagas ficções d'um pensamento incerto,
Surgir das ondas, desfazer-se em espuma;