Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 55 de 79

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Flores do Campo

Francisca de Rimini

 

Disse eu então: poeta, vês aquelles,

Abraçados, velozes como o vento?

Desejava poder fallar com elles.

—Chamando-os com enternecimento,

Em cá passando mais do nosso lado,

São dois amantes, lograrás o intento.

Assim que o vento os aproxima, brado:

Oh almas d'uma eterna anciedade,

Vinde fallar-me, se vos isso é dado.

Como um casal de pombas, com saudade

Do ninho, vem no ar, d'aza espalmada,

Não mais que por impulso da vontade;

Rompendo aquella aragem empéstada,

Acodem lá do bando onde anda Dido

Á supplica tocante e magoada.

«Ah mortal generoso e condoído,

Que nos visita n'este escuro horrendo,

Deixando nós de sangue o chão tingido!

«Do Senhor impetráramos podendo,

Já que tens dó do nosso mal enorme,

O teu descanço eterno em fallecendo.

«Queiras ouvir-nos ou fallar, conforme,

É só dizer ou perguntar, mais nada;

Em quanto o vento, como agora, dorme.

«A terra, onde nasci, fica assentada

Na praia onde a final o Pó descança,

E os que o seguem na marcha arrebatada.

«Amor, que em nenhum moço acha esquivança

Prendeu este a um corpo... que roubado

Foi á minha alma em barbara vingança!

«Amor, que obriga amar quem é amado,

Poz-me com elle tão condescendente,

Que ainda, como vês, me anda abraçado.

«Amor nos deu a morte juntamente.

Quem nos matou irá para as Caínas.»

Disseram elles isto fielmente.

Depois d'ouvir as victimas mofinas,

Scismando cabisbaixo, em tal postura,

Pergunta-me o poeta: em que imaginas?

Começo respondendo: oh desventura!

Quanta esperança! quanta sympathia

A ambos não cavou a sepultura!

E voltando-me a quem me referia:

Olha Francisca! dó dos teus tormentos

Estas lagrimas tristes desafia.

Mas na quadra dos vagos sentimentos,

Conta-me: como foi que conheceste

Os amorosos languidos momentos!

«O desgosto maior d'um triste é este,

Fallar do tempo que passou, confesso:

Que o diga o proprio guia que trouxeste

«Mas desejando tu com tanto excesso

Conhecer de raiz esta amizade,

Entre vozes e lagrimas começo:

«Liamos ambos, por curiosidade,

Certa historia d'amores, que idearam,

Nós sós, um dia, livres de maldade.

«Muita vez nossos olhos se espantaram,

E descoramos, lendo a historia estranha;

Mas dos lances que mais nos abalaram,