Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 53 de 79

Páginas do PDF

Flores do Campo

Joven Captiva

Que em tua face desenho

A face do meu amor:

Uma só lagrima! fria,

Que ella me cáia... diria

Que uma lagrima cahia

Do céo ao menos na dôr!

 

Coimbra.

 

JOVEN CAPTIVA

 

Respeita a foice a espiga verde ainda;

Sem medo da vindima, o estio inteiro,

Bebe o pampano as lagrimas da aurora:

E eu verde como a espiga, tenra e linda

Como o pampano, hei-de morrer? não quero:

Quero, mas não por ora!

Talvez que a outrem, morte, grata fosses.

Espero! Embora em lagrimas me lave,

Varre-me o norte a mim a face? inclino-a.

Se ha dias tristes, ai! ha-os tão dôces...

Sem amargo, que mel, por mais suave

Que mar, em paz continua?

Benefica illusão meu seio habita.

Sepulte-me este carcere inhumano;

A aza nivea da fé não se agrilhôa.

Escapa ao laço da prisão maldita,

Mais viva e alegre, a esse aereo oceano,

A alvéloa canta e vôa.

Hei-de morrer? porque? se não diviso

Em minha alma um remorso; durma ou vele,

Se eu velo e durmo em paz, na paz do justo!

Se em cada rosto a luz me abre um sorriso;

Aqui mesmo, onde a mágoa o riso expelle;

E a luz assoma a custo!

O fim do meu destino é lá tão longe!

Quantos passei dos alemos que adornam

Esta bella viagem? Assentada

Ao banquete da vida apenas hoje,

A taça ainda cheia as mãos entornam,

Dos labios illibada.

Estou na primavera, oh segadores!

E as mais quadras do anno havia agora

De não acompanhar o sol? havia?

Debruçada em meu pé, gloria das flôres,

Eu não vi mais do que raiar a aurora;

Quero acabar meu dia.

Espera um pouco, oh morte! nada perdes.

Antes consola os que o remorso, o medo,

O desalento pallido devora!

Guarda-me ainda o campo grutas verdes!

As musas, cantos! e o amor... Segredo!

Não morro, não, por ora!

Assim, encarcerada, o rosto lindo

E a vista alçando a regiões ignotas,

Minha musa entoou na fé mais viva:

E eu, as languidas mágoas sacudindo,

Moldei em dôce verso as dôces notas

D'essa joven captiva!

A -C .

 

Coimbra.

Mulher! quando nos braços

Te escuto uma canção,

Não vês em meus abraços

Profunda commoção?

É que o teu canto á mente

Me traz vida melhor...

Ah!

Cantai continuamente,

Cantai, oh meu amor!

Quando sorris, assume

Teu rosto uma expressão,

Que o mais feroz ciume

Se desvanece então.

Sorriso tal desmente

Um coração traidor...

Ah!

Sorri continuamente,

Sorri, oh meu amor!

Quando tranquilla e pura,

Te estou a vêr dormir,

Que vozes se afigura

Teu halito exprimir?

Contemplo então contente

Teu corpo encantador...

Ah!

Dormi continuamente,

Dormi, oh meu amor!

Letra de V. H . Musica de G .

 

Lisboa.