Flores do Campo
Innocencia
És o aljofar que esmalta
Virgineas rosas d'amor.
És a roseira que a custo
Levanta os cachos do chão,
És a vergontea do arbusto,
Anjo do meu coração!
Tu és a agua das fontes,
Tu és a espuma do mar,
Tu és o lirio dos montes,
Tu és a hostia do altar.
És o pimpolho, és o gommo,
És um renovo d'amor;
Tu és o vedado pomo...
Tu és a minha Leonor...
Tu és a Laura que eu amo,
E a minha Taboa da Lei,
E a pomba que trouxe o ramo,
E a margarida que achei.
És o lirio, és a bonina
Dos valles do meu paiz;
És a minha Catharina...
És a minha Beatriz!
Coimbra.
INNOCENCIA
Encolhe as azas, que te abrazas, louca!
O fogo mata a quem o gera, attende;
Foge e, se a vida te aborrece, estende
Um braço aos anjos, que a distancia é pouca.
Porque uma nuvem, onda transitoria
Do mar immenso, vem pousar na serra,
Não fica a nuvem pertencendo á terra:
Tu és o anjo que desceu da gloria.
Estranhas forças para ti me attrahem;
E ás vezes cedo, tua cinta enleio;
Teus olhos beijo; mas, contemplo o seio,
Tua alma dorme, e os meus braços cahem...
Desfallecidos, flôr celestial!
Como ante um berço cahe a foice erguida, Se ha n'elle mais do que uma simples vida, Se ha innocencia que mil vidas val.
Oh! não: teus labios o meu fel não provem: Outros os lirios d'essa face esmaguem;
D'outros mãos impias teu sorriso apaguem, Em quanto os labios tuas graças louvem.
Já no meu berço d'innocencia pude
Pesar as joias, que hoje em vão te invejo: Provei os favos de illibado pejo,
Sei o que perde quem o vicio illude.
Alcantil ingreme, onde o raio é certo,
Contém mais seiva, que inda o musgo cria: Quanto de fertil em nossa alma havia
Só deixa o ermo da saudade aberto.
Cahir no abysmo de intimos pezares
D'essas alturas onde mal te vejo, O ponto estava derreter n'um beijo
O fio de oiro que te manda aos ares.
N'esses dois cofres, n'esse collo aonde
Tantas riquezas enterrei ciumento
(E que alta noite vela o pensamento
Pelo crystal que o coração te esconde)
Em oiro em barra, fina prata e quanto
Coalha o vasto e opulento Oriente,
Fôra em ruinas encontrar sómente
Carvão, se um dia te quebrasse o encanto.
Casta innocencia, de Deus filha e bella
Entre as mais bellas! virginal aroma!
Rosa ineffavel, que, se á luz assoma,
Haste e raiz apodreceu com ella!
Sol, que uma vez em nossa vida passas! Flôr, que uma e neutra, como Deus, não gera; Que se abre morre, mas sem prole, inteira Com todo o côro das virgineas graças:
Ao vêr-te, embora meu olhar te envia
O impio incenso de Nadab, ajoelho...
Rosa da face e, não só rosa, espelho
Da face occulta de quem espalha o dia!
Se por teus membros orvalhadas flôres
Prodigas mãos da formosura entornam,
Flôres mais bellas o teu seio adornam...
Vós, lirios d'alma, virginaes amores!
O céo me encanta, como encanta o inferno. Mysterio... espaço... mente exploradora!
Morre nas mãos o que a nossa alma adora —Vago, impalpavel, infinito, eterno!
Evora.
A Escriptura Sagrada
Lá diz que uma mulher má
Não ha fera, não ha nada
Peor no mundo: e não ha.
Uma lá da minha aldeia,
Que era muito impertinente,
Muito má (e muito feia)
Morre um dia de repente.
Morreu; desgraçadamente
Mais tarde do que devia;
Mas em summa toda a gente
Teve a maior alegria.
Passados annos (é boa!)
Foi-lhe preciso ao coveiro
Abrir a cova, e achou-a
Ainda de corpo inteiro,
Ainda rosas na face,
Ainda signaes de vida...
Milagre! coisa sabida;
Pois mais fresca que uma alface
Ha tanto tempo enterrada,
Devendo estar reduzida
A pó, terra, cinza e nada...
Vem dar parte; e corre a vêl-a
O povo atraz do prior;