Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 32 de 79

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Flores do Campo

Innocencia

És o aljofar que esmalta

Virgineas rosas d'amor.

És a roseira que a custo

Levanta os cachos do chão,

És a vergontea do arbusto,

Anjo do meu coração!

Tu és a agua das fontes,

Tu és a espuma do mar,

Tu és o lirio dos montes,

Tu és a hostia do altar.

És o pimpolho, és o gommo,

És um renovo d'amor;

Tu és o vedado pomo...

Tu és a minha Leonor...

Tu és a Laura que eu amo,

E a minha Taboa da Lei,

E a pomba que trouxe o ramo,

E a margarida que achei.

És o lirio, és a bonina

Dos valles do meu paiz;

És a minha Catharina...

És a minha Beatriz!

 

Coimbra.

 

INNOCENCIA

Encolhe as azas, que te abrazas, louca!

O fogo mata a quem o gera, attende;

Foge e, se a vida te aborrece, estende

Um braço aos anjos, que a distancia é pouca.

Porque uma nuvem, onda transitoria

Do mar immenso, vem pousar na serra,

Não fica a nuvem pertencendo á terra:

Tu és o anjo que desceu da gloria.

Estranhas forças para ti me attrahem;

E ás vezes cedo, tua cinta enleio;

Teus olhos beijo; mas, contemplo o seio,

Tua alma dorme, e os meus braços cahem...

Desfallecidos, flôr celestial!

Como ante um berço cahe a foice erguida, Se ha n'elle mais do que uma simples vida, Se ha innocencia que mil vidas val.

Oh! não: teus labios o meu fel não provem: Outros os lirios d'essa face esmaguem;

D'outros mãos impias teu sorriso apaguem, Em quanto os labios tuas graças louvem.

Já no meu berço d'innocencia pude

Pesar as joias, que hoje em vão te invejo: Provei os favos de illibado pejo,

Sei o que perde quem o vicio illude.

Alcantil ingreme, onde o raio é certo,

Contém mais seiva, que inda o musgo cria: Quanto de fertil em nossa alma havia

Só deixa o ermo da saudade aberto.

Cahir no abysmo de intimos pezares

D'essas alturas onde mal te vejo, O ponto estava derreter n'um beijo

O fio de oiro que te manda aos ares.

N'esses dois cofres, n'esse collo aonde

Tantas riquezas enterrei ciumento

(E que alta noite vela o pensamento

Pelo crystal que o coração te esconde)

Em oiro em barra, fina prata e quanto

Coalha o vasto e opulento Oriente,

Fôra em ruinas encontrar sómente

Carvão, se um dia te quebrasse o encanto.

Casta innocencia, de Deus filha e bella

Entre as mais bellas! virginal aroma!

Rosa ineffavel, que, se á luz assoma,

Haste e raiz apodreceu com ella!

Sol, que uma vez em nossa vida passas! Flôr, que uma e neutra, como Deus, não gera; Que se abre morre, mas sem prole, inteira Com todo o côro das virgineas graças:

Ao vêr-te, embora meu olhar te envia

O impio incenso de Nadab, ajoelho...

Rosa da face e, não só rosa, espelho

Da face occulta de quem espalha o dia!

Se por teus membros orvalhadas flôres

Prodigas mãos da formosura entornam,

Flôres mais bellas o teu seio adornam...

Vós, lirios d'alma, virginaes amores!

O céo me encanta, como encanta o inferno. Mysterio... espaço... mente exploradora!

Morre nas mãos o que a nossa alma adora —Vago, impalpavel, infinito, eterno!

Evora.

 

A Escriptura Sagrada

Lá diz que uma mulher má

Não ha fera, não ha nada

Peor no mundo: e não ha.

Uma lá da minha aldeia,

Que era muito impertinente,

Muito má (e muito feia)

Morre um dia de repente.

Morreu; desgraçadamente

Mais tarde do que devia;

Mas em summa toda a gente

Teve a maior alegria.

Passados annos (é boa!)

Foi-lhe preciso ao coveiro

Abrir a cova, e achou-a

Ainda de corpo inteiro,

Ainda rosas na face,

Ainda signaes de vida...

Milagre! coisa sabida;

Pois mais fresca que uma alface

Ha tanto tempo enterrada,

Devendo estar reduzida

A pó, terra, cinza e nada...

Vem dar parte; e corre a vêl-a

O povo atraz do prior;