Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 50 de 79

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Flores do Campo

Sonho

Que da lampada esvoaça

E a vidraça reproduz:

Mal te vi, moira encantada!

Mas á luz dos olhos teus

Murcha a lampada sagrada

D'um altar do nosso Deus.

Mal te ouvi, mas as suaves

Melodias, que te ouvi,

São mais dôces que as das aves

Da aldêa onde nasci!

Quem teve, bella captiva,

Coração de te deixar

Aqui enterrada viva,

Sem amor, sem luz, sem ar!

Era cego e surdo, juro,

O miseravel algoz

Que não viu olhar tão puro,

Não ouviu tão pura voz!

Eu não tendo a faculdade

D'arrazar esta prisão,

Sacrifico a liberdade

Por tão dôce escravidão!...

 

Coimbra.

 

SONHO

 

Ha muitos sonhos de imaginação,

De mera phantasia:

Outros, que são a voz da prophecia,

A voz da intuição,

A voz do coração.

Pões fé em sonhos taes, Maria?... Pões?

E fazes bem, que ás vezes

Sonha a gente venturas e revezes,

Que se tornam depois

Bem certos! Ouve pois:

Sonhei que era n'um valle. Anoiteceu.

Então duas estrellas.

(Tão lucidas, tão limpidas, tão bellas!)

Vieram lá do céo

Alumiar-me. E eu...

Não sabia e pergunto: o que buscaes,

Alampadas celestes!

Vós, cá por este mundo... o que perdestes?

Na terra não achaes

Senão prantos e ais!

Respondem-me as estrellas (como a quem

As tivesse captivas,

Tão tremulas! as bellas fugitivas)

—Buscavamos alguem

Que nos quizesse bem:

É sorte nossa, é nossa condição

Dar luz, ser norte e guia;

Mas de mais boamente se alumia

Na terra um coração

Que nos tem affeição.—

—Pois e se vós do céo, lá onde até

Se ignora o que são dôres,

Vindes á terra procurar amores,

Estrellas! se assim é,

Tendes-me aqui ao pé:

Que em summa a noite da minha alma é tal

Que eu pobre viajante

Ando... se para traz, se para diante,