Flores do Campo
Mãi e Filho
Meu sêr, voou na aza da aguia negra
Que, levando-a, só não levou comsigo
D'esta alma aquelle amor!
E quando a luz do sol o mundo alegra,
Chrysalida nocturna, a sós commigo,
Abraço a minha dôr!
Dôr inutil! Se a flôr, que ao céo envia
Seus balsamos, se esfolha, e tu no espaço
Achas depois seus atomos subtis;
Inda has-de ouvir a voz que ouviste um dia,
Como a sua Leonor inda ouve o Tasso!...
Dante... a sua Beatriz!
—Nunca; responde a folha que o outono,
Da haste que a sustinha a mão abrindo,
Ao vento confiou:
—Nunca; responde a campa onde, do somno, E quem talvez sonhava um sonho lindo,
Um dia despertou.
—Nunca; responde o ai que o labio vibra;
—Nunca; responde a rosa que na face
Um dia emmurcheceu:
E a onda, que um momento se equilibra
Em quanto diz ás mais: deixai que eu passe!
E passou e... morreu!
Coimbra.
MÃI E FILHO
Primicias do meu amor!
Meu filhinho! do meu seio
Tenro fructo que á luz veio
Como á luz da aurora a flôr!
Na tua face, innocente,
De teu pai a face beijo,
E em teus olhos, filho, vejo
Como Deus é providente.
Via em lamina doirada
O meu rosto todo o dia
E a minha alma não se havia
De vêr nunca retratada?
Quando o pai me unia á face,
E em seus braços me apertava,
Pomba, ou anjo nos faltava
Que ambos juntos abraçasse!
Felizmente, Deus que o centro
Vê da terra e vê do abysmo,
Que bem sabe no que eu scismo,
Na minha alma um altar viu dentro:
Mas com lampada sem brilho,
Sem o deus a que era feito...
Bafeja-me um dia o peito,
E eis feito o meu gosto, filho!
Como em lagrimas se espalma
Dôr intima e se esvaece
D'alma o resto quem podesse
Vasar n'um beijo em tua alma!
Mas em ti minha alma habita!
Mas teu riso a vida furta...
Mas (que importa!) morte curta!
Se um teu beijo resuscita!
Coimbra.
Toca a capello, vou vêl-o
E vejo de toda a côr,
Não doutores de capello,
Mas capellos de doutor.
Coimbra.
Amas, pobre animal! e tens tu pena?...
Sim, póde na tua alma entrar piedade?
Se póde entrar, eu sei! Negar quem ha-de
Amor ao tigre, coração á hyena!
Tudo no mundo sente: o odio é premio
Dos condemnados só, que esconde o inferno. Tudo no mundo sente: a mão do Eterno
A tudo deu irmão, deu par, deu gemeo.
A mim deu-me esta gata, a mim deu-me isto...
Esta fera, que as unhas encolhendo
Pelos hombros me trepa e vem, correndo,
Beijar-me... Só não vivo! amado existo!
Evora.