Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 44 de 79

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Flores do Campo

Mãi e Filho

Meu sêr, voou na aza da aguia negra

Que, levando-a, só não levou comsigo

D'esta alma aquelle amor!

E quando a luz do sol o mundo alegra,

Chrysalida nocturna, a sós commigo,

Abraço a minha dôr!

Dôr inutil! Se a flôr, que ao céo envia

Seus balsamos, se esfolha, e tu no espaço

Achas depois seus atomos subtis;

Inda has-de ouvir a voz que ouviste um dia,

Como a sua Leonor inda ouve o Tasso!...

Dante... a sua Beatriz!

—Nunca; responde a folha que o outono,

Da haste que a sustinha a mão abrindo,

Ao vento confiou:

—Nunca; responde a campa onde, do somno, E quem talvez sonhava um sonho lindo,

Um dia despertou.

—Nunca; responde o ai que o labio vibra;

—Nunca; responde a rosa que na face

Um dia emmurcheceu:

E a onda, que um momento se equilibra

Em quanto diz ás mais: deixai que eu passe!

E passou e... morreu!

 

Coimbra.

 

MÃI E FILHO

 

Primicias do meu amor!

Meu filhinho! do meu seio

Tenro fructo que á luz veio

Como á luz da aurora a flôr!

Na tua face, innocente,

De teu pai a face beijo,

E em teus olhos, filho, vejo

Como Deus é providente.

Via em lamina doirada

O meu rosto todo o dia

E a minha alma não se havia

De vêr nunca retratada?

Quando o pai me unia á face,

E em seus braços me apertava,

Pomba, ou anjo nos faltava

Que ambos juntos abraçasse!

Felizmente, Deus que o centro

Vê da terra e vê do abysmo,

Que bem sabe no que eu scismo,

Na minha alma um altar viu dentro:

Mas com lampada sem brilho,

Sem o deus a que era feito...

Bafeja-me um dia o peito,

E eis feito o meu gosto, filho!

Como em lagrimas se espalma

Dôr intima e se esvaece

D'alma o resto quem podesse

Vasar n'um beijo em tua alma!

Mas em ti minha alma habita!

Mas teu riso a vida furta...

Mas (que importa!) morte curta!

Se um teu beijo resuscita!

 

Coimbra.

Toca a capello, vou vêl-o

E vejo de toda a côr,

Não doutores de capello,

Mas capellos de doutor.

 

Coimbra.

 

Amas, pobre animal! e tens tu pena?...

Sim, póde na tua alma entrar piedade?

Se póde entrar, eu sei! Negar quem ha-de

Amor ao tigre, coração á hyena!

Tudo no mundo sente: o odio é premio

Dos condemnados só, que esconde o inferno. Tudo no mundo sente: a mão do Eterno

A tudo deu irmão, deu par, deu gemeo.

A mim deu-me esta gata, a mim deu-me isto...

Esta fera, que as unhas encolhendo

Pelos hombros me trepa e vem, correndo,

Beijar-me... Só não vivo! amado existo!

 

Evora.