Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 37 de 79

Páginas do PDF

Flores do Campo

Ventura

Anjo do céo!

Não fujas, rosa!

Não fujas, goza

Manhã mimosa,

Manhã d'amor;

De folha em folha

A flôr se esfolha

Bem cedo, e olha

Que és como a flôr!

 

Coimbra.

 

VENTURA

 

O sol na marcha luminosa vôa

Lançando á terra magestoso olhar;

Passa cantando quem o ar povôa

E a praia abraça venturoso o mar.

No bosque o vento dôce canto entôa,

Ouvem-se em côro as multidões cantar;

Que a um só triste o coração lhe dôa,

Que eu seja o unico a soffrer, chorar...

Por ti, saudade... de quem vai tão perto

E a quem dos olhos e das mãos perdi

N'este tão ermo lugubre deserto!

Por ti, ventura... que uma vez senti;

Por ti, que ás vezes a meu peito aperto

E... o peito aperto sem te vêr a ti!

 

Evora.

 

Arida palma

Tem seu licôr,

Tem como a alma

Tem seu amor;

Tem como a hera

Tem seu abril,

Tem como a fera

Tem seu covil.

Tem toda a planta

Que o sol queimou

Lagrima santa

Que a orvalhou,

E o passarinho

Que hontem nasceu

Lá tem seu ninho

Que a mãi lhe deu.

Só eu na magua

Do meu penar

Sou como a agua

Que anda no mar,

Sou como a onda Que á busca vem

D'onde se esconda,

E onde, não tem!

Folha revolta

Que anda no chão,

Lagrima solta

Do coração;

Corpo sem vida,

Haste sem flôr,

Folha cahida

Do meu amor.

 

Coimbra.