Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 59 de 79

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Flores do Campo

Virginia

 

Para se recitar no theatro do Príncipe-Real

Senhores! vêde o sol; diariamente

Nasce, cruza esse espaço e, no poente,

Acaba de brilhar.

É util, é preciso, é necessario,

Não é pois inconstante, não é vario;

É certo, é regular!

Hervas que nutrem, animaes que comem,

E a imagem de Deus—que falla—o homem,

Sem essa luz, dizei:

Vegetavam acaso, existiriam?

Os echos d'esses valles repetiam

Alguma voz? O que!...

Seria tudo um ermo escuro e mudo;

Tudo insensivel, solitario tudo!

Mas Deus cria essa luz;

E um mar sem praias de silencio e morte,

Sêres de toda a casta—toda a sorte,

Produz e reproduz!

Sim, essa luz benefica converte,

Por mysteriosa alchimia, frio, inerte,

Imperceptivel grão

Em tenras hastes, em botões mimosos,

Folhas, flôres e fructos saborosos

Que recamam o chão!

Mas julgaes vós agricola sómente

A mão do creador omnisciente?

Pergunta singular!

Basta só vêr a ondeada trança

Com que elle adorna a virgem que vos lança

O seu primeiro olhar!

A terra é de côr varia, a planta, verde:

Porque e para que? O que se perde

Em ter tudo uma côr?

O que se ganha em ser tão bem pintada,

Symetrica, mimosa, perfumada

Uma ephemera flôr?

É que Deus é artista! e noite e dia

E céo e terra e mar o denuncia...

Vêde nascer o sol!

Pôr-se alta noite a lua encantadora...

Em quanto ao mesmo tempo canta e chora

Ao longe o rouxinol!

Deus é artista, sim; Deus ama o bello,

Mais talvez do que o util. O desvelo

Com que elle trata a flôr!

Antes de abrir... que mãi tão carinhosa

Resguarda, mais solicita que a rosa,

Um seu botão d'amor!

Nem podia sahir obra incompleta

Das mãos de Deus: geometra e poeta

Em summo grau, traçou

A compasso a abobada celeste;

Mas de que lindas nuvens a reveste

Que ao vento tomam vôo!

Creou, de fogo, o sol—o grande astro!

E creou, não de fogo, d'alabastro

A sua bella irmã

—Sombra apenas do sol, desnecessaria,

Luz phantastica, vaga, solitaria,

Inutil, fátua, vã...

Mas luz intima! luz do sentimento!

Luz d'amor e de fé! que inspira alento

A nossos corações!

Unica luz, á qual se mede o fundo

D'esse concavo mar... d'esse outro mundo...

D'esse mundo de soes!

Porque se ao sol deveis fructos e flôres,

Á lua deveis mais, deveis amores...

Deveis... como direi?

Esta entranhavel, vaga saudade

De não sei que melhor realidade,

Que o mundo que se vê...

Quantas vezes, depois da lida insana

D'um dia, n'este mar da vida humana,

Vendo surgir no céo

Essa luz melancolica e suave,

Eu acho então, e com que allivio, a chave

D'este mysterio meu!...

D'este amor por phantasticos amores...

Comtudo mais leaes e duradores

Que os d'esse mundo são!

D'este mundo de sombras... até prestes,

Sombra tambem, á sombra dos cyprestes

Achar satisfação!

E eu digo, digo á lua scismadora

Com os olhos risonhos de quem chora

Pranto consolador:

Se pois Deus te creou porque eras bella...

O que vale o sol mais do que uma estrella?

Um rei do que um pintor?

Ao vêr-te, dôce lampada, suspensa

De vaporosa nuvem, n'essa immensa

Abodada dos céos,

Pareces-me o thuribulo sagrado

Com os rolos de incenso evaporado

Em tua honra, oh Deus!

E a minha vista sofrega acompanha

Esse clarão phantastico á montanha

Ou da terra ou do mar,

Onde, acabada a obra do seu dia,

Astro d'amor e de melancolia,

Se deita a descançar.