Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 39 de 79

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Flores do Campo

Heresta

 

Que magua ou que receio

Dos olhos te desata

Aljofares de prata

No jaspe do teu seio?

Bem intima ser deve

A pena que te opprime,

Flôr tenra como o vime,

Flôr pura como a neve!

—Compunge-te isso, dóe-te

Vêr esmaltando o calix

Da erma flôr dos valles

O balsamo da noite?

Se aos olhos nos affluem

As lagrimas, parece

Que a dôr nos adormece,

E as maguas diminuem.

—Heresta! pois inclina

Na minha a tua face

E deixa me repasse

Teu balsamo, bonina!

Abraça-me, divide

Commigo esse consolo,

Enlaça-te ao meu collo

Como ao olmeiro a vide!

Ás vezes tambem quando

Os olhos se me estendem

Ás luzes, que se accendem

No templo venerando;

Tão intima saudade,

Tão intimo desejo,

D'um mundo, que não vejo,

Me inspira a immensidade...

Que o pranto se agglomera

Na palpebra, onde morre;

Sim, gela-se, não corre,

Tal é a dôr que o gera!

—É Deus que a si te aspira,

É Deus que ao céo te chama;

Que em tudo amor derrama,

A tudo amor inspira!

Canta-o, o justo, o santo!

E a flôr que o campo adorne

Thuribulo se torne

Mal te ouça o dôce canto.

—Inspira-o pois, inspira,

Virgem de intacto pejo!

Seja um teu riso o harpejo

E um teu cabello a lyra!

 

O sol já da montanha

Te disse adeus! adeus!

E a cupula dos céos

Ficou pallida e estranha.

E aquella, que a bondade

De Deus em si reflecte,

Em quanto ao sol compete

Mostrar-lhe a magestade,

Á luz extrema d'hoje

Ergueu livida a face

Com medo que avistasse

Quem busca, e de quem foge.

Fluxo e refluxo eterno

D'alma contradictoria,

Que após continua gloria,

Anda em continuo inferno.

Poeta! é copia tua,

Supplicio igual te inquieta.

Mas que alma de poeta

Teu seio arqueia, oh lua?

Amor, amor como este,

Visão timida e casta

Em giro eterno arrasta

A lampada celeste.

Como esse que a deshoras

A ti te ergue a cabeça

E aos ermos te arremessa

Em busca do que adoras.

Mas, ah! pallido globo!

É pio d'ave nocturna,

Echo em alguma furna

Do uivo d'algum lobo?

Ouço uma voz... escuta:

É ella a voz que se ouve?

Ou monge que inda louve

A Deus, n'alguma gruta!

Quem lá em baixo á escarpa

D'um ingreme penedo

No tremulo arvoredo

Entorna os ais d'uma harpa?

É ella a minha Heresta,

A minha branca ermida

Do ermo d'esta vida,

Mais erma que a floresta?

Tu, lua, que no val

D'Aialon paraste,

Já viste em sua haste

Suspenso lirio igual?

Não é, não é mais bella

A rosa entre os abrolhos,

Nem ha como os seus olhos

No céo nenhuma estrella!

É á luz d'uma alvorada,

Apenas desabrocha,

Nos angulos da rocha

Vêl-a despedaçada!

Vós, lobos! ide em bando,

Trepai pelo rochedo,

Uivai, mettei-lhe medo,

Levai-a recuando!

Que faz quem se aproxima

D'um precipicio, diz-m'o?

Que buscas tu no abysmo

Se o céo é lá em cima?

Não tarda muito, creio,

Que acabe esta ancia nossa,

E Deus unir-nos possa

No seu eterno seio.

É lá que a alma falla,

Lá que o amor se mede,

Que em brilho o sol excede,

E em gloria a Deus iguala!

Na nuvem do futuro

Teus vagos olhos prega!

Depois de noite negra

Vem sempre um céo mais puro.

 

E agora, se o desejo

Te satisfiz, em premio

D'um canto d'alma gemeo,

Um gemeo e dôce beijo!