Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 45 de 79

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Flores do Campo

Não!

 

Tenho-te muito amor,

E amas-me muito, creio;

Mas, ouve-me, receio

Tornar-te desgraçada.

O homem, minha amada!

Não perde nada, goza;

Mas a mulher é rosa...

Sim, a mulher é flôr!

Ora e, a flôr, vê tu

No que ella se resume...

Faltando-lhe o perfume,

Que é a essencia d'ella,

A mais viçosa e bella

Vê-a a gente e... basta.

Sê sempre, sempre, casta!

Terás... quanto possuo!

Terás, em quanto a mim

Me alumiar teu rosto,

Uma alma toda gosto,

Enlevo, riso, encanto!

Depois, terás meu pranto

Nas praias solitarias...

Ondas tumultuarias

De lagrimas sem fim!

Á noite, que o pezar

Me arrebatar de casa,

Irei na campa rasa

Que resguardar teus ossos,

Ah! recordando os nossos

Tão venturosos dias,

Fazer-te as cinzas frias

Ainda palpitar!

Mil beijos, dôce bem!

Darei no pó sagrado,

Em que se houver tornado

Um corpo tão galante!

Com pena, minha amante,

De me não ter a morte

Cahido a mim em sorte...

Cahido a mim tambem!

Já exhalando os ais

Na lugubre morada

Te vejo a sombra amada

Sahir da sepultura...

A tua imagem pura,

Fiel, mas illusoria...

Gravada na memoria

Em traços tão leaes!

Então, se ainda alli

Teus vaporosos braços,

Poderem dar abraços

Como dão hoje em dia,

Peço-te, sombra fria!

No mais intimo d'elles

Que a mim tambem me geles,

E fique ao pé de ti!

Mas, ai! meu coração!

Tu porque assim te affliges,

E tremula diriges

A vista ao céo piedoso!...

O quadro é horroroso,

A scena triste e feia,

Basta encerrar a idéa

D'uma separação...

Mas, ouve, existe Deus.

Ora e, se Deus existe,

Tão horroroso e triste

Que pódes temer? Nada!

Desfruta descançada

O extasi, o enleio

Em que eu já saboreio

O jubilo dos céos!

Deixa-me n'esse olhar

Vêr como a lua assoma...

Sim, deixa no aroma,

Que a tua bocca exhala,

Vêr como a rosa falla

Quando a aurora a inspira...

Vêr como a flôr suspira

Por vêr o sol raiar!

A morte para amor

É exito sublime.

A morte para o crime,

É que é amarga e feia.

A morte não receia

O verdadeiro amante;

Por ella a cada instante

Implora elle o Senhor.

É juntos, tu verás,

Que nós expiraremos!

Sim, juntos, que os extremos

Olhares cambiando,

Iremos despegando,

Do involucro terreno,

O espirito sereno

Como a eterna paz!

Vê, só porque suppuz

Chegado esse momento,

Já esse olhar mais lento...

As vistas mais serenas...

Bruxuleando apenas,

Em languido desejo,

Symphatico lampejo

D'uma ineffavel luz!

Ha, n'este triste valle

De lagrimas, a imagem

De dois n'essa passagem

Para a eternidade...

A nevoa, a anciedade,

O jubilo que mata,

Dão uma idéa exacta

Do transito fatal.

Mas essa imagem, flôr!

É tão fiel, tão viva

Que á sua luz activa

Se cresta a flôr mimosa!

E nem o homem goza:

Se goza é um momento!

Depois... o desalento!

Depois... o desamor!

 

Portimão.