Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 78 de 79

Páginas do PDF

Flores do Campo

Coro

—Ah rainha das mulheres!

Se sabes para que banda

Elle iria o teu amigo,

Anda d'ahi, vamos, anda:

Nós imos todas comtigo

Á busca d'elle se queres.

 

A SULAMENSE

—Elle parece-me a mim

Que ha-de andar no seu jardim,

A apanhar açucenas,

Que é do que elle gosta apenas.

 

SALOMÃO

—Oh que formosa, meu bem!

Não ha cidade afamada,

Nem Thirsa ou Jerusalem,

Mais bella que a minha amada.

Mettes mais respeito andando,

Que um exercito avançando.

Os olhos faiscam fogo.

Tira de mim essa vista,

Que ao depois fugi eu logo

Porque não ha quem resista.

O cabello, em quantidade

E tamanho, é singular!

E não me lembra senão

Das cabras de Galaad,

Que o arrastam pelo chão,

Em ellas indo a andar.

Os dentes, em tu abrindo

A tua bocca, que lindo!

Nem um rebanho d'ovelhas,

Todas brancas e parelhas,

Ao vir sahindo do banho

D'uma em uma, e cada uma

Seus dois gemeos d'um tamanho,

Sem ser maninha nenhuma.

As faces não ha de certo

Assim casca de romã

De cor tão linda e tão sã.

E fóra o que anda encoberto.

És tão formosa, vê lá,

Que as rainhas são sessenta,

As concubinas oitenta,

Donzellas, quem é que as dá

Todas contadas? ninguem.

Pois e de quantas possuo,

A minha pomba, o meu bem,

A minha mimosa, és tu.

E o mesmo dizia já

Lá em casa tua mãi,

Com tantas filhas que tem.

Quando chegaste, as donzellas,

Concubinas e em summaAs rainhas, todas ellas

Sem excepção de nenhuma,

Gritaram todas á uma:

Viva a rainha das bellas!