Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 35 de 79

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Flores do Campo

Luz da Fé

Fallam

Ainda os olhos melhor!

 

Batalha.

 

LUZ DA FÉ

 

Tu, sol! já não me alegras

Como alegravas, não:

Vós, sim, ó nuvens negras,

Relampago e trovão!

Quando o trovão me aterra,

Recordo-me de Deus;

Abalo cá da terra

E vou por esses céos:

E lá n'essas alturas,

Por onde só a fé,

Em regiões tão puras,

Nos deixa tomar pé;

Voar, pairar nos ares

Como uma aguia cá,

De lá só vejo os mares,

E é porque a luz lhes dá.

O mais como se apanha

E empolga com a mão,

Seja a maior montanha,

Seja a maior nação;

O mais fica no fundo

D'esse infinito mar;

O mais pertence ao mundo,

É escusado olhar.

Deus deixa ás creaturas

Cá baixo a sua cruz,

E fecha as almas puras

N'um circulo de luz.

As chagas, as miserias

Cá d'este lamaçal,

Nas regiões ethereas,

Lá não se avista tal.

É só a luz, que foge,

Mais uma irmã que tem

—A alma, que até hoje

Não a prendeu ninguem;

São essas duas luzes

(Qual d'ellas tão subtil

Que ás forcas e ás cruzes

Do despota mais vil,

Se escapam de tal modo

Que é de o fazer raivar)

Cá d'este mundo todo

O que se vê brilhar!

Porque uma e outra aspira

Continuamente ao céo,

A alma que suspira,

E a luz que Deus nos deu.

Porque uma e outra é pura,

Perpetua e immortal;

E a sua formosura,

Não ha nenhuma igual.

Quem é, ó luz formosa,

Ó minha bella irmã!

Quem é que faz a rosa

Abrir pela manhã?...

Eu amo-te e (as trevas

Não teem esplendor!)

Tu só é que me levas

O tempo e o amor.

Mas eu estimo o raio

E gósto do trovão,

Por vêr que quando cáio

É que me elevo então.

Por vêr que em tendo medo

Mais se me aviva a fé;

E a fé, não ha rochedo

Firme como ella é.

Por cima da desgraça

Ou seja do que fôr,

Ella, não olha, passa

De fito no Senhor!

A essa luz divina,

Ó luz! é que tu és

Tão pura e crystallina

Como o Senhor te fez.

Por isso a noite escura,

Ah! se eu a preferi

Á tua luz tão pura,

É por amor de ti!