Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 40 de 79

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Flores do Campo

Fragmento

Coimbra.

 

FRAGMENTO

 

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Deixal-o: os olhos fecho á luz e quero...

Quero-te, oh sonho, se és doirado e lindo:

Mais que a teus fachos, pedagogo austero!

Que me condemnas em chorando e rindo.

Sempre olhos fundos, sempre esse ar severo... Razão! não te amo; mas a ti, bemvindo,

Tu que os conselhos nunca, amor! lhe tomas; Dás luz á lua, dás á rosa aromas.

Oh! ha tres vistas com que as coisas vemos;

Ha tres razões que as coisas determinam;

Uma a dos olhos; outra a que escondemos

N'isso ante que os alemos se inclinam;

Outra a que dentro no coração temos,

Que os limites do espaço só terminam:

Coube a primeira em sorte á borboleta;

A outra ao homem; a terceira ao poeta.

Mas será só poeta quem faz versos?

Não é a flôr poeta que o sol canta?

Não cabe aos ais tão intimos, dispersos

Do cantor triste nome e gloria tanta?

Esses aereos tão mimosos berços,

Que, excepto o homem, o furor quebranta

A quanto é fero e sanguinario, acaso

Cada um d'elles não é um parnaso?

Mais poesia em pobre margarida,

Que aos pés se pisa, enthesoirada vejo,

Que em muita madreperola polida

Que as cinzas guarda de finado harpejo.

Dize-me, pomba! que no ar sustida

Vens como a nuvem coroar d'um beijo

Quem teus desvelos maternaes comparte:

Camões excede-te em engenho e arte?

Vaidade humana! Do que é simples, claro,

Fazem mysterio; dão-lhe um nome e basta:

Como esse eunucho sacerdocio avaro

Que da verdade as multidões afasta...

Mas a verdade não é pedra d'ara

Nem arca-santa que só certa casta

Tem privilegio de levar ao hombro

Ou vêr de perto, sem morrer d'assombro.

Padre, ministro do Crucificado

É bom ferreiro afeiçoando o ferro

Com que ha-de prestes ir rompendo o arado

Os campos d'este secular desterro.

Melhor explicam um lugar sagrado

Bigorna e malho, que explica o berro

De bonzo inutil; que asperos abrolhos

Não viram nunca seus inchados olhos.

Apostolo é o pai que se afadiga

Só para que descance o filho amado;

Apostolo é a rocha em que se abriga

Ave agoureira e pobre desgraçado;

Apostolo é a lagrima que amiga

Cahe pela face em peito amargurado;

E esse monstro do céo que solitario

Correu o mundo á busca do Calvario.

E assim vós outros, falsos sacerdotes!

Que a mesma crença sustentar devêreis,

Poetas vos chamaes se em ôcos motes

Sabeis vasar combinações estereis?

Monges! tendes o habito; se os dotes,

Os doze dons do Espirito tivereis,

Crêreis que é mais poeta o dôce favo

Que a abelha fabríca em mato bravo.

Fechei a minha bocca largo espaço

Para vêr e pasmar; eu não podia

Tirar os olhos do tributo escaço

Que paga o albergue quando acaba o dia.

Pelo filhinho em maternal regaço

Como ave em ninho a balançar, medía,

Não essa Iliada a compasso austero,

Mas a de Christo, a do celeste Homero.

Lia esse livro que anda encadernado

Em pelle humana e embrulhado em pranto,

Mas para bençãos, para amor dictado

E quanto ha puro, quanto ha bello e santo:

Livro que o impio soletrou tocado,

Se o impio os olhos pôde erguer a tanto;

Mas que a moirama só conserva vivo

Porque não morre o immortal captivo.

Não morre: eterno como a fonte d'onde

Dimana a luz, a vida, amor e tudo,

Que amostra a terra, amostra o mar, e esconde O céo, o espaço, o infinito mudo...

O mundo mudo! para quem? responde,

Valente martyr! que o pesado escudo,

Com que a verdade os olhos encobria,

Morreste mas quebraste á luz do dia.

«Existe um pai commum, que a todos ama

E d'elles só juiz a si reserva

Punil-os de seu mal; o sol derrama

Por cedro erguido e enterrada herva;

Desarma o laço que a perfidia trama,

Ou n'elle a prende e faz cahir; enerva

Braço que se ergue contra irmão; fecunda

Semente que não cahe de mão immunda.

«Diante d'elle as obras apparecem

Taes como as gera o intimo do peito:

Basta o amor do bem, se as mãos fallecem;

Sem esse amor é nada o grande feito.

Embora os homens de soltar se esquecem

Quem chora escravo; porque, em seu conceito

Deixe chorar quem purpuras arrasta,

Cante que é livre na , e basta.»

Ella o resto fará; porque a seu braço

Reis não resistem, não resistem povos:

Um raio a nuvem parte e deixa o espaço

Coalhado d'astros que parecem novos:

Põe ao sol, que o fecunde, o simples traço,

Como a grande avestruz os grandes ovos;

E quem depois no mundo a luz lhe apaga?

Ninguem apaga a luz que o mundo alaga.

Sacerdocio embusteiro as mãos lhe prega

Em tronco immovel que seus labios gele;

Á justiça profana o justo entrega

(Sua irmã gemea que a verdade expelle:)

Já das almas senhor o rosto alegra,

Já morto o canta, sepultado e elle

Só o consome o incendio que já lavra

De bocca em bocca, o incendio da .

Nenhum de nós o viu andar prégando,

Nenhum seu olhar vago lhe notámos,

Nunca o vimos no ermo a Deus orando,

Nunca a mão estendida lhe apertámos;

E por todos seu nome vai passando,

Todos, os seus preceitos, decorámos...

E que vá vêr-lhe a campa ao Oriente

Quem os olhos da carne tem sómente.

Que é um tumulo acaso, esse tributo

Pago pela materia á vil materia?

Quem vai na campa alliviar o luto

Se a vista alonga á amplidão aerea?

Quem a copia de Deus rebaixa a bruto,

E a mais que bruto a immortal, etherea,

Celeste pomba, que em seu vôo a vida

Em factos deixa ás almas esculpida?

Não me embala inda Homero nos seus braços E me pinta nas mãos a natureza?

Não lhe ouço eu inda a voz...como ouço a espaços

A voz da grande Fama portugueza...

Quando me apraz olhar para os pedaços

D'este grande gigante que a fraqueza

Expoz aos coices...leão moribundo...

O rei antigamente d'este mundo?

Eu não sou dos que a patria sua adoram

Como adora o seu deus o fiel crente.

Vejo que todos n'uma patria moram

E sobre todos vejo um céo sómente:

Mas ame cada qual; que se outros choram

Nas mãos dos tigres que só comem gente,

Tambem meus olhos choram seu tormento

D'onde quer que seus ais me traga o vento.

Deixai ir em seu transito divino

Desde a Cruz do Calvario na Judêa,

Té á ponta da espada d'aço fino

Desembainhada em Italia, o tempo, a idêa.

Deixai andar a vêr o peregrino

Onde a ventura abunda, onde escassêa

Para vos dar, no oiro (Fé e Esperança!)

Rei e pastor nas conchas da balança.

Ha-de vir esse dia; e se a figueira

Em abrolhando perto vem o estio,

Não longe está: a cobra carniceira

De mil roscas e lugubre assobio

Que terra come, e come a terra inteira,

Se á terra inteira se enrolar, despiu

A pelle enorme com bastantes dôres

Esfolada por tres imperadores...

Eu não sei qual mais chore; se essa sêde

De sangue insaciavel dos tyrannos,

Ou se é a escuridão vossa que eu hei-de

Antes chorar, oh miseros humanos!

Que solimão vos deram, loucos! vêde:

Não vale a gloria que vos faz ufanos

Um só pingo de sangue, um só, vertido,

Um gemido de mãi, um só gemido!

É do sangue e das mães que eu fallo; e certo, Que ha na vida mais santo? O sangue é vida; E as mães fonte da vida: eu nunca esperto

Esta lampada d'alma, suspendida

Na abobada eterna e que tão perto

Parece ter a origem............

................senão quando

Vejo essa cara imagem suspirando.

Eu amo as mães, seu nome é terno e dôce;

Sim, amo as mães: nossa alma d'ellas nasce: Quem n'um collo de mãi cahiu, achou-se

D'um pulo ao pé de Deus: a alma pasce

Lirios celestes vendo-as; e seccou-se,

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Do casto e candido a sagrada fonte,

Se ella no tumulo encostou a fronte.

Essa é a virgem-mãi, voz suavissima

D'esse cantico eterno—o Evangelho;

A V ... M ... de D ! virgem purissima, Cheia de graça e de justiça espelho.

Oh poesia, poesia altissima

Como o fecho do empyreo! eu me ajoelho

E beijo a tua base, harpa celeste!

O coração, a corda que nos déste.

Em que labios se bebem mais delicias,

Em que face de virgem se desatam

Rosas mais puras d'intimas primicias,

Que nas que por dar vida a nós se matam?

Sempre a bem nosso, a nosso amor propicias Na menina dos olhos nos retratam;

E nunca premio vil em paga pedem

De quanto, tanto d'alma, nos concedem.

Na montanha da Fé, mulher formosa

Se ante mim a meus pés desenrolasse,

Como o demonio, a vastidão pasmosa

Que elle dava a Jesus se o adorasse;

E me pedisse em premio uma só coisa

—Ás mãos de minha mãi furtar a face;

Eu lançava-lhe o cuspo, essa tesoira

Que em mil bocados faz a vacca-loira.

Vêde-a ao berço, sofrega de vida,

Que a sua é pouca para a dar ao filho;

Ella em cama de espinhos, mal vestida;

Elle enfaxado, em berço de tomilho;

Ella em contínua, azafamada lida,

Elle vendo se apanha á luz o brilho...

Já descobrindo em tão tenrinha idade

Que toda a sua sêde é de verdade.

E esses lobos que em duas patas andam

Para ter sempre em guarda as outras duas;

Que a monte sahem só, e só debandam

Como os ladrões, á noite, pelas ruas;

A empecer que os animos se expandam,

Que a luz se espalhe, e que as imagens tuas, Bom Deus! de imagens passem: e que admira... Sem o sopro que ao barro a vida inspira!

Já se iam vendo os campos relvejando

Cá da banda do sol n'este horisonte

Por onde já n'um mar se andou nadando

E onde apenas se encontra secca fonte;

E eil-os já os hypocritas minando,

Cortando ao povo hebreu na marcha a ponte

Só para que o manná que o céo lhe chove

No deserto dos reis jámais nem prove.

Retalhou-lhes o labio omnipotente

O habito comprido, a manga larga,

Olhar submisso mas lugar na frente;

E nem despido o monstro a presa larga.

«São sepulchros caiados, vêde, oh gente!

Por dentro podridão:» em voz amarga,

Em voz de grande horror, de grande abalo,

Christo clamou d'aquelles de quem fallo.

«Dizimam-te o coentro e a arruda,

Mas sua consciencia é generosa.

Chamam-se mestres... de sciencia muda,

A sciencia da cobra venenosa:

Olhai, não espia a fera, espreita, estuda

Toda a volta do dia, mais manhosa,

Que essa raça de viboras, que espalha

Veneno em todo o mundo, que coalha.»

Irmãs da Caridade! A Caridade

Tem só duas irmãs—a Fé e a Esperança:

Não traja as côres só d'uma irmandade,

Traja as côres do Arco-da-alliança:

Leva sósinha o pão da piedade,

Tira da roda essa infeliz criança...

Roda da vida, que anda de tal sorte

Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.

Bemdita sejas tu, victima triste

De um peito amante e d'um amante ingrato!

Que nunca á mesma loba lançar viste

Inda mamando o cachorrinho ao mato;

Bemdita sejas tu, que o que pariste,

Teu fructo, imagem tua e teu retrato

Conservas como espelho onde te vejas;

Bemdita sejas tu, bemdita sejas.

Pára suspensa a pomba no seu vôo

Ao vêr-te contemplando-o ajoelhada;

E dizendo-te, a pomba: eu te abençôo

Da parte do pai nosso, irmã amada!

Abriste o seio ao dia e fecundou-o

Aquella luz que o mundo fez de nada,

E deu ao campo a flôr, á flôr semente

Com que a mãi os filhinhos seus sustente.

Bemdita sejas tu. Quando se esconde

Debaixo da tua aza o que criaste,

Abraça e beija os anjos Deus lá onde

A jarra está da flôr de que és a haste;

E um dia que não tenhas pão avonde

Ou do céo te não chova agua que baste,

Lança-lhe á luz do dia a mão direita,

Mostra-lh'o; Deus os filhos não engeita.

Pai não tinha o filhinho de Maria

E ella o bercinho lhe arma de mil flôres,

Deixando entrar em casa a luz do dia

Que em perfume as derreta em seus amores; E inda abrindo os olhinhos mal lhe via,

Já os pinceis preparam os pintores;

Que o pai d'esse menino... Oh maravilha!

Os que não teem pai Deus os perfilha.

Deixa passar de largo a desposada...

De cujo filho o pai quem é, Deus sabe!

Deixa-a roçar-te os fatos enfadada

Se comtigo na praça a par não cabe:

Talvez um dia a casa levantada

Sobre a areia solta ao chão desabe

E em ruinas se encontre este letreiro:

«Não era o pai dos teus mais verdadeiro.»

Quem é que nasce aos pares como a rola,

Ou como a pomba morre em viuvando,

Que pela vêr sósinha em lodo atola

Fresca vide que está do chão lançando?

Acaso é só dourada altiva estola

Que liga os corpos em as mãos ligando,

Confunde os corações, e faz em summa

Que a Deus se elevem duas almas n'uma?

A é a palavra, o brado eterno Solto por Deus ao vêr já feito o mundo,

Que fez tremer os carceres do inferno

E o sol ficou da côr d'um moribundo:

A primavera, estio, outono, inverno,

Terra, céo, alma pura, bicho immundo,

Tudo ahi cabe á larga de tal modo

Que n'essa concha Deus se fecha todo.

Amor enrola a nuvem na montanha

E espalma a onda em praia que não sente,

Ata ao raio de sol o fio d'aranha

E humilha ao conductor o raio ardente.

Quanto na rede immensa a vista apanha.

Tudo que jaz e cresce e vive e sente,

De Deus brotou n'um jorro de bondade

E póde amar-se em espirito e verdade.

Amo á aurora a luz doirada e clara,

E ao crepusculo as nuvens da tristeza,

A solida montanha, a nuvem rara

Por invisivel fio aos astros presa;

Amo a ancia feroz, a sêde avara

Com que a loba parida engole a presa,

E os crystallinos ais d'ave innocente

Que comprimenta o sol ingenuamente!

Amo o sopro que parte, esmaga, estala

Esses corvos que aos bandos vem das ondas N'essas noites que o impio até se cala

Receando, trovão! que lhe respondas...

E amo o bafo subtil que a flôr embala

Pedindo-te, botão, que dentro o escondas,

E as primicias lhe dês que leve áquelle

Que te fez a ti flôr e vento a elle.

Tu só, que horror! a ti oh não te amo!

Cheiras-me a sangue tu; teus olhos baços

Olham, não vêem; tu tens bocca, chamo,

Não me respondes; tens como eu dois braços, E não me abraças; brado afflicto, clamo,

Tens duas pernas, e não dás dois passos:

Ris, mas teu riso é d'enrilhados dentes;

Mettes-me medo; tu, cadaver! .

Ninguem (prohibe-o Deus) o braço córte

Que lhe roubou o espirito divino;

Deus a Cain apaga sul e norte

E condemna a viver o assassino:

Mas tu, mentira! symbolo da morte...

Hypocrisia! teu sorrir felino

Te deixe arreganhada a bocca aberta,

Gele-te a morte a mão que a minha aperta.

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Evora.

 

Se ao enlaçal-a no peito

Me cahe desfeita uma flôr,

Lembras-me, sonho desfeito!

Sonho d'amor!

Se a borboleta do calix

D'um lirio aos ares se ergueu,

Lembras-me, estrella dos valles!

Lirio do céo!

Se inda um affecto em mim vive

Entre os que mortos possuo,

Lembras-me, sonho que eu tive!

Lembras-me tu!

 

Coimbra.

 

Nunca me ha-de esquecer (ingrata! escuta)

Não tendo eu mais talvez que os meus dez annos Esses olhos crueis, esses tyrannos

Commigo em porfiada aberta lucta.

Se eu fôra voraz lobo ou fera bruta

D'entranhas más, instinctos deshumanos,