Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 57 de 79

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Flores do Campo

Escreve!

Não alvejando, nunca, vela alguma

E, sempre, a suspirar.

Até que á luz d'uma intuição sublime

D'alma arrancavas o gemido extremo

De saudade, desespero e dôr!...

Pois é assim que eu soffro, assim que eu gemo! Que nuvem negra o coração me opprime;

Nuvem de mágoa, nuvem de ciume,

Em te não vendo á hora do costume,

Meu anjo e meu amor!

 

Lisboa.

 

ESCREVE!

 

Não sei o que suppôr

Do teu silencio. Escreve!

Quem é amado deve

Ser grato ao menos, flôr!

Se eu fosse tão feliz

Que te fallasse um dia

De viva voz, diria

Mais do que a carta diz.

Mas, olha, tal qual é

Não rias d'esse escripto

Que, pouco ou muito, é dito

Tudo de boa fé.

Ha n'esse teu olhar

A dôce luz da lua,

Mas luz que se insinua

A ponto de abrazar...

Pareça n'elle sim

Que ha só doçura, embora:

Ha fogo que devora...

Que me devora a mim!

Que mata, mas que dá

Uma suave morte;

Mata da mesma sorte

Que uma arvore que ha:

Que ao pé se lhe ficou

Acaso alguem dormindo

Adormeceu sorrindo...

Porém não acordou.

Esse teu seio então,

Que encantadora curva!

Como de o vêr se turva

A vista e a razão!

Como até mesmo o ar

Suspende a gente logo...

Pregando olhos de fogo

Em tão formoso par!

Oh seio encantador,

Delicioso seio!

Que jubilo, que enleio

Libar-lhe o nectar, flôr!

Eu tenho muita vez

Já visto a borboleta

Na casta violeta

Poisar os leves pés:

E n'um enlevo tal,

N'uma avidez tamanha,

Que a gente a não apanha

Com dó de fazer mal!

Pegada á flôr então

No pé curvinho e molle,

As azas nem as bole

Toda sofreguidão!

Poisou... adormeceu!

Só vê, só ouve e sente

O calix rescendente

D'aquelle mel do céo!

Pois vê com que prazer

E com que ardente sêde

Te havia... (que não hei-de!...)

Tambem beijar, sorver!

Mas eu só peço dó,

Só peço piedade!

Mata-me a saudade

Com duas linhas só!

Eu, a não ser em ti

Achar allivios, onde?

Escreve-me! responde

Á carta que escrevi!

Cançado de esperar

Ás vezes quando sáio,

Pensas que me distraio?

Pois volto com pezar!

Concentra-se-me em ti

A alma de tal modo

Que esse bulicio todo

Nem o ouvi, nem vi!

Ninguem te substitue,

Porque só tu és bella!

Que estrella a minha estrella,

E que infeliz que eu fui!

Mas devo-te suppôr

Sempre indulgente e boa,

Escreve-me e perdôa

Meu violento amor!

Respeita uma affeição

Inutil mas sincera.

Tu és mulher, pondera

O que é uma paixão.

Com sangue era eu capaz

De te escrever; portanto,

Tinta não custa tanto!

E não me escreverás?

Uma palavra, sim,

Que me não amas... Queres?

Em quanto me escreveres,

Tu pensarás em mim!

Só essa idéa, crê,

Encerra mais doçura

Que as provas de ternura

Que outra qualquer me dê!