Flores do Campo
No Leito Nupcial
Com uma d'essas azas, estendida,
Me tapavas tu todo,
E d'esse modo,
Com esse escudo,
Eu ria-me de tudo
E levava esta vida alegremente.
Tenho essa fé.
Vejo tambem a flôr que nasce ao pé
D'agua corrente,
Ir tão suavemente
Levada pela agua!
Talvez até sem magua
De deixar sua mãi.
D'esse modo tambem,
Amparando-me tu a mim nos braços,
Eu seguia-te os passos,
Fosse por onde fosse;
E d'essa sorte
Até a morte
Me seria dôce.
Messines.
NO LEITO NUPCIAL
Dorme, estatua de neve,
Vergontea de marfim!
Tocar que impio se atreve
No que é sagrado assim?
Dois são: o mais, mysterio
Vedado á terra. Deus
Talvez do solio ethereo
Nem baixe os olhos seus.
Respeita-os, tapa-os, como
Japhet e Sem, o pai...
Pende, sagrado pomo!
A vista ergue-se e cai.
Ergue-se e cai, conforme
A lei, que o manda assim.
Ergue-se e... Dorme, dorme,
Vergontea de marfim!
Mas dize: o espelho a imagem
Te estampa mal te vê;
Beija-te o seio a aragem,
Doira-te o sol; porquê?
Não segue acaso a sombra
Teu corpo sempre, flôr!
E pois, porque te assombra
Meu insensato amor?
Ás vezes passas tremula
Como sagrada luz;
E os olhos dizem: vemol-a
Como no alto a cruz.
Perdoa se isto exprime
Maldade aos olhos teus;
Perdoa-me se é crime...
Amo tambem a Deus.