Flores do Campo

João de Deus · Capítulo 29 de 79

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Flores do Campo

No Leito Nupcial

Com uma d'essas azas, estendida,

Me tapavas tu todo,

E d'esse modo,

Com esse escudo,

Eu ria-me de tudo

E levava esta vida alegremente.

Tenho essa fé.

Vejo tambem a flôr que nasce ao pé

D'agua corrente,

Ir tão suavemente

Levada pela agua!

Talvez até sem magua

De deixar sua mãi.

D'esse modo tambem,

Amparando-me tu a mim nos braços,

Eu seguia-te os passos,

Fosse por onde fosse;

E d'essa sorte

Até a morte

Me seria dôce.

 

Messines.

 

NO LEITO NUPCIAL

 

Dorme, estatua de neve,

Vergontea de marfim!

Tocar que impio se atreve

No que é sagrado assim?

Dois são: o mais, mysterio

Vedado á terra. Deus

Talvez do solio ethereo

Nem baixe os olhos seus.

Respeita-os, tapa-os, como

Japhet e Sem, o pai...

Pende, sagrado pomo!

A vista ergue-se e cai.

Ergue-se e cai, conforme

A lei, que o manda assim.

Ergue-se e... Dorme, dorme,

Vergontea de marfim!

Mas dize: o espelho a imagem

Te estampa mal te vê;

Beija-te o seio a aragem,

Doira-te o sol; porquê?

Não segue acaso a sombra

Teu corpo sempre, flôr!

E pois, porque te assombra

Meu insensato amor?

Ás vezes passas tremula

Como sagrada luz;

E os olhos dizem: vemol-a

Como no alto a cruz.

Perdoa se isto exprime

Maldade aos olhos teus;

Perdoa-me se é crime...

Amo tambem a Deus.