O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 1 de 46

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O Alfageme de Santarém

Prólogo da Primeira Edição

PRÓLOGO DA PRIMEIRA

EDIÇÃO

Quis-se pintar este quadro a face da sociedade em um dos grandes cataclismos por que ela tem passado em Portugal. O pintor isolou-se de todo o sentimento e simpatia – paixões políticas, não as tem – para ver e representar, como eles foram, são e hão de sempre ser os dois grandes elementos sociais, o popular e o aristocrático. Tomou para primeira luz do quadro as principais figuras da interessante anedota da espada de Nuno Álvares Pereira e da profecia do alfageme de Santarém, tão sinceramente contada naquele ingénuo estilo patriarcal da primeira Crônica do Condestabre, donde passou depois para os historiadores e poetas que a repetiram.

O fundo e acessórios do quadro têm o mesmo caráter de desenho e de cores.

Em Fernão Vaz, o alfageme, e na sua gente, Gil Serrão, Brás Fogaça, etc., estão os populares com todos os sabidos defeitos e com todas as inquestionáveis virtudes da classe. Nuno Álvares Pereira é o belo ideal da nobreza. Mendo Pais o tipo de seu abastardamento. No último está a prosa torpe das revoluções, tios outros a poesia delas.

Froilão Dias é o homem sincero do passado, e o ministro da paz e da verdade, porque é verdadeiro ministro de Deus. Risonha com os pequenos, austera com os grandes, a sua voz clama sempre fio deserto; – que não há deserto mais surdo, nem mais cego também, do que a tumultuária praça da revolta.

O amor é essencial parte do drama, porque o drama é a vida, e o amor a essencial parte da vida. Em Alda está o amor puro, e estreme de vaidade, muito menos raro na mulher que no homem, mas sempre raro. Em D. Guiomar o comum dos amores vulgares, cuja base de composição é a vaidade, e que segundo o temperamento ou o acaso deixam de preponderar mais ou menos o instinto sensual, assim se chamam depois criminosos ou virtuosos na estúpida e falsa linguagem do mundo convencional. Delineou-se este drama em meados de 1839, e efetivamente se compôs agora.

Benfica, 1.º de outubro de 1841.