O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 35 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena V

Gil Serrão, Brás Fogaça, Joana, Serafina e mais amotinados; o

Alfageme abrindo a porta de casa e saindo; atrás dele Alda, Froilão

Dias e Mendo Pais; D. Guiomar no patim da escada.

 

ALFAGEME

Quem é que há de pagar por todos? Se sou eu, aqui estou. Em que moeda quereis que vos pague?

ALDA (abraçando-se com o Alfageme) Fernando, Fernando, lembra-te de teu filho!

ALFAGEME (desembaraçando-se dela) Deixa-me, Alda: estas coisas não são para mulheres. Vai para ao pé de teu filho, deixa-me.

GUIOMAR (para Mendo)

Então vai, olha que... (Impaciente e levantando a voz) Foge, Fernando, que te matam.

(Rumor entre os amotinados, que todos se voltam para onde está Guiomar)

ALDA

Ela tem razão, foge, Fernando.

MENDO (chegando-se ao pé dele) E o mais prudente, Fernando. Essa gente está furiosa e com medo; por consequência capazes de tudo. Sai pela porta de trás da tua casa que deita para o rio. Eu terei mão neles por aqui. Nuno Álvares... a quem chamam o Condestável, lá entre a gente do Mestre – está em Abrantes.

ALDA

Em Abrantes, tão perto daqui! Vai para ele, vai que te há de acolher bem. Oh! decerto! E escaparás desta má gente... Maus! coitados, estão loucos.

FROILÃO

E espicaçados de más moscas anzoneiras, de ruins agulhas ferrugentas que aqui andam tecendo mentiras e desgraças. (Olha para Atendo; depois querendo afastar o Alfageme) Deixai-me falar com eles.

ALFAGEME (segurando-o)

Com estes aqui? Que quereis fazer? Pedir-lhes que me perdoem! A mim! Pelo Santo Milagre de Santarém que ajustarei minhas contas com eles, eu em própria pessoa e sem mais ninguém.

ALDA

Fernando!

ALFAGEME

Deixa-me, já te disse. (Adiantando-se para os amotinados) Que me quereis vós, que vos devo eu? Falai. Apelidastes-me de traidor: em que vos atraiçoei, quando, por quem? Que vos vendi... Eu, Fernão Vaz, til; o Alfageme de Santarém! Por que preço? Dizei. – Olhai para essas oficinas! Abandonadas, desertas. Essas forjas!... há dois anos apagadas! Esses armazéns!... vazios. A minha fazenda!... gasta, consumida. Em quê? Em vos sustentar com essas armas na mão. Essas armas que eu vos dei... para quê? Para defenderdes a vossa própria causa. A vossa causa que vós desertastes... que nunca defendestes; porque é ruim sina do povo que nunca a sua causa soube defender – precisa de um homem, de um nome, de um fantasma – da sombra de qualquer coisa, contanto que não seja a sua, para tomar calor por ela. Qual foi o meu crime? Pretender tirar-vos dessa cegueira! – Não queríeis a rainha para não servir a estrangeiros; tínheis razão. Mas é foiça servir alguém?

GIL SERRÃO

O Mestre de Avis é pelo povo, é-nos leal.

ALFAGEME

É leal o Mestre de Avis! E passeou pelas ruas de Lisboa com aquele pendão em que estavam pintados seus dois infelizes irmãos, o infante D. João e o infante D. Dinis, os verdadeiros, legítimos herdeiros de el-rei D. Pedro e da coroa destes remos, para depois...

BRÁS FOGAÇA

As cortes já decidiram o contrário.

ALFAGEME (com escárnio)

As cortes... as cortes... Meia dúzia de homens que lá mandou o seu bando deles!

GIL SERRÃO

Traição! traição!

TODOS

Traição, traição!

(Mendo Pais anda por entre os grupos dos amotinados, fingindo que os acomoda, e excitando-os mais)

ALFAGEME (levantando a voz) Traição é para traidores. Eu sou o Alfageme de Santarém. Digo-vos eu que o Mestre de Avis não foi leal com o povo, não foi leal com seus irmãos. Fizemo-lo Defensor do reino, ele fez-se rei a si. Protestou guardar a coroa para seu irmão, e guardou-lhe... pondo-a na cabeça. – O mais povo de Portugal que faça o que quiser: o de Santarém... não aclamou o Mestre, e enquanto eu for vivo não o há de aclamar.

BRÁS FOGAÇA

O Mestre foi aclamado nas cortes de Coimbra: é o rei de Portugal. – Viva el-rei D. João! Viva o Mestre de Avis!

MENDO (a um grupo de amotinados) Lembrai-vos que a vanguarda de el-rei de Castela está já às portas de Santarém.

GIL SERRÃO

El-rei D. João de Castela que vem aí, e todo o poder do seu reino com ele.

BRÁS FOGAÇA

Está um forte rei! Eu quero o nosso rei natural. Viva o Mestre de Avis!

GIL SERRÃO

Pois esse é que está um fresco rei! Não o quero para mim.

ALGUNS

Nem para mim.

OUTROS

Nem para mim.

GIL SERRÃO

Ninguém o quer. Tem razão o Alfageme.

TODOS

Tem razão o Alfageme.

ALFAGEME

Ah! ele é isso? – Pois agora o tomaria eu para meu se me ele quisesse, homens sem coração, maus portugueses! O Mestre de Avis enganou o povo e foi mau irmão. Enganou o povo, menos a mim, que sempre vos disse. Gritáveis-me que ele era pela nossa liberdade, que era pelo reino. É por si: dizia eu, e acertei. A coroa era do infante D. João, ou do infante D. Dinis. Não faltou quem lhe dissesse até lá em Coimbra. E o que vos eu dizia aqui: “O nosso rei natural é o infante D. João; a bandeira dó mestre é falsa”. – Mas agora que o poder todo de Castela vem sobre ele, e sobre nós... – rei ou não rei, antes seguir o pendão de Avis e morrer com ele... mil vezes!

MENDO (aproximando-se do Alfageme com hipocrisia) Mas, a falar a verdade, alguma razão dou às queixas desta gente, Fernando. Por que não aclamastes vós o Mestre de Avis direitamente, como fez Afonso Eanes, o tanoeiro de Lisboa?

ALFAGEME

Bom pago teve.

FROILÃO

O pago que sempre têm todos os sinceros defensores de qualquer causa.

ALFAGEME

Os que se metem com príncipes.

FROILÃO

Com os povos não. É ver!

MENDO

Mas enfim era uma coisa que se entendia, era um partido, um bando declarado.

TODOS

E verdade, é verdade.

GIL SERRÃO

Nem por Castela, nem pelo Mestre de Avis, nem por ninguém.

ALFAGEME

Eu era só por vós: dizeis bem que não era por ninguém.

GIL SERRÃO

Trouxe-nos sempre em suspensão; que esperássemos, que ainda não era tempo, que viria o infante D. João.

TODOS

E verdade, é verdade.

MENDO (baixo a Gil Serrão)

Foi traição.

GIL SERRÃO

Foi traição.

ALGUNS

Foi traição.

ALFAGEME

Quem falou outra vez aqui em traição? Sois vós, senhor Mendo Pais!

MENDO

Eu!

ALFAGEME

Pareceu-me... Mas não podíeis ser vós; é impossível.

ALDA

Oh Fernando, meu Fernando!

GIL SERRÃO

A verdade é que, desde que casastes, sois outro do que dantes éreis.

BRÁS FOGAÇA

Dantes andava com a gente; era um popular deveras; um bom matalote, o verdadeiro rei dos Alfagemes. Daí para cá, e mal que se casou com essa tal senhora que é tão fidalga e tão prendada... marido e mulher era o mesmo, só nos davam conselhos.

FROILÃO

E quanto tinham de seu, que ninguém mais vos sustentou, há dois anos que não trabalhais.

GIL SERRÃO

Isso é verdade, lá isso!...

ALFAGEME

Aconselhei-vos que trabalhásseis: não quisestes nunca. Já não queríeis fazer espadas, senão trazê-las à cinta... E eu...

BRÁS FOGAÇA

E vos... vos é que sois a culpa. Se tomamos este ofício e deixamos o outro, quem nos ensinou senão vós?

ALFAGEME (convencido)

Tendes razão, meus amigos; aí, tendes razão. – Soltei da mão a pedra e quando a quis parar, não pude. Foi pior, foi pior querê-la parar. E verdade, é verdade. (Humilhando-se diante dos amotinados) Perdoai-me, meus amigos.

FROILÃO

Boa razão, Alfageme; és um homem de bem e de verdade. – Ora pois, tende paciência, que não sois o primeiro, nem sereis o último a quem tal sucede. Com a melhor fé e a melhor vontade se começam quase sempre, quanto pelo povo, estas alterações: rara vez os que sopram a labareda desejam que se ateie o incêndio destruidor que depois vem. – Pois bem, meus amigos todos, não falemos mais nisso: o que lá vai, lá vai. Ide para vossas casas, para vossas famílias, e assossegai. – Dizeis que está entrando na vossa vila el-rei.

ALFAGEME (acudindo)

De Castela.

FROILÃO

De Castela, sim. – E que o outro... o outro está em...

MENDO

Em Abrantes. Cedo teremos uma batalha decisiva.

FROILÃO

Pois bem. Deus é grande, e dará a vitória a quem for de razão. – Vós não tendes feito mal a ninguém... graças ao Alfageme; não haveis que recear de um ou de outro. Sossegai e aguardaremos que Deus decida entre ambos.

MENDO

A decisão é fácil de antever: el-rei D. João ... (para o Alfageme) de Castela, como vós dizeis... traz vinte e tantos mil homens de peleja, a mais luzida gente de toda a Castela e Leão, afora tantos senhores portugueses que com ele andam... (para Alda) entre os quais o prior de Rodes, D. Pedro Alvares Pereira, irmão de Nuno Álvares, meu 105

senhor. (Inclinando-se com reverência irónica) São dois irmãos um tanto diferentes!

ALDA

São. Mas ambos honrados, ambos seguiram um partido só. (Arrastando estas últimas palavras)

MENDO (à parte)

Cuida que me faz mossa! (Alto) Toda esta gente vem com el-rei... de Castela. Sem falar nesses engenhos de fogo, nessas novas máquinas de guerra que pela primeira vez agora nos vêm a Portugal aterrar com seu espantoso bramido.

GIL SERRÃO

O que será aquilo? Alguma diabólica invenção dos cismáticos.

MENDO

Católicos ou cismáticos, é uma coisa terrível a tal invenção dos trons de fogo, que estoiram como bramido de trovoada e ferem como raio.

 

Á

BRÁS FOGAÇA

Senhor Deus, misericórdia!

MENDO

E D. João, o mestre de Avis, o que tem? Seis mil e quinhentos homens, gente bisonha, feita de ontem, sem armas – gente de chuço e varapau a mor parte deles.

BRÁS FOGAÇA

Vamos esperar el-rei de Castela.

ALGUNS

Vamos.

FROILÃO

E a espada do Condestável, não a contais também? Quantos mil homens vale essa, gente sem fé?

GIL SERRÃO

Eu vou para Abrantes, que lá está o Condestável.

FROILÃO

Ide para vossas casas; tomai o meu conselho, filhos; deixai-vos de mais alterações e desordens. Não estais ainda ensinados – não aprendestes já bem à vossa custa? – Pobres, estragados de saúde e de fazenda!

MENDO

El-rei D. João está entrando: deixai-vos de mais conselhos. Não faltará quem vos denuncie por seus inimigos se lhe não ides ao encontro. Ide se quereis escapar.

BRÁS FOGAÇA (friamente)

Pois viva el-rei D. João de Castela!

MENDO

E de Portugal.

ALGUNS (friamente)

Viva!

(Brás Fogaça e mais alguns trabalhadores saem, dando vivas frouxamente. – Gil Serrão e os outros olham para o Alfageme, que está com os braços cruzados encostado à sua porta e como quem não vê nem ouve o que se passa, com os olhos fitos em Alda, que também imóvel o contempla. O Alfageme não repara neles que, fazendo sinais uns aos outros, por fim se retiram e seguem os primeiros)