O Alfageme de Santarém
Cena Vi
Froilão Dias, Mendo Pais (que se vem chegando).
FROILÃO (sem ver Mendo)
Minha filha, minha rica filha, que há de ser de ti! – ou a vida ou a razão estão por pouco; bem o sinto. Mas antes seja aqui que se acabe (pondo a mão no coração) do que aqui, meu Deus! (Batendo na testa) – Oh! seja... seja feita a vossa vontade sobre tudo. (Silêncio longo: Froilão está todo absorto em seus tristes pensamentos)
MENDO (chegando-se a ele como quem o quer consolar) Não vos aflijais assim, meu velho Froilão: não há de ser nada. Alda está melhor: agora me disse minha irmã que já estava boa, que não é nada.
FROILÃO (sem olhar para ele) Não é nada?
MENDO
Não, não é para vos afligirdes assim.
FROILÃO
Não é para me afligir! (Levantando-se e olhando para ele) – Senhor Mendo Pais, vós sois moço, cheio de vida e de esperança: não sabeis o que isto é; não sabeis o que é ser velho, sentir-se com um pé já frio dentro da cova, e as mãos ainda apegadas a este mundo – e o coração a vaziar-se de esperanças e a encher-se de saudades... Deixai-me, deixai-me ir abraçar a minha filha, que preciso... preciso.
MENDO
Se é Alda que vos dá cuidado, padre...
FROILÃO
Pois que há de ser, homem! Que outro apego tenho eu a este mundo? Tão belo é ele?
MENDO
Estou pasmado de vos ouvir. Vós tão alegre de vosso natural, que sempre nos pregais que a tristeza e a desconfiança em Deus é pecado, – que, seja qual for a nossa sorte, devemos estar contentes com ela e viver satisfeitos!... Vós, Froilão!
FROILÃO
Eu, Froilão, eu, aquele velho alegre e descuidado que, zombando com eles, venci os trabalhos da existência, que, a rir e a folgar, passei, cantando, as ruas da amargura desta vida, e cheguei ao calvário da velhice, tremendo com os anos, mas sem penas nem remorsos... eu, neste derradeiro termo da decrepitude, onde cuidei adormecer sem sobressalto, expirar sem agonia, mais abraçado com a minha cruz do que pregado nela... oh! a minha esperança era uma esperança ímpia e descrida. Castigou-me Deus: tenho na boca a esponja do fel e do vinagre; – nem o justo passou sem ela, como passaria o pecador! – Oh meu Deus, meu Deus, pata que vivi eu até esta hora!
MENDO
Sossegai. Pois é Alda que vos dá cuidado, aqui está com minha irmã, comigo...
FROILÃO (andando e sem olhar para ele) Sim, sim.
MENDO
Que lhe queremos como parentes.
FROILÃO (do mesmo modo)
Sim, sim.
MENDO
Nunca lhe faltará abrigo nem proteção; e do que tivermos, repartiremos com ela sempre.
FROILÃO (parando e voltando-se para ele) Sim, sim. Deus vos pague, Mendo. – Deus vos pague. – Mas lá disse o Evangelho que nem só de pão vive o homem. E o maior desabrigo e desconforto de uma alma é não ter outra alma a que se encoste. E a minha Alda, a minha Alda quando eu não estiver cá para a amar, quem há de amá-la como ela merece, como aquele coração precisa, se não for um esposo... um esposo que saiba o que ela vale?
MENDO
Também... se quereis que vos diga, meu amigo, não sei que amizade era aquela do prior do Crato, do vosso D. Álvaro Gonçalves, que nem um triste dote soube deixar à sua rica afilhada por quem tanto morria.
FROILÃO (com veemência)
Não lhe deixou dote! Quê? As prendas, a criação que lhe deu, aquela inocência, aquele juízo, aquela virtude... Bem digo eu que me não entendeis, Mendo. Inda bem que ela não tem outro dote.
MENDO
Por quê?
FROILÃO
Por que não faltariam cobiçosos, e... quem sabe? Talvez vos caísse nas mãos. (Sobe pela escada acima depressa e entra)