O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 6 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Iv

Guiomar, do meio da escada; Alfageme de baixo.

GUIOMAR

Fernando?

ALFAGEME

Senhora D. Guiomar?

GUIOMAR

Sempre me haveis de falar assim?

ALFAGEME

Trato-vos como quem sois, com o respeito que vos devo.

GUIOMAR

Já me não deveis senão respeito?

ALFAGEME

Tudo quanto sou vos devo e a vosso pai, senhora, e à vossa família, disso me não esqueço um instante.

GUIOMAR

Dantes, Fernando, eram outras dívidas as que vos pesavam mais no coração.

ALFAGEME

Dantes era outro tempo, senhora. – Aquele Fernão Vaz que se atrevia a levantar os olhos para... para onde não devia, aquele pobre escudeiro que tão mal cabido andava entre senhores tão altos e damas tão esquivas, morreu: – nem memória desse louco deve ficar. – Vós, que tanta vez vos esquecíeis dele em vida... para que vos lembra agora que está defunto? – Desse não sei nem eu já: agora só conheço o alfageme.

GUIOMAR

Se tão esquecido quereis estar do que fostes e da criação que tivestes – e tanta gala fazeis do trato grosseiro em que só vos dais por feliz, como vos deixais tomar assim do amor de uma donzela que, se não é nobre, como tal foi criada e viveu sempre – rica só em prendas e donaires de senhora, feita para dama, e como tal havida e tratada sempre em uma das mais nobres e mais poderosas famílias do reino, que ainda hoje a protege e tem por sua? – Alda e...

ALFAGEME

Alda e tudo o que dizeis, e muito mais ainda: e um anjo, um anjo de inocência, de singeleza e bondade... Foi criada, como dizeis, no meio dessas tentações da grandeza – e da vaidade; mas não a desvairaram. Alda é do povo como eu; o meu amor não pode envergonhá-la. Quem me há de impedir de a amar, de ser feliz em amá-la, de esperar, de procurar que ela aceite o meu amor? Um amor sem paixão para que dure – sem remorsos para que nunca amargue. – Quem me há de impedir?...

GUIOMAR

Quem? – Se eu me quisera, vingar de vós e dela, com uma palavra podia.

ALFAGEME

Dizei-a por vossa vida.

GUIOMAR

Merecei-lo.

ALFAGEME

Dai-me o que mereço.

GUIOMAR

Não quero.

ALFAGEME

Por quê?

GUIOMAR

Porque ainda não é tempo. (Sobe e entra)