O Alfageme de Santarém
Cena Iv
Guiomar, do meio da escada; Alfageme de baixo.
GUIOMAR
Fernando?
ALFAGEME
Senhora D. Guiomar?
GUIOMAR
Sempre me haveis de falar assim?
ALFAGEME
Trato-vos como quem sois, com o respeito que vos devo.
GUIOMAR
Já me não deveis senão respeito?
ALFAGEME
Tudo quanto sou vos devo e a vosso pai, senhora, e à vossa família, disso me não esqueço um instante.
GUIOMAR
Dantes, Fernando, eram outras dívidas as que vos pesavam mais no coração.
ALFAGEME
Dantes era outro tempo, senhora. – Aquele Fernão Vaz que se atrevia a levantar os olhos para... para onde não devia, aquele pobre escudeiro que tão mal cabido andava entre senhores tão altos e damas tão esquivas, morreu: – nem memória desse louco deve ficar. – Vós, que tanta vez vos esquecíeis dele em vida... para que vos lembra agora que está defunto? – Desse não sei nem eu já: agora só conheço o alfageme.
GUIOMAR
Se tão esquecido quereis estar do que fostes e da criação que tivestes – e tanta gala fazeis do trato grosseiro em que só vos dais por feliz, como vos deixais tomar assim do amor de uma donzela que, se não é nobre, como tal foi criada e viveu sempre – rica só em prendas e donaires de senhora, feita para dama, e como tal havida e tratada sempre em uma das mais nobres e mais poderosas famílias do reino, que ainda hoje a protege e tem por sua? – Alda e...
ALFAGEME
Alda e tudo o que dizeis, e muito mais ainda: e um anjo, um anjo de inocência, de singeleza e bondade... Foi criada, como dizeis, no meio dessas tentações da grandeza – e da vaidade; mas não a desvairaram. Alda é do povo como eu; o meu amor não pode envergonhá-la. Quem me há de impedir de a amar, de ser feliz em amá-la, de esperar, de procurar que ela aceite o meu amor? Um amor sem paixão para que dure – sem remorsos para que nunca amargue. – Quem me há de impedir?...
GUIOMAR
Quem? – Se eu me quisera, vingar de vós e dela, com uma palavra podia.
ALFAGEME
Dizei-a por vossa vida.
GUIOMAR
Merecei-lo.
ALFAGEME
Dai-me o que mereço.
GUIOMAR
Não quero.
ALFAGEME
Por quê?
GUIOMAR
Porque ainda não é tempo. (Sobe e entra)