O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 10 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Viii

Froilão Dias, Alfageme e Alda que chega ao alto da escada, sem a

pressentir.

ALFAGEME

A boa causa é a do povo é a do seu legítimo rei.

FROILÃO

Valha-te Deus por estadista, homem; que assim te perderás, alfageme, e as tuas alfagemias, se te meteres nesses dibuchos. Deixa isso para senhores.

ALFAGEME

De mais lhe temos deixado; por isso tão arrastados andamos, e tão soberbos eles nos trazem o pé no pescoço.

FROILÃO

Ai, meu Deus, meu Deus! Santa Maria da Alcáçova nos acuda, que deu em fazer política o alfageme em lugar de fazer espadas!

ALFAGEME

Com espadas se faz ela, padre, a boa, a deveras. E se nós, que fazemos o que com ela se faz, nos desenganarmos a trabalhar por nossa conta...

FROILÃO

Tem-te lá, Portugal; arreda, Castela, que aqui vai el-rei alfageme meu senhor! – Cerra, São Tiago!

ALFAGEME

Tem-te Portugal, que te não calas em Castela: digo eu, que não sou rei alfageme: mas alfagemes e outros que tais, a poder que possam, hão de fazer rei a quem de direito é, e não a estrangeiros e cismáticos. Lá está o infante D. João em Toledo...

ALDA

Desejais para rei esse mau infante que está coberto de sangue inocente! Por de melhor coração vos tinha, Fernão Vaz.

FROILÃO

Oh! aí – estavas tu, minha Alda?

ALDA

Agora cheguei para vos dizer que venhais a comer alguma coisa. Achei-vos a fazer tanta algazarra com essas questões de estado que não entendo, que me vou já muito depressa. – Mas não vireis comer alguma coisa, meu tio?

FROILÃO (tomando o alfageme pelo braço, e baixo para ele) Vede-me aquele anjo, alfageme. Sabeis que é um anjo, um anjo do paraíso?

ALFAGEME

Por anjo o adoro.

FROILÃO

Com fé?

ALFAGEME

Fé viva e pura.

FROILÃO

Ora pois, tende esperança.

ALFAGEME

Com a fé e a esperança por minha parte haverão caridade comigo?

FROILÃO

Tu és um homem honrado, que eu bem o sei, alfageme. Dá cá um abraço. (Abraça-o) Deixa-te de políticas, governa a tua vida e não queiras governar o mundo. Vai trabalhar, e falaremos. Falaremos: adeus! (Sobe pelas escadas e para em cima ao pé de Alda)

ALDA

Parece-me que já eram horas, tio?

FROILÃO

São horas e mais que horas de te eu dar um beijo, Alda, que ainda hoje não abracei a minha querida filha. (Abraça-a e beija-a; e tendo-a ainda abraçada, diz para baixo ao Alfageme que os está contemplando) Alfageme, alfageme, que estás tu aí a olhar? Vai-te para a forja. (Voltando-se para Alda) Alda, olha que aquilo trabalha em ferro, mas é ouro de lei... como uma dobra de D. Pedro.