O Alfageme de Santarém
Cena Vi
Alfageme, Froilão Dias, Joana, Serafina e Coro de donzelas do
Alfageme, que saem correndo de dentro das oficinas ao encontro do
padre.
CORO (música simples imitando um estilo popular português) Padre capelão,
Casai-me, meu padre, pela vossa mão,
Que eu já não tenho nem pai nem irmão,
E quero casar-me, padre capelão.
FROILÃO (arremedando-as)
Casai-me, casai-me, padre capelão! Não há mais senão casai-me, casai-me. E com que elas sonham. Raparigada! – Então que queres tu, Joana? um noivo? – Há de se achar um noivo. E tu, Serafina? O mesmo, hem! Pois também Serafina há de ter. – E estas todas, Ana, Magana, Rebeca, Susana... Há de haver para todas.
(Cercam-no as raparigas todas, dando as mãos e dançando à roda dele, cantam)
CORO
Viva o nosso padre, padre capelão,
Que é o nosso santo de mais devoção!
JOANA
Que me há de casar.
SERAFINA
E a mim por que não?
CORO
A todas, a todas, quer queira, quer não.
FROILÃO (arremedando-as)
A todas, a todas, quer queira, quer não? (Falando) Quê! eu sou aqui São Gonçalo de Amarante, que é o santo casamenteiro?
JOANA
São Gonçalo de Amarante,
Bem lhe reza minha tia;
Casamenteiro e de velhas,
Vá para outra freguesia.
CORO
Vá para outra freguesia.
FROILÃO (falando)
Quê, quê! ai que eu excomungo isto tudo...
TODAS (falando)
Excomungadas as velhas! As velhas! hu, hu hu surriada!
FROILÃO
E os velhos também; não e assim? Então nesse caso...
CORO
E os velhos também, menos frei Froilão,
Que é o velho das moças, velho de feição. As moças donzelas
Casa Dom Froilão;
Quer feias, quer belas...
FROILÃO
Só as que são belas...
CORO
A todas, a todas, que ele é de feição,
E é o nosso santo de mais devoção.
FROILÃO (arremedando-as a dançar e a cantar)
E eu aqui estou feito São Pascoal Bailão.
CORO
É o nosso santo de mais devoção.
FROILÃO (do mesmo modo)
É um fresco santo São Pascoal Bailão! (Falando) Apaje com elas, que dão cabo do pobre velho. Dá cá daí um banco, alfageme, que não me posso já ter nos pés. (Correm as raparigas todas a buscar um banco, trazem-lhe; senta-se; e elas, umas se sentam no chão aos pés do padre, outras ficam em pé) Toda a manhã no coro a rezar salmos, e a cantar antífonas... e esta raparigada agora sai-me com jaculatórias... para me descansar, não e assim? – Ora vão, minhas filhas, vão que bom e rir e folgar, e cantar e dançar, que não ofende a Deus nem ao próximo, alivia do trabalho e alegra a vida, que nos não fez Deus para tristes e pesarosos. Triste ande o pecado e as más tenções. Mas quem tem o coração folgado, folgue-lhe o rosto, que e de razão. O santo temor de Deus não mete medo, antes alegra e dá conforto. – Ora vão, vão trabalhar, filhas.
ALFAGEME (à parte)
Isto é que é padre. Não houvera mouro nem judeu, nem desses hereges que agora se diz que há, se todos os padres fossem como este.
JOANA
A sua bênção, padre capelão!
SERAFINA
A sua bênção!
TODAS (em chusma, e umas depois das outras, ajoelhando diante dele)
A sua bênção, a sua bênção, a sua bênção!
FROILÃO (enternecido)
Minhas filhas, Deus vos abençoe a todas, e vos faça mulheres honradas para serdes felizes, que não há uma coisa sem a outra. Coitadinhas! – Então o pobre do velho trôpego que mal serve para se zombar dele...
JOANA
Não diga isso, padre capelão, não diga isso!
TODAS
Não diga isso!
FROILÃO
O pobre clérigo, velho e brincalhão, pois que lhe quereis?
JOANA
Que nos abençoeis, padre, que nos deis a vossa mão a beijar; tudo nos corre bem quando levamos a vossa bênção.
FROILÃO (estendendo as mãos sobre elas e com as lágrimas nos olhos)
Em nome de Deus vos abençoo, filhas. – Minhas filhas, coitadinhas!
(Beijam-lhe todas as mãos) Ora vão trabalhar, vão – fora daqui, pequenada, safa! (Bate as palmas, e todas as raparigas voltam pulando para dentro das oficinas)