O Alfageme de Santarém
Cena Iii
Alda, Froilão, Joana, Serafina E as outras donzelas e aguazis,
Mendo Pais, o alcaide, povo.
UM DO POVO
Viva o Mestre de Avis!
POVO
Viva!
UM DO POVO
O nosso rei D. João I, que o fizemos nós; não queremos outro.
POVO
Viva!
MENDO
Viva, viva! – E estes perros destes estrangeiros que nos têm avexado, que nos têm oprimido... fora com eles!
UM DO POVO
E os estrangeirados que ainda são piores, muito piores.
POVO
Muito piores.
MENDO
Fora também.
POVO
Fora!
MENDO (à parte)
Está a opinião preparada, a opinião pública! (Alto) Senhor Alcaide, tende a bondade de me ler este alvará. (Tira das pregas do saio um rolo de pergaminho e o entrega ao Alcaide, que o desenrola, e ao abrir cai-lhe o selo pendente com uma grande fita encarnada. Mendo deita-lhe a mão de repente, e diz à parte) Olha o que eu ia fazendo! E o de el-rei de Castela, este. (Alto, escondendo o pergaminho no saio donde tira outro) Enganei-me, não era aquele. (Abrindo o segundo pergaminho de que pende uma fita azul com selo) Este é: é este, senhor Alcaide. Lede alto e bom som, para todos ouvirem. E desde já, e na melhor forma de direito – parece-me que assim é que se diz – vos requeiro e demando execução plena e inteira de todo o conteúdo nesse alvará de el-rei nosso senhor.
ALCAIDE (lendo)
“Eu el-rei (descobre-se) faço saber a todos os que o presente virem como, havendo respeito ao que me representou Mendo Pais da vila de Santarém e fidalgo da minha casa e aos muitos serviços que nessa vila se têm feito, dentro e fora dela, e durante o vexame e ocupação da dita vila pelas gentes de D. João que se chama rei de Castela, dando-me secretamente aviso e parte de muitas coisas que eram do meu serviço e que...”
MENDO (corrido, interrompendo-o) Passai adiante, passai adiante. Também não sei para que era preciso porem aí tudo tão explicado no alvará! – Vamos à conclusão.
ALCAIDE (continuando a ler)
“E por quanto sou informado que é de justiça e razão direita, me praz fazer-lhe mercê e doação, para todo o sempre e sem reserva alguma, de todos os haveres e alfaias, bens móveis e imóveis que na referida vila possuía um dos mais encarniçados inimigos da minha Real pessoa, o qual por este alvará, com força de sentença, como se na mesma casa do Cível da dita vila de Santarém fora passado, hei por bem declarar traidor e revel, e que por nome não perca, Fernão Vaz...”
ALDA
Meu Deus, que perfídia, que aleivosia infame – Senhor Alcaide, ouvi-me, ouvi-me, por quem sois. Isso é falso, isso e...
ALCAIDE (impassível e continuando a ler) “Mais conhecido pelo nome de Alfageme de Santarém.”
FROILÃO (pondo-se de repente em pé e como soltando-se-lhe a voz pela grande paixão)
Mente!
TODOS
Oh! oh! oh!
ALCAIDE (gravemente)
Padre Froilão, isto é um alvará de el-rei.
FROILÃO
Rei!... Rei que faz desses papéis...
ALDA (com exaltação)
Não merece ser rei.
(Froilão faz sinal de aprovar com violência, quer continuar a falar e não pode. Senta-se)
MENDO (contente)
Ora ainda bem que os ouvis, senhor Alcaide. E gente deste lote.
ALDA
Oh Mendo, Mendo! Vós, vós, Mendo?... – Traidor meu marido, Fernão Vaz traidor!
ALCAIDE (continuando tranquilamente) “Portanto, mando, etc., etc.”. As mais palavras do estilo. Está em boa e devida forma, não lhe falta nada.
MENDO
Em nome de el-rei nosso senhor (descobre-se o alcaide) e em virtude do alvará que tendes na mão, vos requeiro que imediatamente me deis posse do que é meu, de tudo o que foi do traidor. (Para o povo) Morram os traidores! Não fique nada dos traidores!
(O povo investe com a casa do Alfageme e começa a quebrar portas e janelas com grande fúria. Alda e Joana tomam o berço e se juntam a o pé de Froilão com as outras donzelas do Alfageme, como amparando-os)
ALDA
Meu filho! meu tio!
MENDO (ao povo)
Não é isso, meus amigos. Tomais tudo ao pé da letra. Quando era dele, podia ser; agora é meu.
UM DO POVO
Destruir tudo! Há de tudo ficar arrasado.
MENDO
Alto lá! (Para o Alcaide) Senhor Alcaide, acudi pela minha fazenda, restabelecei a ordem. – Onde está a autoridade pública?
(O Alcaide consegue fazer cessar os amotinados)
ALDA
Oh senhor Alcaide, meu marido, meu marido traidor! E viver eu para ouvir esta palavra... e escrita num alvará de el-rei D. João I!.. Não pode ser.
ALCAIDE (mostrando-lhe o pergaminho) Lede.
ALDA (depois de ler)
É verdade; cá está “Traidor... revel...” (Lendo) É verdade. – “O Alfageme de Santarém!” – E esta é a justiça que temos que esperar do nosso rei natural por quem tanto padecemos! Para isto combatemos, e sangramos tanto sangue e choramos tanta lágrima!
ALCAIDE
A falar a verdade, vosso marido... nunca se soube bem... Fernão Vaz era um tanto... Não se sabia... – E agora onde está ele? A sua ausência confirma..
MENDO
Confirma: está claro.
ALDA
Confirma o quê, Mendo! – Que está no exército de Portugal, que há oito dias daqui se foi para Abrantes, para o Condestável. – Não se sabia, senhor Alcaide! Não. – Meu marido é verdade que duvidou da justiça do Mestre de Avis.
ALCAIDE
Então confessais?
MENDO
Que remédio senão confessar.
ALDA
Que vergonha me fazeis, Mendo Pais! – Confesso, confesso que duvidou enquanto não viu o poder de Castela prestes a destruí-lo a ele e ao povo: – então fez como verdadeiro português; tomou o partido do mais fraco, declarou-se pela liberdade do reino.
ALCAIDE
Mas por onde consta isso, que documento, que prova?
ALDA
Prova! Digo-vos eu.
ALCAIDE (sorrindo)
Ah, ah! Não basta; é preciso outras testemunhas...