O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 43 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Iii

Alda, Froilão, Joana, Serafina E as outras donzelas e aguazis,

Mendo Pais, o alcaide, povo.

 

UM DO POVO

Viva o Mestre de Avis!

POVO

Viva!

UM DO POVO

O nosso rei D. João I, que o fizemos nós; não queremos outro.

POVO

Viva!

MENDO

Viva, viva! – E estes perros destes estrangeiros que nos têm avexado, que nos têm oprimido... fora com eles!

UM DO POVO

E os estrangeirados que ainda são piores, muito piores.

POVO

Muito piores.

MENDO

Fora também.

POVO

Fora!

MENDO (à parte)

Está a opinião preparada, a opinião pública! (Alto) Senhor Alcaide, tende a bondade de me ler este alvará. (Tira das pregas do saio um rolo de pergaminho e o entrega ao Alcaide, que o desenrola, e ao abrir cai-lhe o selo pendente com uma grande fita encarnada. Mendo deita-lhe a mão de repente, e diz à parte) Olha o que eu ia fazendo! E o de el-rei de Castela, este. (Alto, escondendo o pergaminho no saio donde tira outro) Enganei-me, não era aquele. (Abrindo o segundo pergaminho de que pende uma fita azul com selo) Este é: é este, senhor Alcaide. Lede alto e bom som, para todos ouvirem. E desde já, e na melhor forma de direito – parece-me que assim é que se diz – vos requeiro e demando execução plena e inteira de todo o conteúdo nesse alvará de el-rei nosso senhor.

ALCAIDE (lendo)

“Eu el-rei (descobre-se) faço saber a todos os que o presente virem como, havendo respeito ao que me representou Mendo Pais da vila de Santarém e fidalgo da minha casa e aos muitos serviços que nessa vila se têm feito, dentro e fora dela, e durante o vexame e ocupação da dita vila pelas gentes de D. João que se chama rei de Castela, dando-me secretamente aviso e parte de muitas coisas que eram do meu serviço e que...”

MENDO (corrido, interrompendo-o) Passai adiante, passai adiante. Também não sei para que era preciso porem aí tudo tão explicado no alvará! – Vamos à conclusão.

ALCAIDE (continuando a ler)

“E por quanto sou informado que é de justiça e razão direita, me praz fazer-lhe mercê e doação, para todo o sempre e sem reserva alguma, de todos os haveres e alfaias, bens móveis e imóveis que na referida vila possuía um dos mais encarniçados inimigos da minha Real pessoa, o qual por este alvará, com força de sentença, como se na mesma casa do Cível da dita vila de Santarém fora passado, hei por bem declarar traidor e revel, e que por nome não perca, Fernão Vaz...”

ALDA

Meu Deus, que perfídia, que aleivosia infame – Senhor Alcaide, ouvi-me, ouvi-me, por quem sois. Isso é falso, isso e...

ALCAIDE (impassível e continuando a ler) “Mais conhecido pelo nome de Alfageme de Santarém.”

FROILÃO (pondo-se de repente em pé e como soltando-se-lhe a voz pela grande paixão)

Mente!

TODOS

Oh! oh! oh!

ALCAIDE (gravemente)

Padre Froilão, isto é um alvará de el-rei.

FROILÃO

Rei!... Rei que faz desses papéis...

ALDA (com exaltação)

Não merece ser rei.

(Froilão faz sinal de aprovar com violência, quer continuar a falar e não pode. Senta-se)

MENDO (contente)

Ora ainda bem que os ouvis, senhor Alcaide. E gente deste lote.

ALDA

Oh Mendo, Mendo! Vós, vós, Mendo?... – Traidor meu marido, Fernão Vaz traidor!

ALCAIDE (continuando tranquilamente) “Portanto, mando, etc., etc.”. As mais palavras do estilo. Está em boa e devida forma, não lhe falta nada.

MENDO

Em nome de el-rei nosso senhor (descobre-se o alcaide) e em virtude do alvará que tendes na mão, vos requeiro que imediatamente me deis posse do que é meu, de tudo o que foi do traidor. (Para o povo) Morram os traidores! Não fique nada dos traidores!

(O povo investe com a casa do Alfageme e começa a quebrar portas e janelas com grande fúria. Alda e Joana tomam o berço e se juntam a o pé de Froilão com as outras donzelas do Alfageme, como amparando-os)

ALDA

Meu filho! meu tio!

MENDO (ao povo)

Não é isso, meus amigos. Tomais tudo ao pé da letra. Quando era dele, podia ser; agora é meu.

UM DO POVO

Destruir tudo! Há de tudo ficar arrasado.

MENDO

Alto lá! (Para o Alcaide) Senhor Alcaide, acudi pela minha fazenda, restabelecei a ordem. – Onde está a autoridade pública?

(O Alcaide consegue fazer cessar os amotinados)

ALDA

Oh senhor Alcaide, meu marido, meu marido traidor! E viver eu para ouvir esta palavra... e escrita num alvará de el-rei D. João I!.. Não pode ser.

ALCAIDE (mostrando-lhe o pergaminho) Lede.

ALDA (depois de ler)

É verdade; cá está “Traidor... revel...” (Lendo) É verdade. – “O Alfageme de Santarém!” – E esta é a justiça que temos que esperar do nosso rei natural por quem tanto padecemos! Para isto combatemos, e sangramos tanto sangue e choramos tanta lágrima!

ALCAIDE

A falar a verdade, vosso marido... nunca se soube bem... Fernão Vaz era um tanto... Não se sabia... – E agora onde está ele? A sua ausência confirma..

MENDO

Confirma: está claro.

ALDA

Confirma o quê, Mendo! – Que está no exército de Portugal, que há oito dias daqui se foi para Abrantes, para o Condestável. – Não se sabia, senhor Alcaide! Não. – Meu marido é verdade que duvidou da justiça do Mestre de Avis.

ALCAIDE

Então confessais?

MENDO

Que remédio senão confessar.

ALDA

Que vergonha me fazeis, Mendo Pais! – Confesso, confesso que duvidou enquanto não viu o poder de Castela prestes a destruí-lo a ele e ao povo: – então fez como verdadeiro português; tomou o partido do mais fraco, declarou-se pela liberdade do reino.

ALCAIDE

Mas por onde consta isso, que documento, que prova?

ALDA

Prova! Digo-vos eu.

ALCAIDE (sorrindo)

Ah, ah! Não basta; é preciso outras testemunhas...