O Alfageme de Santarém
Cena Xii
O Alfageme, saindo de sua casa com a espada na mão; Nuno
Álvares; Froilão Dias, caindo como desmaiado; Alda.
ALFAGEME (tomando-lhe o passo) Não jureis em vão, Sr. D. Nuno. A espada de vosso pai, tenho-a eu aqui: (brandindo-a) tomai-a primeiro, depois jurareis.
NUNO ÁLVARES
Quem és tu? (Recuando e reparando nele) Oh! o alfageme. (Vai depor Alda ao pé do tio, e volta com ira concentrada) Obrigado, meu amigo! A ponto vindes. Hoje é dia de bom agouro. (Deita a mão ao lado da espada, e não a achando, diz amargamente e por entre os dentes) Oh fatalidade, sina má, não tenho espada!
ALFAGEME (abatendo a espada e tranquilamente) Entrai naquele armazém e escolhei.
NUNO ÁLVARES
Vai tu mesmo; e dá-me essa que é minha.
ALFAGEME
Era de vosso pai. Está para ver se sois digno dela.
NUNO ÁLVARES (enfurecido) A mim, a mim, alfageme! Caro pagarás tudo. (Corre a casa do Alfageme e volta com uma espada) Não dou esta honra a todos. Mas contigo...
ALFAGEME (tranquilamente e com dignidade) Por ora tenho na mão esta espada, e sou mais digno de lhe pegar do que vós. – Brigais com a espada de vosso pai, senhor D. Nuno, não com o vilão que a tem no punho.
NUNO ÁLVARES (mais enfurecido) Defende-te, homem, por Cristo, que já me pesa a tua vida mais que a minha. (Investe furioso com o Alfageme, que se defende com todo o sangue-frio, e procura desarmá-lo sem lhe fazer mal).
ALDA (acordando com o tinir das espadas) Nuno, Nuno, meu irmão, meu!...
(Nuno cai)
ALDA
Ai! (Acode-lhe e abraça-se com ele)
FROILÃO (levantando-se)
Que fizeste, homem! – Oh meu querido amo! (Vai-lhe acudir também)
ALDA (erguendo a cabeça, sem olhar para o Alfageme, mas levantando a mão para ele)
Fernão Vaz, que vos não tornem a ver os meus olhos.
ALFAGEME (com um sorriso amarelo) Não é nada, senhor; vede. Foi um leve bote no ombro, que lhe não pude evitar por mais que fiz.
NUNO ÁLVARES (tornando a si e sentando-se) Alda! – Foi a espada de meu pai: a justiça era por ela. (Levantando-se em pé) Não estou ferido: o poder daquela espada me derribou e me fez cair em mim. Sois um homem honrado, alfageme. – Alda, perdoa-me, perdoa a teu irmão, a teu irmão... que não é já... que há de vir a não ser... mais que teu irmão. – A minha espada, Fernão Vaz.
ALFAGEME
Ei-la aqui, senhor cavaleiro.
Á
NUNO ÁLVARES (beijando-a muitas vezes) Espada de meu pai, que tão bem começas a servir-me! tu serás na minha mão...
ALFAGEME (com entusiasmo) Um ralo de glória!
ALDA (do mesmo modo)
Um símbolo de honra.
ALFAGEME
A defensão de Portugal!
FROILÃO
A vitória de Cristo!
ALFAGEME (como em êxtase) Sereis o primeiro homem de Portugal, D. Nuno Álvares Pereira! Não vos pese, não vos pejeis de ser vencido do pobre alfageme. Foi essa espada que tem o condão de dar sempre a vitória a quem a empunhar pela virtude. Essa espada é de encanto. Nunca vi lâmina assim. Boas fadas a fadaram; ou antes, no rio Jordão por mãos de anjos foi temperada. Tenho feito, tenho corregido muita espada, nunca vi faiscar centelhas como de fogo do céu, quais essa deita. Essa espada vos fará grande, vos dará títulos, honras, vos fará... conde, Condestável do reino... e digno de tudo isso!
NUNO ÁLVARES (olhando a espada com complacência) Que brilhante está! (Torna a beijá-la; depois, ao alfageme) Ainda vos devo o preço...
ALFAGEME (sorrindo)
Não me paguei já por minhas mãos?
FROILÃO (sorrindo)
Fez de moleiro o alfageme.
Á
NUNO ÁLVARES (com bondade) Embora. – Esta bolsa contém mil dobras: será o dote de minha irmã (entregando a bolsa a Froilão, e depois sorrindo para o alfageme), e o preço da correção... da espada.
ALFAGEME (tomando a bolsa das mãos de Froilão e tornando a pô-la nas de Nuno Álvares).
O dote de Alda é aquele coração. Alda, eu ouvi tudo o que dissestes.
FROILÃO
Ouvistes!
ALFAGEME
Ouvi, e fiquei sabendo o tesouro que me dais. – Sr. D. Nuno, o preço da correção... da espada dar-me-eis quando fordes Condestável do reino.
NUNO ÁLVARES (rindo)
Quereis zombar. Eu Condestável!
ALFAGEME
E uma inspiração que Deus me deu, uma visão que tive quando a estava afiando. Vê-la-eis cumprir, decerto; e então me pagareis. – Agora (apontando para Alda) que mais me quereis dar?
NUNO ÁLVARES
Tendes razão. – Alda, a tua mão. (Toma a mão de Alda e lhe põe na do Alfageme) Alfageme, esta mulher é minha irmã; dou-te eu.
FROILÃO (estendendo as mãos sobre eles) E eu vos abençoo.
NUNO ÁLVARES (com um suspiro) Adeus, Alda... Adeus!
ALDA
Nuno!
ALFAGEME
Não abraçais vosso irmão, Alda?
(Alda olha para o Alfageme como quem o admira, Nuno faz outro tanto; abraçam-se)
NUNO ÁLVARES
Adeus, Alda!
ALDA
Adeus, meu irmão!