O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 23 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena V

Froilão Dias, Alfageme, Mendo Pais no patim da escada.

 

FROILÃO (como continuando a conversação e tomando calor)

É a vossa última palavra?

ALFAGEME

A derradeira.

FROILÃO

Estais determinado?

ALFAGEME

É uma resolução firme, inalterável, como são todas as minhas.

FROILÃO

Que esperais ganhar com isso?

ALFAGEME

Nada – perder muito talvez.

FROILÃO

É o certo.

ALFAGEME

Embora. Resolvi, não mudo.

FROILÃO

Paciência!... Perdi a mais doce, a mais querida esperança da minha vida.

ALFAGEME

Pois que esperáveis de mim? Que chegado o ensejo de obrar, vinda a hora do perigo e do trabalho, eu desamparasse os do meu partido, os meus populares, e aqui me ficasse a amolar espadas, enquanto outros as vão dar ao vento das batalhas? – Nunca.

FROILÃO

Um homem como vós, abastado, independente... lançar-se no remoinho da guerra civil, renunciar ao sossego, à paz da sua casa, à felicidade tranquila que podia gozar com uma esposa querida!

ALFAGEME

Padre, essa ventura não a criou Deus para mim... Deixai-me: para infeliz basto eu, a minha negra sina hei de corrê-la eu só. (Prossegue como quem diz involuntariamente o que não queria dizer) E quem vos diz, homem, que não é o desespero que me arremessa na voragem? – que não é o ver-me fechadas para sempre as portas desse paraíso com que sonhei, o que me arroja ao terrível abismo?... abismo espantoso, mas em cuja tremenda agitação só pode haver sossego, vida para um coração desatinado, para uma alma perdida, como a minha! Quem sabe se o desejo, se a esperança de satisfazer a única paixão, o único prazer dos desesperados, a vingança?...

FROILÃO

Vingança, Fernando! de quem?

ALFAGEME

De quem!... de quem? – De um homem que sou obrigado a estimar, a respeitar, cujas qualidades e espírito superior me acovardam e humilham, de um homem que... Não me pergunteis quem é, Froilão; não vos direi. E nunca lhe perdoarei a ele, nem quando nas agonias do passamento, abraçado com a cruz do Redentor.

FROILÃO

Calai-vos, calai-vos, Fernando; tende dó de vossa alma. – Oh meu Deus, meu Deus, e este era o homem que eu tinha escolhido para meu herdeiro, para lhe deixar o precioso tesouro que a nenhum outro confiara! Este era o homem virtuoso, sem ambição, e quebrado nas paixões do mundo, a quem eu queria entregar a minha Alda!...

ALFAGEME (com ironia amarga) Alda me dáveis vós a mim?

FROILÃO

Dava sim, porque te não conhecia, homem de soberbas e vinganças, que em teu coração de repúblico tens mais requintados e violentos todos os vícios de que tanto acusas a esses que Deus pôs acima de ti na ordem do mundo. (Com tristeza e desconsolação) Ah Fernão, Fernão, Deus te perdoe o mal que me fazes – e Deus te pague o desengano que ainda me dás a tempo!

ALFAGEME (com violência crescente) Desengano-vos eu?... Será. – Mas quem, pelo sangue de Cristo, quem é que me enganava a mim?

(Nestas últimas palavras aperta com tanta força a mão de Froilão, que o faz desfalecer e curvar-se. – E logo, como caindo em si, o ampara e faz sentar no banco ao pé das árvores)

FROILÃO

Quereis... matar-me?... Começais por mim vossas bizarrias de campeador?

ALFAGEME (meio ajoelhado) Oh perdoai-me, perdoai-me por quem sois. Estou louco, estou perdido. Perdoai-me, que não sei o que faço nem o que digo.

FROILÃO (sem olhar para ele, fazendo-lhe sinal com a mão) Pois sim, sim, estais perdoado; mas deixai-me por caridade, deixai-me...

ALFAGEME (indo-se pelo fundo da cena) Agora sim, que sou um homem reprovado e maldito de Deus!