O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 16 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Iii

Nuno Álvares encaminha-se para as janelas do alfageme em que

estão os moradores com as armas; o Alfageme sai da sua porta do

alto da cena, e vem à roda para o

meio do proscênio.

ALFAGEME (à parte)

Que animada prática tiveram!... e que estranha devia ser! – O padre ria e chorava, e foi-se tão contente! (Reparando em Nuno Álvares) E Nuno Álvares está triste! – Oh Alda, Alda!... Mas quê! Eu sou o alfageme. – À tua forja, alfageme. (Encaminha-se para sua casa)

NUNO ÁLVARES (vendo o alfageme) Belas espadas e bem corregidas, por Santa Maria! – Maravilhas tinha ouvido do alfageme de Santarém; mas vejo que ainda não diziam nada para o que é. – Quereis-me correger esta espada velha? Pôr-me-eis tão guapa e tão bem guarnecida como essas que aí tendes?

ALFAGEME (olhando com atenção e lentamente, ora para a espada, ora para Nuno Álvares)

Espada tão velha para cavaleiro tão moço!

NUNO ÁLVARES

Era de meu pai; não a trocara pelo melhor damasco.

ALFAGEME (provando-a no chão) E uma bela folha, da melhor têmpera. – Como um espelho vo-la porei, se quiserdes.

NUNO ÁLVARES

Quando?

ALFAGEME

Estais com pressa?

NUNO ÁLVARES

Como quem tem de partir por horas.

ALFAGEME

Por horas?

NUNO ÁLVARES

Esta madrugada irei para Lisboa.

ALFAGEME

Tão depressa!

NUNO ÁLVARES

Tão devagar é ele: já eu lá devia estar com meus cavaleiros e a minha gente a servir o Mestre de Avis.

ALFAGEME

Boas novas me dais, cavaleiro: tereis de alvíssaras a mais bem guarnecida espada que ainda apareceu em batalha ou torneio. Dar-lhe-ei um fio!...– Não a poupeis, que tendes folha para muito; e com o fio que lhe eu hei de dar, cortará, sem fazer boca, por armaduras de ferro... quanto mais que... holandas e cetins são fáceis de cortar.

NUNO ÁLVARES

Que dizeis? Não vos entendo.

ALFAGEME (olhando para a espada e como quem fala consigo) A espada do Prior do Crato, D. Álvaro Pais, o mais honrado fidalgo que teve esta terra, cingida por cima das armas do Mestre de Avis com que foi armado cavaleiro – aqui em Santarém, e foi um dia de prazer e de bom agouro! – D. Nuno Álvares Pereira em presença de el-rei D. Fernando, a quem Deus perdoe, e pelas próprias mãos... lindas mãos... Oh! lindas são elas – de certa rainha que...

NUNO ÁLVARES

Sabeis a minha vida toda, pelo que vejo, senhor alfageme.

ALFAGEME

E por tal sinal, que nenhumas armas serviram ao jovem escudeiro senão as do Mestre de Avis que a dita rainha lhe mandou pedir. Ora bem se vê que já andava fado nestas coisas, e que o que tem de ser, tem de ser. – E assim ides agora para o Mestre de Avis?

NUNO ÁLVARES

E para quem havia de eu ir?

ALFAGEME

E o Mestre, senhor cavaleiro, não há de ser por seu irmão, pelo filho de seu pai, o nosso rei verdadeiro, o infante D. João que está em Castela?

NUNO ÁLVARES

Perguntais-me por coisas, senhor alfageme!... E matéria tão delicada que não sei, em verdade, o que vos responda.

ALFAGEME

Não sabeis! (Com entusiasmo) Mas é que não podeis dar senão uma resposta: a que daria o mesmo Mestre, a que dá toda a gente honrada deste reino, a que há de dar todo o povo quando...

NUNO ÁLVARES

Quando lhe perguntarem.

ALFAGEME

Ou quando ele quiser falar sem que lhe perguntem.

NUNO ÁLVARES

Bravo estais!

ALFAGEME

Braveza chamais à justiça, a razão... de quem não quer ver em mãos de estrangeiros este reino que é nosso, que tanto sangue custou a nossos pais para o resgatar de mãos de mouros?

NUNO ÁLVARES (com lhaneza) Enganais-vos, meu amigo.

ALFAGEME (desabrido)

Não sou vosso amigo.

NUNO ÁLVARES

Sereis, quando souberdes que o meu empenho é o vosso, que o mesmo ardor nos inflama.

ALFAGEME

Talvez.

NUNO ÁLVARES

Decerto. Que ambos temos o mesmo amor...

ALFAGEME

Inda mal!

NUNO ÁLVARES

Inda mal! – Estranho homem sois. Pois o mesmo amor à causa?...

ALFAGEME

A causa! Ah! – a causa, a causa...

NUNO ÁLVARES

Como assim? Estareis jogando comigo? Sabeis que me chamo Nuno Álvares Pereira?

ALFAGEME (tranquilamente)

Sei.

NUNO ÁLVARES

Que sigo o Mestre de Avis?

ALFAGEME

Agora o dissestes.

NUNO ÁLVARES

Sereis do partido da rainha?

ALFAGEME

Eu!... de uma mulher que... que não tem nome para se dizer diante de gente?

NUNO ÁLVARES

Então não vos entendo.

ALFAGEME

Nem podeis entender. Vós sois D. Nuno Álvares Pereira, o homem do Mestre de Avis; eu sou Fernão Vaz, o alfageme, o homem do povo. A vossa causa é a do vosso príncipe cujo sois, a minha a da terra em que nasci. Bem vedes que diferentes andamos. – E contudo, por diversos que sejam nossos fins... Deus faça triunfar o mais justo!

NUNO ÁLVARES

Amém!

ALFAGEME

Amém! – Por diferentes que sejam em uma coisa nos entendemos e trabalharemos juntos: em castigar esse estrangeiro que nos oprime e nos desonra, em libertar o reino dessa insuportável tirania. – Contai com o povo, senhores cavaleiros. E pelo de Santarém vos respondo eu.

NUNO ÁLVARES

Sois um homem de honra e de primor, Fernão Vaz. (Oferecendo-lhe a mão) – Dai-me a vossa mão.

ALFAGEME (fugindo com a sua)

A minha mão, senhor D. Nuno! Já vos disse que não era vosso amigo.

NUNO ÁLVARES

Mas sou eu vosso; e em penhor desta amizade sincera vos peço que aceiteis a minha mão. (Oferecendo-lhe outra vez)

ALFAGEME

Não posso aceitá-la.

NUNO ÁLVARES

Por quê?

ALFAGEME

Porque não dou a um homem, em testemunho de amizade, esta mão que talvez, antes de muito, tenha de pegar numa espada para lhe atravessar o coração.

NUNO ÁLVARES

Pois não são meus contrários os vossos? Na hora do combate não estaremos ambos do mesmo lado?

ALFAGEME

Sim, contra o inimigo comum, e até que ele seja destruído; mas... Não me peçais mais explicações, senhor D. Nuno... A vossa espada estará pronta esta noite. E o alfageme estará pronto sempre, ele e os seus, todo este povo de Santarém, para defender a liberdade do reino. Que mais quereis? – Tendes os vossos segredos, e eu os meus: cada qual guarde o que é seu. – Olhai: (apontando para o fundo esquerdo) vedes aquele homem que aí vem correndo a toda a brida?

NUNO ÁLVARES (olhando para o mesmo lado) Vejo. E se me não engano, é, é...

ALFAGEME

É Mendo Pais, meu colaço, que ainda antes de ontem daqui partiu.

NUNO ÁLVARES

Como ele vem açodado!

ALFAGEME

Mendo Pais, o irmão de D. Guiomar dali defronte? (Apontando para a casa defronte) E torna de Lisboa já. Grande caso deve de ser. – Lá dá volta, lá entra no pátio. Apeia-se. Ei-lo aqui vem.