O Alfageme de Santarém
Cena Ii
Froilão Dias, Alda, Joana, Serafina e as outras Donzelas; Mendo
Pais entrando; depois povo dentro.
MENDO
Se eles acabassem todos assim os romances, bem bonitos eram!
ALDA (assustada)
Que quereis dizer, senhor? Mendo, que é o que sucedeu? – Vindes com cara de caso... e de mau caso! – Que novas há do exército de?... – Por vossa vida, dizei... seja o que for. – Más novas?
MENDO
Más... más! Más para uns, boas para outros; que é a volta do mundo.
ALDA
Santa Maria da Amieira nos acuda, que venceram os castelhanos! – Se eles eram tantos, e os nossos...
MENDO
Cada um para dez castelhanos: é verdade.
ALDA
Ai meu Deus, meu Deus! que será feito de...
MENDO
De quem?
ALDA
De meu marido, senhor.
MENDO
Vosso marido... vosso marido. – Bem se trata agora de vosso marido. – Ocaso é que eles não venceram, o caso é que os ensinamos, que lhes demos uma lição mestra. – Ah bons portugueses, ah gente leal e destemida, que nunca me enganei convosco! Só aquela Ala dos Namorados! Só aquela companhia da Madressilva! Pois com gente daquela, por força havia de ser. – Eu sempre o disse, sempre o esperei. Que vitória, que vitória! Não tornam cá.
ALDA (suspensa)
Não tornam cá! – Em nome de Deus, explicai-vos. Quem? – Vencemos! Quem são os que venceram?
MENDO (com grande entusiasmo) Os nossos, Alda, os nossos.
ALDA
Mas quem são os vossos? – Há tempos a esta parte que não sei.
MENDO (picado)
Não sabeis, Alda... minha senhora D. Alda! Não sabeis quem são os meus! Com que eu sou como certa pessoa que não queria os Castelhanos, porque eram Castelhanos, não queria o Mestre de Avis... porque era... nem sei eu o quê.. Não queria nada! Eu quero, quis e hei de querer sempre o que...
ALDA
O que vencer.
MENDO
O que vencer, sim, o que tiver justiça para vencer, porque a justiça é a força, isto é, a força é que dá a justiça... Não é assim: quero dizer que a justiça é que dá a força.
ALDA
Por caridade, Mendo, que me digais... Vós?...
MENDO
Eu sou um Português leal e honrado, graças a Deus! Não quero ser escravo de estrangeiros, não quero...
ALDA (ajoelhando e pondo as mãos) Louvado seja Deus que venceram os Portugueses!
MENDO
Assim foi. A bandeira do Campo de Ourique, a sagrada bandeira do Campo de Ourique. (Fazendo por se excitar) O pendão da honra e da lealdade!...
POVO (que grita dentro)
Vitória, vitória!
ALDA (erguendo-se)
O meu Fernando! Inda bem que o resolvemos!
MENDO
Inda bem! E custou. (À parte) Mal sabes tu porque eu digo ainda bem.
ALDA
Mas dizei, contai...
MENDO
Contar o quê? Dizer o quê? – Foi uma coisa como nunca se viu. Castelhanos, ficou tudo em postas. El-rei D. João de Castela... o tal rei cismático – veio correndo a bom correr toda a noite, e esta madrugada entrou em Santarém; aí esteve em Marvila metido. Deus sabe com que medo; e logo de madrugada... (Olhando para o rio) Olhai para acolá; vedes aquelas galeotas sem pendão nem bandeira? É ele que vai pelo rio abaixo, com vento e maré de feição, meter-se na sua armada que está à foz do Tejo, para se pôr a bom recato em terras de Castela, que estes ares de Portugal não se dão bem com ele.
ALDA (afirmando-se)
E verdade: são as galeotas castelhanas. – Oh meu Deus, que alegria! – E onde foi a batalha?
MENDO
Entre Aljubarrota e Leiria, nos campos ao pé de Aljubarrota... (À parte) E o alcaide sem chegar, e a minha gente!... Oh! ei-los aí vêm.
POVO (de dentro)
Vitória, vitória pelo nosso rei D. João!... – Morram os Castelhanos! Fora os Castelhanos!
MENDO
Fora os Castelhanos!
ALDA (à parte)
Que vil homem! Faz-me corar. (Para Mendo) Pois vós, senhor Mendo Pais, não éreis?...
MENDO
Era o quê? – Esperai que já vos digo o que eu era. – Graças a Deus que já se pode falar; (bradando) que já temos a nossa liberdade!