O Alfageme de Santarém
Cena Iv
D. Guiomar e Mendo Pais no alto da escada. O povo entra em
magotes e amotinado; entre eles Gil Serrão, Brás Fogaça e mais
serralheiros do Alfageme. Joana, Serafina e outras mulheres com
eles.
CORO DO POVO
Traição, traição, traição!
GIL SERRÃO
Quem nos perdeu!
BRÁS FOGAÇA
Quem nos vendeu!
CORO
Traição, traição, traição!
GIL SERRÃO
É não ter alma.
BRÁS FOGAÇA
Não ter coração.
CORO
Traição, traição, traição!
GUIOMAR (para Mendo)
São capazes de o matar, Mendo.
MENDO
E se fossem, a perca! – Mas não, não é nada; deixa estar.
GUIOMAR
Então o que é, que tem esta gente?
MENDO
Tem o que ainda agora te disse; que está el-rei de Castela perto da vila, que aí vai subindo a calçada da Atamarma; e agora estão com medo do castigo que merecem. E o costume: chega-lhe tarde, mas chega-lhe deveras. Até aqui, o Alfageme era o seu homem, o seu capitão; agora hão de querer pendurar o caudilho à porta do Sol para ver se lhes escapa a garganta deles, e hão de gritar que ainda bem que se livraram do Alfageme, que era quem os obrigava a fazer as maldades e as cruezas que fizeram.
GUIOMAR
Mas todos nós vimos o contrário; e a ti mesmo por duas vezes te salvou ele a vida, escondendo-te do povo e defendendo-te quando esses amotinados gritavam por esta escada acima: “Morra o castelhano, o cismático, o traidor, o espia!”
MENDO
E verdade: e é a mesma coisa agora, a mesma gente, agora querem-no matar a ele por não ser castelhano nem cismático.
GUIOMAR
Pois sim; mas acode-lhe tu, e salva-lhe a vida ao menos, que bem sabes quanto lhe devemos.
MENDO
Devemos, devemos; e para lhe não dever é que...
GUIOMAR
Anda, vai.
MENDO
Se eles estiverem pelo que lhes eu disser... (Começa a descer lentamente a escada)
CORO
Traição, traição!
JOANA
Meu pai!
GIL SERRÃO
Minha filha!
SERAFINA
E tu, meu irmão!
CORO
De nós que será?
GIL SERRÃO
Ai quem nos perdeu!
BRÁS FOGAÇA
Ai quem nos vendeu!
GIL SERRÃO
Foi ele.
CORO
Foi ele, foi ele.
BRÁS FOGAÇA
Pois já, pois hoje por todos aqui pagara.
CORO
Pois hoje por todos aqui pagará.