O Alfageme de Santarém
Cena Ix
Alda, Alfageme, Gil Serrão, Brás Fogaça e os mais serralheiros que
voltam.
GIL SERRÃO (lagrimejando)
Mestre, os castelhanos estão entrando pela porta de Atamarma. – Partiu-se-me a alma, mestre, de os ver entrar tão senhores de si pela nossa vila dentro. – Estes rapazes todos foi o mesmo. Sem dizermos nada uns aos outros, voltamos todos a cara para não ver tanta vergonha. – Mas até aqui vá, inda vá... Mas quando a gente viu entregar as chaves ao rei cismático, as chaves da nossa terra, onde está aquele Santo Milagre da hóstia de Cristo com o seu puríssimo sangue derramado por nós – que este foi só pelo povo católico de Santarém, não é para todos como o outro... Oh mestre! quando a gente viu tal, não houve mais que falar, saltaram-nos as lágrimas pelos olhos fora, e viemos muito depressa correndo. Já está tudo de um concerto: vamos para Abrantes ter com o Condestável; e acabou-se. – Quereis vós vir connosco? Sois o nosso mestre, sereis o nosso capitão. – Se desta vez tem de acabar Portugal, acabemos nós também com de. Mas já agora quem começou a obra tem obrigação de a rematar, ou de acabar em cima dela. E, salvas as más palavras, vós, mestre, que nos metestes nisto, não vos fica bem...
ALFAGEME (enternecido)
Meus amigos, meus honrados amigos! (Para Alda) Fui injusto para com eles, assim como fui contigo, Alda! – E eles perdoam-me como tu me perdoaste: voltam para mim! – Alda, as minhas armas . (Aos trabalhadores) Vamos para Abrantes, amigos. (Alda vai buscar as armas, volta com elas e ajuda-o a armar-se) Alda, vou pedir ao Condestável de Portugal a dívida de Nuno Álvares Pereira.
ALDA
Qual?
ALFAGEME
A da espada. E há de pagar-me...
ALDA
Como?
ALFAGEME
Quero um emprego, um lugar.
ALDA
Tu! Qual? Aonde?
ALFAGEME
Na vanguarda do exército de D. João I de Portugal.
ALDA
Oh meu Fernando!
ALFAGEME
Adeus, Alda! – Um abraço derradeiro, e adeus. – Este beijo ao nosso filho... ao nosso Álvaro... (enternecido) Então, Alfageme! E o nosso velho Froilão! – Psiu! que não ouça ele: está muito velho para estes transes de despedida. – Dar-lhe-ás um abraço por mim, Alda.
ALDA
Que é dele o abraço?
ALFAGEME (abraçando-a)
Aqui está... E adeus, adeus! (Sai cantando) Alfageme, a pátria te espera,
Deixa a forja! – leva o coração!
TODOS OS SERRALHEIROS (seguindo o Alfageme) Vamos! (Cantam)
Alfageme, a pátria te espera, Deixa a forja! – leva o coração!