O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 36 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Vi

O Alfageme, Alda, Froilão Dias, Mendo Pais, ao pé da casa do

Alfageme.

D. Guiomar no alto da sua escada.

 

ALFAGEME (depois de considerável silêncio) Aqui está o que é o povo! Fiai-vos em seu favor: tomai a peito suas coisas: fazei-vos caudilho, defensor da multidão, metei-vos a guiá-la!

MENDO

Que vos dizia eu, Fernando? Vilões pagam como quem são.

ALFAGEME

Que me importa a mim como eles pagam! Servi-os eu para que me pagassem? – A causa do povo é a causa dos pobres. Mendo: que recompensa há de esperar quem a serve?

MENDO

Oh homem! Vós não viveis neste mundo. Aí andam com o Mestre de Avis tantos servidores do povo que o outro dia não tinham um saio velho com que se cobrir, e hoje são senhores grandes e poderosos.

ALFAGEME

Bem sei; esses não serviam o povo, serviam-se dele.

MENDO

Mas são esses os que o povo segue e em quem se fia; e vós, com toda a vossa independência e devoção desinteressada, ficais pobre, estragado de saúde, malquisto de todos os partidos, e pelos vossos próprios alcunhado de...

ALFAGEME

De traidor, de corrupto, de vendido, de cismático. – Que se me dá a mim de estar mal com todos, se estou bem comigo? – Fico pobre? Trabalharemos; não é assim, Alda? Mal me querem os meus? Terras tem esse mundo de Cristo para onde ir viver. E para quem vive do trabalho de suas mãos, toda a terra é pátria.

ALDA (deitando-lhe os braços) Sim, meu Fernando, vamos para multo longe daqui, para onde não haja destes alvorotos, destes sustos.

FROILÃO

Desterrar-vos, homem! Queres deixar a terra em que nasceste, ir mendigar o pão do estrangeiro! Homem, tu sabes o que é sentar-se um foragido nas ribeiras da terra estranha, a olhar para aqueles campos que não são seus, a ver aqueles rostos que não conhece, a ouvir aquelas falas que não entende, e sentir-se... sentir-se cair o coração de desapego e desconforto? – Oh! antes morrer; morrer só, abandonado... desamparado de seus próprios filhos, como eu aqui morrerei... (Rebentam-lhe as lágrimas. Alda e o Alfageme o abraçam; ele rompe a soluçar)

ALDA

Não, meu tio, não vos deixaremos, não, nunca.

MENDO (fingindo-se comovido) Ora pois, isso não é vosso, Froilão: estais agravando o mal sem o remediar. A necessidade aperta, e é preciso tomar uma resolução. El-rei de Castela está perto da vila. Um poder imenso – e não exagero – todo o poder de Castela vem com ele. (Olhando para o fundo) Vedes além aquela gente que passa? – São os nossos sete vereadores com a bandeira da Câmara, e a Casa dos Vinte-e-Quatro com os seus balsões, que o vão esperar e entregar-lhe as chaves da vila. (Ouve-se dobrar o mesmo sino do terceiro ato) Oh! lá toca o sino da nossa torre das Cabaças. O poder torre daquela em Santarém é invencível; bem sabeis. E maior é o da torre Albarran, que também soou por nós nas consciências patrióticas dos bons santarenos. Ora, uns por ocos, como as cabaças de barro de uma torre, outros por cheios, como as arcas da outra; em conclusão, temos por Castela clero, nobreza e povo.

(Ouvem-se vivas e vozearia)

ALFAGEME

O povo, o povo!

MENDO

Que há de ser, se ele traz um exército de vinte mil homens! Não há nada que faça um rei amado e querido como um bom exército; todos o adoram. – Daqui a pouco vereis como triunfam por aí os mais tímidos e indecisos, os que mais duvidam da legitimidade da tainha D. Beatriz. Vereis os vossos populares submissos e leais... – E não faltará entre eles, principalmente nos que mais violentos foram e mais atrocidades cometeram, quem, para se salvar a si, vos vá denunciar como o mais perigoso cabeça de motim.

ALDA

Ele, que se opôs sempre a essas violências, que, por sua moderação, perdeu todo o ascendente que tinha no povo!

MENDO

Por isso mesmo. Conheceis bem mal os homens, minha bela Alda.

ALDA

Nãos os conheço, não: inda bem! nem desejo.

ALFAGEME

E assim o que ele diz: moderações me perderam. Meti-me a querer ordenar o que não tem ordenação; destruí a minha própria força... E agora todos zombam de mim, escarnecem-me e detestam-me!

MENDO

Eu bem te dizia.

FROILÃO

Eu bem te dizia, eu bem te dizia!... De que serve agora o que vós lhe dizíeis ou o que eu lhe dizia? – Bom é dar conselhos antes do malsucedido. Eu também dei os meus e não me louvo deles, que não foram os melhores. – Em verdade, em verdade, se formos a ajuizar pelo que está sucedendo, o maior culpado aqui sou eu que sempre preguei: “Nada de partidos, nada de bandos; deixa averiguar isso a quem toca, e não te metas a fundo nessas coisas”. – Muito bom, muito bom, excelente... mas impossível. Em as coisas chegando a estes pontos, é forçoso ser por alguém para não ficar sem ninguém... e ver todos contra si! – Mas enfim o que passou não tem remédio. O que é preciso agora é salvar dos Castelhanos... e dos maus Portugueses que ainda são piores. – Mendo Pais, vós deveis a vida a este homem que duas vezes vos tirou das mãos do povo amotinado. Não falo nas mais obrigações em que lhe estais...

ALFAGEME

Froilão; Froilão, calai-vos: nem mais uma palavra, se não quereis que eu me vá já entregar a el-rei de Castela.

FROILÃO

Pois bem, não digo mais nada. Mendo sabe que...

MENDO

Sei... E se eu pudesse mostrar...

FROILÃO

Não podeis!... Vós, homem de el-rei de Castela, vós hoje rico e poderoso!...

MENDO

Rico! Tu sabes, Fernando, como eu sou rico. – O meu valimento é muito menor do que supondes. Para vos eu esconder em minha casa, bem vedes que...

ALDA

Ai, isso não, Fernando, não!

MENDO

Eu por mim... Mas não tardavam a descobri-lo...

ALFAGEME

Não vos canseis com desculpas: não irei para vossa casa.

MENDO

Tomai o meu conselho. Já sabeis que Nuno Álvares Pereira está em Abrantes: ide para ele. Tomai um dos meus cavalos. Por acaso... foi mero acaso... (confundindo-se) alcancei por um homem do Mestre que aqui passou aforrado, um salvo-conduto para entrar em Abrantes; dar-vos-ei: tomai. (Tira um papel da bolsa e dá-lhe) Aqui estamos fora de portas, ainda podeis ir sem perigo; eu tomarei cuidado que vos não embaracem. – Bem vedes que sou generoso: mando um soldado como vós aos meus... aos meus contrários.

ALFAGEME

Obrigado, Mendo, agradeço-vos a boa tenção.

FROILÃO

Sois cavaleiro, D. Mendo: perdoai-me que vos não fazia justiça.

MENDO

E vós, Alda, se vós me não dizeis uma palavra de...

ALDA

De agradecimento, senhor Mendo Pais?

MENDO

Não digo tanto, mas de...

ALDA

De quê?

MENDO

De... de... – Ao menos pela boa vontade.

ALDA

A vontade! Oh! essa ficai certo que a conheço, e que a não hei de esquecer nunca.

MENDO (retirando-se confuso, e indo ao pé da escada onde está D. Guiomar)

Esta conhece-me, mas não me descobre; tem vergonha.

GUIOMAR (para o irmão)

Então já se resolveu?

MENDO (para Guiomar)

Ainda não. Mas há de partir: digo-te eu. Deixemo-los agora. (Sobe)